«Feliz aquela que acreditou»: Lc 1,45 e a fé de Maria

«Feliz aquela que acreditou que se realizaria o que lhe foi dito da parte do Senhor» (Lc 1,45): esta bem-aventurança de Isabel, pronunciada no momento da Visitação, é a única das bem-aventuranças evangélicas endereçada diretamente a Maria. O artigo analisa o versículo no grego original, o seu lugar na narrativa da Visitação, os sinais aceites, o movimento de Maria, a saudação recebida, e o que o texto revela sobre a fé de Maria em sete dimensões teológicas distintas, segundo a exegese lucana.
O grego de Lc 1,45: makaria, o Verbo pisteusasa e o aoristo da fé cumprida
«Feliz aquela que acreditou que as palavras do Senhor se cumprirão» (Lc 1,45): é a bem-aventurança que Isabel proclama a Maria no momento da Visitação. É uma das mais belas frases do Evangelho da Infância e constitui a primeira bem-aventurança do Novo Testamento. Antes do Sermão da Montanha, antes das bem-aventuranças dirigidas aos pobres e aos mansos, é Maria quem recebe a primeira proclamação de felicidade evangélica, e recebe-a pela sua fé: não pela sua santidade, não pela sua maternidade divina, mas porque acreditou. O versículo contextualiza-se na perícope da Visitação (Lc 1,39-56), imediatamente antes do Magnificat, e é chave para compreender o que Lucas quer dizer sobre a fé de Maria.
O sinal de Isabel e a decisão de Maria: por que sobe ao monte de judá sem ordem explícita do anjo Lc 1,36-39)
A questão de por que Maria se dirige imediatamente à montanha de Judá, já que o anjo não lhe deu explicitamente nenhuma ordem nesse sentido, ainda permanece. Bem, se ela sobe à montanha de Judá, não é de forma alguma para verificar a veracidade das palavras do anjo, mas, ao contrário, para aceitar em plena obediência o convite que o anjo implicitamente lhe fez: contemplar o sinal que o Senhor deseja dar-lhe através de Isabel.
Este convite é expresso no “eis”, que literalmente poderia ser traduzido como “olhe”, “veja”! Agora, Maria é a verdadeira fiel que não recusa o sinal que o Senhor lhe concede e sobe à montanha para visitar a parente idosa milagrosamente grávida. Nisso, Maria aparece como o oposto da figura do incrédulo Acaz, que recusou o sinal que o Senhor lhe ofereceu através do profeta Isaías: “Não o pedirei, não quero tentar o Senhor” (Is 7,12). Então, o profeta o repreende severamente: “Não é suficiente para você cansar a paciência dos homens, que agora você quer cansar a paciência do meu Deus?” (Is 7,13).
Como autêntica fiel, Maria empreende sua longa jornada para “ver” o que o Senhor está fazendo no meio de seu povo, para contemplar com Isabel a ação poderosa e salvadora do Deus de Israel e magnificar o Senhor com ela. Assim, também está implícita uma exortação ao leitor: como Maria, ele é chamado a ter uma fé “de olhos abertos“, uma fé que procura compreender o que Deus está fazendo na história de seus outros irmãos e irmãs, em particular oferecendo a eles o sinal mais evidente de sua misericórdia e fidelidade: o dom dos filhos!
Maria em movimento: a Visitação Lc 1,39-45) como acto de fé em acção e cumprimento da promessa angélica
O evangelista apresenta-nos um retrato intenso de Maria “em movimento“. É um movimento que ocorre “rapidamente“, um termo querido a Lucas, usado para indicar um forte impulso religioso, ou seja, uma grande paixão que toma posse do ser humano, como no caso dos pastores que vão “rapidamente” a Belém (Lc 2,16) impelidos pelo anúncio angelical. Também podemos lembrar a pressa de Zaqueu, que desce quase rolando da árvore (Lc 19,6), embora não seja usada a mesma palavra grega, e a prontidão dos discípulos de Emaús que retornam à cidade para anunciar aos Onze a ressurreição do Senhor.
Além disso, uma “pressa” semelhante pode ser encontrada em vários textos do Antigo Testamento, todos permeados de atmosfera religiosa, como, por exemplo, a pressa de Abraão junto aos carvalhos de Mambré ao correr para o rebanho e preparar um banquete para os três divinos hóspedes (cf. Gen 18).
