Vinum novum in utres novos: Maria, o vinho novo e os odres novos

Nemo mittit vinum novum in utres veteres. Alioquin rumpuntur utres, et vinum effunditur, et utres pereunt: sed vinum novum in utres novos mittunt, et ambo conservantur.
Mt 9,17
O sábado da semana XII do Tempo Comum é, na tradição litúrgica, o Sábado de Nossa Senhora, o dia em que, desde o século XII pelo menos, a Igreja latina dedicou o último dia da semana litúrgica à memória de Maria. A perícope evangélica deste sábado, Mt 9,14-17, sobre o jejum dos discípulos e os odres novos, oferece uma chave hermenêutica surpreendentemente rica para compreender o carisma mariano: Maria como «odre novo» que pôde conter o «vinho novo» da Encarnação.
A questão dos discípulos de João, «por que é que os teus discípulos não jejuam»?, e a resposta de Jesus em três imagens (os convidados do noivado, o remendo velho/novo, o vinho novo/odres velhos) descrevem a natureza do tempo novo inaugurado pela presença de Jesus. O jejum é sinal de espera e de luto. A presença do Noivo torna o luto em festa. O remendo novo no pano velho destruiria ambos. O vinho novo nos odres velhos estouraria ambos. A novidade do Evangelho, a graça que Jesus traz, não pode ser simplesmente «remendada» sobre as estruturas antigas: exige recipientes novos, disponibilidade nova, coração novo.
I. O jejum dos discípulos: alegria e tempo nupcial
A resposta de Jesus à questão do jejum, «podem os convidados do noivado estar tristes enquanto o noivo está com eles»? (Mt 9,15), é uma das autodeclarações mais veladas mas mais significativas do Evangelho de Mateus. Jesus identifica-se implicitamente com o Noivo, uma identificação que a tradição veterotestamentária reservava para Yahvé em relação a Israel (Os 2,16-22. Jr 2,2. Ez 16. Ct). Ao apresentar-se como o Noivo cuja presença exclui o luto, Jesus reclama para si a relação que os profetas descreveram entre Deus e o seu povo.
A imagem nupcial tem um alcance mariológico imediato: Maria é, na tradição patrística e medieval, a «Esposa» que recebeu o «Noivo» na Anunciação. A interpretação patrística do Cântico dos Cânticos como descrição da relação entre o Logos e a alma humana em geral e Maria em particular, desenvolvida por Orígenes, Bernardo de Claraval, e a tradição carmelita, vê no fiat a resposta da Esposa ao Noivo que bate à porta. O sábado mariano como dia de alegria nupcial, não de jejum, tem, neste contexto, uma coerência teológica precisa: é o dia em que se celebra a relação entre o Noivo e a sua primeira e perfeita Esposa.
A nota sombria que Jesus acrescenta, «virão dias em que o Noivo lhes será tirado, e então jejuarão» (Mt 9,15b), introduz a dimensão pascal: a alegria do seguimento é real mas não isenta da Cruz. O «tempo nupcial» da vida pública de Jesus termina no Calvário. O jejum dos discípulos começa com a morte de Jesus e a experiência do abandono do Sábado Santo. Maria viveu este Sábado Santo, o dia entre a morte e a Ressurreição, de modo singular: a tradição contempla Maria nesse dia como aquela que, ao contrário dos discípulos, manteve viva a fé. O sábado mariano é, portanto, também o dia do Sábado Santo: a vigília na espera da Ressurreição.
A alternância entre festa e jejum, entre o tempo do Noivo e o tempo da sua ausência, descreve o ritmo da vida espiritual cristã que a tradição mística identificou como «consolação e desolação». A instrução de Inácio de Loyola sobre a desolação espiritual, «não fazer mudanças nas determinações que se tomaram no tempo de consolação», é precisamente a resposta ao tempo de jejum: permanecer fiel ao que se comprometeu no tempo de alegria, sabendo que a consolação regressará. Maria é o modelo desta fidelidade na desolação: o Sábado Santo foi o seu tempo de maior jejum, e ela permaneceu.
II. Odres novos para o vinho novo: renovação interior
A imagem dos odres novos para o vinho novo é uma das metáforas mais usadas na tradição cristã para descrever a necessidade de renovação interior como condição para receber os dons novos do Espírito. Os «odres velhos» são as estruturas interiores endurecidas, as certezas que fecham, os hábitos que impedem a surpresa, os preconceitos que filtram a realidade antes de a encontrar. O «vinho novo» é a graça, o dom do Espírito, a novidade que Deus quer introduzir na história pessoal e comunitária. A condição para que o vinho novo não estoire os odres é a renovação da disponibilidade interior.
A história da Igreja mostra que a resistência à renovação, o apego aos «odres velhos» das formas culturais, litúrgicas, teológicas, institucionais, foi uma das tentações recorrentes. O Concílio Vaticano II foi explicitamente descrito pelos seus protagonistas como um esforço de criar «odres novos», novas formas de vida eclesial que pudessem conter o «vinho novo» do Evangelho numa época radicalmente nova. A resistência ao Vaticano II por parte de alguns sectores da Igreja é, teologicamente, a resistência dos «odres velhos» que preferem o vinho já fermentado à novidade do Espírito.
A renovação carismática contemporânea, os movimentos de renovação no Espírito que emergiram na segunda metade do século XX, viu na imagem dos «odres novos» a sua própria vocação: criar comunidades de fé com formas novas (oração carismática, testemunho pessoal, liturgia participada) que pudessem conter a efusão do Espírito que o movimento experimentava. A avaliação destes movimentos pelos critérios do Art70 (os frutos) é o modo correcto de discernir: onde os «odres novos» produzem frutos de amor, serviço e conversão, o vinho é autêntico. Onde produzem divisão, arrogância espiritual e fuga das responsabilidades ordinárias, os «odres» podem ser novos mas o vinho é duvidoso.
