Praedicate dicentes: Barnabé, Maria e o dom da missão apostólica

Praedicate dicentes: Barnabé, Maria e o dom da missão apostólica
Euntes autem praedicate dicentes: Adpropinquavit regnum caelorum. Infirmos curate, mortuos suscitate, leprosos mundate, daemones eicite: gratis accepistis, gratis date.
Mt 10,7-8

A Memória de São Barnabé, celebrada a 11 de Junho, honra uma das figuras mais generosas e menos celebradas da Igreja primitiva. José de Chipre, a quem os apóstolos chamaram Barnabé, Bar Nabas«filho do encorajamento» (Act 4,36), foi levita cipriota que vendeu seus bens e colocou o dinheiro aos pés dos apóstolos (Act 4,36-37), que introduziu Paulo de Tarso na comunidade de Jerusalém quando todos o temiam (Act 9,27), que o foi buscar a Tarso quando ninguém mais o faria (Act 11,25-26), e que foi com ele na primeira missão às gentes (Act 13-14). A sua separação de Paulo (Act 15,39), por causa de João Marcos, a quem Paulo queria abandonar e Barnabé não, não foi fraqueza mas compaixão: Barnabé apostou nos que os outros descartavam.

O Evangelho desta festa, Mt 10,7-13, é o discurso de missão que Jesus dirige aos doze antes de os enviar pelas aldeias da Galileia. Nele, a urgência do Reino justifica a radicalidade do estilo missionário: sem bolsa, sem mochila, sem sandálias sobressalentes, confiando na providência dos que acolhem. O princípio central, «grátis recebestes, grátis dai» (gratis accepistis, gratis date), é a lei fundamental de toda a missão cristã autêntica: a graça não se compra nem se vende, e deve circular com a mesma gratuidade com que foi recebida. Barnabé viveu este princípio. Maria, a primeira missionária, inaugurou-o.

I. Barnabé: o Filho do encorajamento

A alcunha de Barnabé, uios parakleseos filho do encorajamento ou da consolação, é uma das caracterizações mais belas de qualquer figura do Novo Testamento. O Paráclito o Espírito Santo, é o Consolador, o Encorajador da Igreja no caminho da missão. E Barnabé é descrito como aquele em quem este dom se tornava visivelmente presente na vida comunitária. A sua generosidade inicial, a venda do campo, é apenas o primeiro de uma série de atos de disponibilidade total ao serviço da missão.

O papel de Barnabé como mediador e abridor de portas é um serviço raramente celebrado mas essencial na vida eclesial. Sem Barnabé, Paulo teria permanecido isolado de Jerusalém, e a história do Cristianismo poderia ter sido radicalmente outra. A generosidade de Barnabé não foi apenas material mas relacional: ele apostou em Paulo quando ninguém apostava, em João Marcos quando Paulo o descartava. Este apostolado da confiança, reconhecer o valor de quem os outros descartam, abrir portas que o medo ou o ressentimento fecharam, é uma das formas mais fecundas de missão apostólica em qualquer época.

A separação de Barnabé e Paulo em Act 15,36-40 é relatada sem julgamento: Lucas simplesmente narra que «a divergência tornou-se tão grande que se separaram». Barnabé levou João Marcos para Chipre. Paulo escolheu Silas para a Ásia Menor. O que poderia parecer um fracasso de comunhão foi na realidade uma multiplicação da missão: dois grupos em vez de um, cobrindo mais território, alcançando mais pessoas. Esta «providência nas rupturas», em que mesmo os conflictos humanos servem à expansão do Evangelho, é um padrão recorrente na história da Igreja, e Barnabé é o seu primeiro exemplo apostólico.

II. «Grátis recebestes, grátis dai»

O princípio da gratuidade missionária, «grátis recebestes, grátis dai», combate a tentação permanente de fazer da graça um negócio. A simonização, o termo deriva de Simão Mago (Act 8,18-24) que quis comprar o dom do Espírito Santo, não é apenas a compra-venda de sacramentos que o direito canónico proíbe: é qualquer atitude que condiciona o serviço eclesial ao retorno, que faz da missão um instrumento de poder ou de influência. A graça, por definição, transborda. O missionário autêntico é o canal, não o proprietário.