Lucas aqui quer destacar a vontade de chamar a atenção do leitor para a prontidão e agilidade de Maria ao subir à montanha de Judá. Com essa imagem, ele deseja provocá-lo positivamente e implicitamente fazê-lo refletir sobre sua prontidão para a missão e reconhecer a necessidade de superar a hesitação e as dúvidas que muitas vezes impedem a adesão fiel à promessa divina.
O destino da viagem também é muito significativo: “a região montanhosa“. Maria vai em direção a uma aldeia cujo nome permanece anónimo, mas com um horizonte facilmente reconhecível, ou seja, as montanhas que cercam Jerusalém. Isso remete-nos de forma inegável ao famoso versículo de Is 52,7: “Como são belos sobre os montes os pés do mensageiro de boas-novas… que diz a Sião: ‘Reina o teu Deus’“.
A saudação de Maria a Isabel Lc 1,40-41): o encontro das duas mães e a efusão do Espírito Santo na Visitação
A jornada encerra-se com a entrada na casa de Zacarias e a saudação a Isabel. Na saudação de Maria, não existe apenas o cumprimento de uma formalidade, de um costume de boa educação, mas uma palavra eficaz que realiza o que é prometido. Com a “missionária” Maria, já se verifica o que Jesus dirá aos Seus enviados: “Em qualquer casa que entrarem, digam primeiro: ‘Paz a esta casa!’ Se houver um filho da paz, a paz de vocês repousará sobre ele” (Lc 10,5-6).
O dom da paz, da alegria abundante, acompanha a saudação de Maria a Isabel. Isabel é preenchida com o Espírito Santo, e o bebé sussulta de alegria em seu ventre. Estes são os frutos das boas notícias: quando entra na vida de alguém, como no caso de Isabel que recebe a saudação de paz de Maria, ela produz alegria e alimenta aquela exultação incontrolável gerada pelo derramamento do Espírito, o dom dos novos tempos messiânicos.
Isabel, sendo cheia do Espírito Santo, fala então com palavras proféticas, e também pode ser corretamente afirmado que, através dela, fala também o bebé que ela carrega em seu ventre, pois ele também está cheio do Espírito Santo. Dessa forma, o leitor, por meio das palavras de Isabel, é convidado a compartilhar sua admiração por Maria, a serva do Senhor e a fiel!
A cena de alegria exuberante lembra mais uma vez o texto de Isaías sobre a chegada do mensageiro de boas novas a Sião. A resposta de Isabel é um clamor alto, um grito de exultação, assim como o das sentinelas de Jerusalém que recebem a notícia emocionante em primeira mão: “Ouça! Suas sentinelas levantam a voz, juntas gritam de alegria, pois veem com seus próprios olhos o retorno do Senhor a Sião” (Is 52,8).
Enquanto isso, Maria permanece em silêncio e ouve as palavras de Isabel. Ela é uma figura silenciosa extremamente sugestiva porque, além de anunciar a boa notícia e trazer a saudação esperada de paz, sabe também ficar em silêncio e ouvir, contemplando os frutos do Evangelho nos corações. Então, o silêncio acabará, e quando ela falar, será apenas para magnificar o seu Deus.
Lucas está a traçar um retrato ideal do cristão que se torna testemunha: O anúncio verdadeiramente eficaz tem suas raízes na escuta e na contemplação! O que está a acontecer nesta casa de Zacarias com o encontro das duas mulheres é um maravilhoso evento de comunhão no amor e na fé. É um evento que tem como protagonistas não apenas as mães, mas também os filhos. Isabel reconhece em Maria não apenas uma parente que deseja estar perto dela em um momento de necessidade, mas o cumprimento da promessa de Deus de visitar o Seu povo.
É o Deus que visita a humanidade dando vida e pedindo a ela que colabore com o Seu plano de salvação, reconhecendo assim no dom do filho a Sua própria presença próxima. É um evento de comunhão em que transparece um aspecto do povo de Deus como uma comunidade formada por uma rede de famílias, simbolizada aqui pelas duas mulheres que se abraçam e se alegram juntas. É uma alegria contagiosa, cheia de admiração, que se estende à comunhão que as duas mães experimentam com os filhos, sentindo a exultação deles em seus ventres.
