«Bem-aventurados os que não viram e creram»: Maria, ícone da fé na divina misericódia.

«Bem-aventurados os que não viram e creram»: Maria, ícone da fé na divina misericódia.

«Beati qui non viderunt et crediderunt»
Jo 20,29, Evangelho do Domingo da Divina Misericórdia

Meditação mariológica a partir das leituras do Domingo da Divina Misericórdia

O segundo Domingo de Páscoa, Domingo da Divina Misericórdia, instituído por São João Paulo II no ano 2000, é o «oitavo dia» da criação redimida: o dia que, ao situar-se para além da semana, aponta para a eternidade. O Evangelho deste dia (Jo 20,19-31) relata dois encontros do Ressuscitado com os discípulos reunidos: o primeiro no domingo da Ressurreição, quando Tomé estava ausente. O segundo oito dias depois, quando Tomé está presente e o Senhor o convida a tocar as chagas. E a beatitude final, «Bem-aventurados os que não viram e creram» (Jo 20,29), é a mais solene afirmação evangélica sobre a natureza da fé pascal. A mariologia descobre aqui a figura suprema de Maria: a que acreditou sem ver, a que nunca precisou de tocar as chagas para confiar no Filho.

I. A primeira leitura: At 4,32-35 e a comunhão de bens da Igreja nascente

A liturgia do Domingo da Divina Misericórdia abre com a descrição da comunidade de Jerusalém: «A multidão dos fiéis tinha um só coração e uma só alma. Ninguém chamava seu o que possuía, mas tudo lhes era comum» (At 4,32). Esta koinonia, a comunhão fraterna que caracteriza a Igreja nascente, tem, para a tradição mariológica, um modelo preciso: a casa de Nazaré. Maria viveu durante trinta anos na koinonia perfeita com o Filho e com José, um silêncio fecundo de partilha total. O Directório sobre a Piedade Popular e a Liturgia recorda que a família de Nazaré é a «imagem da Igreja doméstica» (n. 166).

E no coração desta koinonia estava a Misericórdia. «Com grande poder, os apóstolos davam testemunho da Ressurreição do Senhor Jesus» (At 4,33): este «grande poder» é o poder da misericórdia que perdoa, que restaura, que devolve dignidade. João Paulo II, na Dives in Misericordia, afirmava que «Maria é a que mais profundamente conhece o mistério da misericórdia divina» (DM 9). A misericórdia que a Igreja proclama no segundo Domingo de Páscoa não é uma abstração: tem um rosto, e esse rosto é o de Jesus, gerado de Maria.

II. O evangelho: Jo 20,19-31 e a fé de Tomé e a fé de Maria

O episódio de Tomé (Jo 20,24-29) é um dos mais meditados da tradição cristã. Tomé afirma: «Se não vir as marcas dos pregos nas suas mãos, se não meter o meu dedo no lugar dos pregos e não meter a minha mão no seu lado, não acreditarei» (Jo 20,25). Oito dias depois, o Ressuscitado cede: «Mete aqui o teu dedo e vê as minhas mãos. Estende a tua mão e mete-a no meu lado. E não sejas incrédulo, mas fiel» (Jo 20,27). E Tomé proclama: «Meu Senhor e meu Deus» (Jo 20,28).

A beatitude que se segue, «Bem-aventurados os que não viram e creram» (Jo 20,29), é, na economia joânica, a definição da fé da Igreja para todos os tempos. Mas antes da Igreja, quem foi esta fé? Maria. Ela que disse «Faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1,38) sem ver o que crê. Ela que permaneceu «de pé» junto à Cruz (Jo 19,25) sem ver a Ressurreição que crê. Ela que esperou no Cenáculo (At 1,14) sem ver o Pentecostes que aguarda. A beatitude «os que não viram e creram» tem em Maria a sua realização mais plena e, através de Maria, estende-se a todos os que, ao longo dos séculos, acreditam sem ver o Ressuscitado.

III. Divina misericórdia e Maria: «a que mais profundamente conhece o mistério»

A devoção à Divina Misericórdia, cujas origens espirituais se ligam às visões de Santa Faustina Kowalska, insere-se num contexto mariológico que João Paulo II explicitou na Dives in Misericordia: Maria «conhece mais completamente do que qualquer outra criatura o mistério da misericórdia divina. Ela sabe o seu preço. Sabe como ele é grande» (DM 9). Este conhecimento não é teórico: é o conhecimento de quem viu o Filho ser rejeitado, açoitado, crucificado, e que ficou «de pé», histémi, porque cria que da morte brotava a vida.