A teologia da missão do Concílio Vaticano II, desenvolvida na Evangelii Nuntiandi de Paulo VI (1975) e na Redemptoris Missio de João Paulo II (1990), recuperou esta gratuidade como critério central de autenticidade missionária. A missão que busca poder, influência cultural ou sucesso numérico traiu a sua natureza. A missão autêntica planta sem esperar a colheita, serve sem calcular o retorno, semeia nas margens onde o retorno humano é mínimo. Este estilo, o de Barnabé, que foi para Chipre sem saber se o fruto seria visível, é o de toda a missão cristã fiel ao discurso de Mt 10.

A conexão com Maria é imediata: a Visitação é o arquétipo evangélico da missão gratuita. Maria que foi «às pressas» para as montanhas de Judá não calculou o custo da viagem nem cobrou pela presença. O seu serviço a Isabel, estar presente durante três meses de gravidez, foi um dom sem contrapartida, que não buscou reconhecimento. Este estilo da Visitação é o modelo do discurso de Mt 10: entrar nas casas, dar a paz, servir, partir, sem bolsa nem mochila, confiando na providência. Maria foi a primeira a viver este estilo missionário que Jesus ensinaria aos doze.

III. Maria e Barnabé: abridores de portas

Há uma afinidade profunda entre a espiritualidade de Barnabé e a espiritualidade mariana. Tanto Maria como Barnabé são figuras que «abrem portas», não por iniciativa própria, mas como instrumentos da graça que abre caminhos inesperados. Maria abriu a porta da Encarnação com o «fiat» que tornou possível a presença de Deus no mundo. Barnabé abriu a porta da missão às gentes ao apostar em Paulo, a figura mais improvável do apostolado às nações. Ambos disseram «sim» num momento em que o medo ou o cálculo humano teriam dito «não».

A tradição missionária mariana, desde os Oblatos de Maria Imaculada (fundados por Eugénio de Mazenod em 1816 especificamente para a missão aos pobres e periféricos) até às congregações missionárias femininas, vê em Maria o modelo e a protectora da missão. Esta veneração não é devocionalismo vazio: é o reconhecimento de que o estilo missionário de Mt 10, gratuito, itinerante, vulnerável, confiante na providência, foi vivido de modo insuperável por Maria de Nazaré. A missionária que «partiu às pressas» sem bolsa nem programa é o ícone de toda a missão autêntica.

João Paulo II, na Redemptoris Mater (1987), desenvolveu extensamente a imagem de Maria como a primeira «missionária»: «assim como foi para junto de Isabel com o dom precioso que tinha recebido no momento da Anunciação da mesma forma continua a ir ao encontro dos homens de cada época, levando-lhes o mesmo dom» (RM 22). Esta missão continuada de Maria, não apenas como modelo histórico, mas como intercessora ativa junto do Filho, é o fundamento teológico da devoção missionária mariana que animou Barnabé e que anima a Igreja em cada geração.

IV. O dom do encorajamento: a Igreja que aposta nos descartados

O carisma de Barnabé, reconhecer e apostar no valor de quem os outros descartam, é necessário em cada geração da Igreja. Numa Igreja tentada pela eficiência, pela lógica do sucesso e da visibilidade, o carisma barnabítico é o da aposta nos periféricos: nos que falham, nos que precisam de segunda oportunidade, nos Paulo de Tarsos que a comunidade teme. Este apostolado da confiança, dar crédito onde o medo o nega, é uma das formas mais fecundas e menos celebradas da missão eclesial.

A tradição popular reconhece em Maria a «Barnabé» universal da vida eclesial: a que intercede pelos que ninguém mais intercede, a que abre portas que o pecado fechou. Nas invocações da Salve Regina«a ti suspiramos, gemendo e chorando neste vale de lágrimas… mostra-nos Jesus, fruto bendito do teu ventre», ressoa precisamente o carisma do encorajamento: Maria como aquela que leva os descartados ao encontro do Filho, que não desiste de nenhuma causa perdida, que permanece ao lado dos que a lógica humana já abandonou.

A festa de São Barnabé convida cada comunidade cristã a perguntar: quem são seus Barnabés, aqueles que abrem portas para os excluídos, que confiam nos que falham? E quem são seus Pablos de Tarso, aqueles que precisam de alguém que aposte neles? Este apostolado invisível do encorajamento, que raramente gera manchetes nem é registado nos anais eclesiásticos, é talvez a forma mais necessária e mais fecunda de missão na Igreja do século XXI, e tem em Maria e em Barnabé seus modelos insuperáveis.

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