O silêncio de Maria e o louvor de Isabel Lc 1,41-44): a fé como escuta activa e a profecia sobre pisteusasa
Enquanto isso, Maria permaneceu em silêncio e ouviu o discurso de Isabel. Ela é uma figura silenciosa extremamente sugestiva porque, além de anunciar as boas notícias e trazer a saudação esperada de paz, sabe também ficar em silêncio e ouvir, contemplando os frutos do Evangelho nos corações. Então, o silêncio acabará, e quando ela falar, será apenas para magnificar o seu Deus. Lucas está assim a traçar um retrato ideal do cristão que se torna testemunha: o anúncio verdadeiramente eficaz tem suas raízes na escuta e na contemplação!
Examinemos agora de perto o discurso de Isabel. Ela começa com uma aclamação que não deve ser considerada apenas uma simples felicitação: “Bendita és tu entre as mulheres” (v. 42), e conclui com outra exclamação, uma bem-aventurança: “bem-aventurada aquela que acreditou…” (v. 45). No meio há uma frase interrogativa, cheia de surpresa e maravilha: “Por que a mãe do meu Senhor vem a mim?” A partir deste versículo, é útil começar a compreender o discurso de Isabel sobre Maria.
Ela destaca toda a sua indignidade e, por contraste, a eminente dignidade da “mãe do meu Senhor“. Aqui podemos perceber um eco de um episódio do Antigo Testamento, o de Davi, que se pergunta surpreso o motivo pelo qual Deus decidiu entrar em sua casa: “Como a arca do Senhor virá a mim?” (2 Sam 6,9). No entanto, a pergunta de Davi também indica sua hesitação em receber a arca do Senhor, algo “temível” para o homem. Aqui, por outro lado, o espanto de Isabel está completamente imbuído de alegria, admiração e gratidão, sem qualquer sombra de medo.
A expressão com a qual Isabel se dirige a Maria indica a razão pela qual a grandeza e a dignidade incomparáveis daquela que veio visitá-la: o filho que Maria carrega em seu ventre é “o Senhor“! Pode-se dizer também que a grandeza do Filho comunica ainda mais dignidade à mãe. Se na Israel antiga a maternidade sempre foi algo de muito alto, essa gravidez de Maria é uma maternidade de dignidade ainda mais inalcançável devido à natureza divina do filho que lhe foi dado pelo Altíssimo.
As afirmações de Isabel precisam de uma explicação para não parecerem exageradas ou excessivas. É o que ela se apressa a esclarecer: “Assim que o som da sua saudação chegou aos meus ouvidos, o bebé sussultou de alegria no meu ventre” (v. 44). Isabel fala de si mesma, mas apenas para mostrar a consciência da própria pobreza e humildade, juntamente com a alegria pela graça inmerecida que recebeu com a visita de Maria em sua casa, uma graça que se soma àquela do filho que está a crescer dentro dela. Humildade e fé são inseparáveis, e é somente na humildade que reconhecemos a grandeza de Deus.
Agora, detemo-nos nas duas frases exclamativas que abrem e fecham o discurso de Isabel: a bênção inicial e a bem-aventurança final. A exclamação inicial de Isabel (“Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre!“) não é uma citação directa da Bíblia, mas é um tema muito conhecido no Antigo Testamento (cf. Jz 5,24; Jz 13,18). Pode-se pensar aqui nas bênçãos de Abraão por Melquisedeque, após a vitória sobre os quatro reis (Gen 14,19ss).
O que todos esses textos têm em comum é que essas bênçãos são proclamadas sobre o herói ou heroína que acabou de conquistar uma vitória extraordinária. Bem, de que vitória se trata aqui para Maria? Claramente, é a vitória de sua fé, alcançada através da obediência pronta e confiante ao projecto de Deus. Nos textos análogos do Antigo Testamento, após a bênção do herói ou heroína, geralmente segue-se a bênção de Deus, pois Ele garantiu a vitória ao Seu herói (cf. Gen 14,19-20).
Aqui, algo semelhante acontece, mas também profundamente diferente e original: após a bênção da mãe, segue-se a bênção do filho que ela carrega em seu ventre. Pode-se considerar, então, esta última bênção uma proclamação da acção benevolente de Deus em relação ao filho que ela carrega, da mesma forma que aquela dirigida à mãe, ou, e isso parece mais pertinente, deve-se entender que Isabel eleva sua bênção àquele “fruto do ventre de Maria“, precisamente porque Ele é Aquele que lhe deu a vitória! Interpretando dessa forma, as duas frases, respeitando o substrato aramaico da frase dita por Isabel sobre Maria, soariam como: “Tu és bendita entre as mulheres, pois o fruto do teu ventre é o Bendito“.