A renovação interior que a imagem dos odres descreve é, na tradição espiritual, o fruto da conversão contínua, a metanoia permanente que impede o endurecimento espiritual. Inácio de Loyola, no Exame de Consciência que propôs como prática diária, visava precisamente isto: a consciência quotidiana dos movimentos interiores, dos endurecimentos subtis, das resistências nascentes, para que os «odres» não endureçam antes de o «vinho» acabar de fermentar. O sábado mariano, como dia de reflexão sobre a semana que passou, tem uma função análoga: a consciência dos «odres» que endureceram durante a semana e que precisam de ser renovados antes da semana que começa.
III. Maria como odre novo: a disponibilidade total
A mariologia usa a imagem dos odres novos para descrever a singularidade da disponibilidade de Maria para a Encarnação. Os Padres da Igreja, particularmente Epifânio de Salamina (século IV), descreveram Maria como o «vaso puro» que pôde conter o Verbo de Deus porque era inteiramente disponível, sem resistências interiores, sem endurecimentos de egoísmo ou de pecado. A doutrina da Imaculada Conceição articula teologicamente esta intuição: Maria foi preservada do pecado original, do endurecimento estrutural que afecta a liberdade humana, precisamente para ser o «odre novo» capaz de conter o «vinho novo» da Encarnação.
Esta imagem não implica que Maria fosse passiva ou que a sua disponibilidade fosse automática. Os teólogos que insistiram na liberdade do fiat Duns Escoto, Hans Urs von Balthasar, João Paulo II em Redemptoris Mater sublinham que a disponibilidade de Maria foi uma resposta livre, não uma necessidade de natureza. Os «odres novos» de Maria não eram apenas uma condição prévia à Encarnação: eram o fruto de uma vida de disponibilidade crescente, de fidelidade às moções do Espírito, de amor activo que foi tornando o coração cada vez mais capaz de receber o dom maior.
A devoção mariana do sábado tem, neste contexto, uma função espiritual precisa: é o dia em que o fiel pede a Maria que o ajude a «renovar os odres», a disponibilidade interior que a semana pode ter endurecido. O cansaço, as frustrações, as decepções, os pecados da semana podem ter criado resistências e endurecimentos que impedem a recepção do «vinho novo» do Domingo que se aproxima. A contemplação de Maria como «odre novo» é um convite à renovação da disponibilidade: «como Maria disse sim, pede-Lhe que te ajude a dizer sim ao que o Senhor quer introduzir em ti».
A frase do anjo na Anunciação, «cheia de graça» (kecharitomene o particípio perfeito passivo indica uma plenitude de graça recebida e permanente), descreve Maria precisamente como o odre que a graça encheu completamente, sem espaço para o vazio. O «vinho novo» da Encarnação encontrou um odre capaz de o conter porque estava cheio da graça prévia que o preparara. A espiritualidade mariana convida o fiel a pedir a mesma graça: não a plenitude imediata que Maria tinha, mas o crescimento progressivo na disponibilidade que torna possível receber cada vez mais do «vinho novo» que o Senhor quer dar.
IV. O sábado mariano: contemplar a mãe do vinho novo
A origem histórica do sábado mariano remonta ao século XII, com a difusão da devoção mariana promovida por Bernardo de Claraval e pelos cistercienses. A tradição, consolidada pela Missa da Bem-Aventurada Virgem Maria no Sábado introduzida por Alcuíno no século IX e generalizada no século XII, vê no sábado o dia em que Maria «guardou a fé», o sábado entre a morte e a Ressurreição em que os discípulos duvidaram e Maria permaneceu. Neste sentido, o sábado mariano é o dia da fé perseverante, da espera activa, da «noite escura» que precede a aurora do Domingo.
A contemplação de Maria no sábado tem uma dimensão escatológica: Maria está já na plenitude da Ressurreição, a doutrina da Assunção afirma que ela está já com o Ressuscitado em corpo e alma. O sábado mariano é, portanto, a antecipação contemplativa do que o Domingo afirma: a vitória da vida sobre a morte, a plenitude do «vinho novo» na qual Maria está já mergulhada. Contemplar Maria no sábado é contemplar o fim para o qual a vida cristã caminha: a plenitude da graça que ela já possui e que o discípulo ainda espera.
A Liturgia das Horas do sábado tem uma tonalidade específica: os hinos vespertinos do sábado, como o Ave Maris Stella e o Salve Regina da Completa, exprimem uma entrega confiante do final do dia e da semana a Maria, que «veila» sobre os que dormem na paz de Deus. Esta confiança nocturna em Maria, a mãe que permanece acordada quando os filhos dormem, tem uma raiz bíblica no episódio do Getsémani: os discípulos dormiram enquanto Jesus agonizava. Maria, não presente fisicamente naquele jardim, estava presente espiritualmente, acordada na fé, como a sentinela do Sl 130 que «espera o Senhor mais do que o guarda espera a aurora».
O «vinho novo» que a liturgia do Domingo celebrará, o sangue de Cristo derramado na Eucaristia, o «fruto da videira» transfigurado na Ceia, tem em Maria o seu «odre novo» por excelência. A Eucaristia dominical é o «vinho novo» que os «odres novos» dos fiéis precisam de estar prontos a receber. O sábado mariano é a preparação desses odres: o dia em que, pela contemplação de Maria, o coração se renova na disponibilidade, no silêncio, na espera da Ressurreição que o Domingo trará. O fiel que chega ao Domingo com os «odres renovados» pode receber o «vinho novo» com toda a plenitude, e isso é o dom que Maria, a mãe do Vinho novo, intercede para todos os filhos.
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