O Domingo da Divina Misericórdia é, assim, um domingo eminentemente mariano: celebra a misericórdia que o Filho encarnado de Maria derramou do alto da Cruz e do sepulcro vazio. A imagem da Divina Misericórdia, o Ressuscitado com os raios de luz vermelha e branca brotando do peito, é a imagem do Filho de Maria que dá, da sua humanidade recebida de uma Mulher, a misericórdia que salva o mundo. Não há Divina Misericórdia sem Encarnação, não há Encarnação sem o Fiat de Maria.

IV. A oitava completa: Maria e o sentido do «oitavo dia»

O «oitavo dia», a expressão que a patrística usou para designar o Domingo de Páscoa e, por extensão, o Domingo da Divina Misericórdia, é o símbolo da eternidade que transborda a semana da história. Basílio de Cesareia escrevia que «o Senhor chama oitavo o dia que nenhum dia dos que conhecemos pode figurar adequadamente» (Sobre o Espírito Santo, 27). Maria, que foi assunta ao Céu em corpo e alma, vive já neste «oitavo dia» definitivo. A sua Assunção é, para a Lumen Gentium, «o sinal de esperança certa e de consolação para o povo de Deus em peregrinação» (LG 68).

A semana de Páscoa chegou ao fim. Oito dias que transformam o mundo: do sepulcro vazio ao Cenáculo dos Onze, de Emaús ao Lago de Tiberíade, do luto de Madalena à fé de Tomé. E em todos estes dias, na margem da narrativa mas no centro do mistério, estava Maria: a que acreditou em primeiro lugar, a que não duvidou, a que esperou. «Bem-aventurados os que não viram e creram», a beatitude do Domingo da Divina Misericórdia é a beatitude de Maria. E, por ela, a beatitude de todos os que aprendem com a Mãe a forma mais pura da fé pascal.

O Domingo da Divina Misericórdia fecha a Oitava da Páscoa e abre o Tempo Pascal. A Igreja entra neste tempo nova: ressuscitada com Cristo (Cl 3,1), alimentada pela Eucaristia, enviada em missão. E leva consigo Maria, a Mãe que não viu as chagas de Tomé mas que carregou no ventre o corpo que as chagas marcaram. A misericórdia que salva o mundo tem o rosto do Filho de Maria. E esse rosto, todos os domingos, a Igreja contempla.

Por que Maria é chamada “ícone da fé” na tradição mariológica?

Maria é chamada “ícone da fé” porque viveu na sua plenitude a beatitude “Bem-aventurados os que não viram e creram” (Jo 20,29): nunca viu o sepulcro vazio com dúvida, mas manteve a fé íntegra durante o Sábado Santo, quando os discípulos dispersaram. O Redemptoris Mater (n. 18) afirma que a fé de Maria “precedeu” a testemunha apostólica e que ela é “bem-aventurada porque creu” (Lc 1,45), tornando-se assim o modelo supremo de fé pascal para toda a Igreja.

Qual é a relação entre a divina misericórdia e Maria na espiritualidade católica?

A devoção à Divina Misericórdia, desenvolvida através das visões de Santa Faustina Kowalska, reconhece em Maria a “que mais profundamente penetrou no mistério da misericórdia divina”, expressão usada por João Paulo II na Dives in Misericordia (n. 9). Maria, que contemplou no Calvário a misericórdia de Deus em ação, é considerada a primeira beneficiária e intercessora da misericórdia de Cristo. O Domingo da Divina Misericórdia, instituído por João Paulo II, é assim também um domingo eminentemente mariano.

O que é o “oitavo dia” e qual o seu significado mariológico?

O “oitavo dia” é uma expressão patrística para designar o domingo, que transcende os sete dias da criação e aponta para a eternidade inaugurada pela Ressurreição. A mariologia vê neste símbolo a plenitude escatológica: Maria, assumida em corpo e alma ao céu, já habita plenamente no “oitavo dia” eterno. A sua intercessão maternal une o tempo litúrgico da Oitava da Páscoa à eternidade pascal, tornando-a mãe e guia da Igreja peregrina em direção à plenitude prometida.

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Para aprofundar a teologia mariana da fé e o papel de Maria na história da salvação, consulte a Encíclica Redemptoris Mater do Papa João Paulo II.

Prof. Daniel Afonso

Roma, Domingo da Divina Misericórdia, 12 de abril de 2026

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