Lc 1,45: a bem-aventurança de Isabel e as dimensões teológicas do Verbo pisteusasa
Agora, chegamos à exclamação com a qual Isabel encerra seu discurso e proclama a bem-aventurança de Maria: “E bem-aventurada aquela que acreditou na realização do que o Senhor lhe disse” (v. 45). Deve-se notar que a expressão semítica subjacente às afirmações bíblicas de “bem-aventurado/a” nunca é uma exclamação isolada, mas sempre se refere a um sujeito explícito, para o qual a razão dessa felicitação é de alguma forma motivada. Em outras palavras, nunca há a exclamação “bem-aventurado!” sem que seja indicado “quem” é bem-aventurado.
A bem-aventurança diferencia-se da bênção, embora esteja próxima. A bênção vem de cima e é, portanto, uma realização eficaz de felicidade em relação ao “abençoado“. A bem-aventurança não produz, mas constata com admiração a felicidade de alguém, de alguma forma participa dela e desperta o desejo por ela. Deve-se também observar que a “bem-aventurança” é uma forma literária fundamentalmente relacionada à esfera religiosa. Não se proclama alguém como “bem-aventurado” simplesmente porque possui bens materiais, independentemente de seu eventual significado religioso.
A bem-aventurança, em última análise, proclama a salvação, exaltando com louvor uma pessoa ou um grupo de indivíduos, exactamente por causa de sua condição de salvação que os torna bem-aventurados, felizes. Aqui, a bem-aventurança de Maria é reconhecida como fundamentada em sua fé, pela qual ela reconhece o cumprimento da palavra do Senhor, afirmando a fidelidade e a bondade da acção divina em relação à humanidade.
Portanto, a declaração de bem-aventurança também é uma explicação: Maria está na bem-aventurança da fé, porque na fé, ao acreditar na Palavra de Deus, ela tornou-se a Mãe do Senhor (cf. Lc 8,21; 11,38)! Assim, às palavras inspiradas de Isabel, cheias de admiração pela Mãe do Senhor, Maria responderá, em seu Magnificat, desviando o foco de sua pessoa para a santidade e misericórdia de Deus, que realizou “grandes coisas” nela.
Nele, Maria entoa um cântico de louvor articulado em três momentos intimamente ligados: gratidão transbordante pelo que o Senhor fez nela, alegria pelo estilo paradoxal da intervenção divina na história humana e, finalmente, a exaltação de Sua fidelidade em cumprir as promessas feitas a Israel e destinadas a toda a humanidade.
A Visitação como evangelho da vida: fé, geração e a missão de Maria na narrativa de Lucas
A passagem da Visitação representa uma imagem da vocação que a família expressa e vive através da geração de um filho. Maria ouve a palavra do anjo e responde com um “sim” de fé. Esse “sim” constitui a condição para que a promessa de Deus se concretize. Nesse mesmo momento da concepção, Jesus é destinado de acordo com uma vocação e uma promessa que vêm de Deus e são abraçadas pela fé de Maria. Essa vocação concentra-se no próprio nome de Jesus, que significa “Deus salva“.
É importante notar que o primeiro resultado desse evento de salvação é uma comunhão de amor e fé que envolve não só as mães, mas também os filhos. Sua vocação está intrinsecamente ligada à resposta de fé das mães. É surpreendente notar que os bebés no ventre das mães exultam de alegria a ponto de as mães serem capazes de perceber essa alegria e compartilhá-la com eles.
Esse duplo ouvir, da Palavra de Deus e do evangelho da vida que emana dos filhos, revela os elementos-chave do compromisso que caracteriza a acção educativa dos pais. Além disso, constitui a base para a formação da comunidade no Reino de Deus. Essa realidade encontra uma expressão profunda na frase escolhida: “Bem-aventurada Aquela que acreditou…”.
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Sobre a fé de Maria celebrada nas palavras de Lc 1,45, «Feliz aquela que acreditou», consulte a Encíclica Redemptoris Mater do Papa João Paulo II.
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