Elizabetha peperit filium: João baptista, Maria e a alegria do precursor

Elizabetha peperit filium: João baptista, Maria e a alegria do precursor
Elizabetha autem impletum est tempus pariendi, et peperit filium. Et audierunt vicini et cognati eius, quia magnificavit Dominus misericordiam suam cum illa, et congratulabantur ei.
Lc 1,57-58

A Solenidade da Natividade de São João Baptista (24 de Junho) é uma das festas mais antigas do calendário cristão, celebrada já no século IV, e uma das raras ocasiões em que a Igreja festeja o nascimento de um santo e não apenas a sua morte martirológica. A singularidade de João Baptista no conjunto dos santos é precisamente esta: o seu nascimento é ele próprio um evento salvífico, a preparação imediata da vinda de Cristo. O relato de Lc 1,57-66.80 narra o nascimento, a circuncisão e a imposição do nome «João», nome dado por Deus e confirmado pelo mudismo recuperado de Zacarias. A alegria dos vizinhos e parentes, a admiração pela criança sobre quem «a mão do Senhor estava», e o crescimento no deserto até ao dia da sua manifestação a Israel: são os elementos de uma narrativa que Lucas compõe em paralelo deliberado com a narrativa da infância de Jesus.

A conexão com Maria é constitutiva da narrativa lucaniana da infância de João: a Visitação (Lc 1,39-56) precede o nascimento de João e é o contexto no qual João recebe a sua primeira santificação, «quando Isabel ouviu a saudação de Maria, o menino saltou de alegria no seu ventre» (Lc 1,41). O primeiro «testemunho» de João sobre Jesus aconteceu antes do nascimento de ambos: João reconheceu a presença do Messias no ventre de Maria antes de qualquer revelação verbal, pelo salto de alegria que Lc 1,44 atribui explicitamente ao Espírito Santo. Maria foi o veículo pelo qual João recebeu a sua missão antes de nascer, e esta anterioridade da mediação mariana marca toda a teologia do Precursor.

I. «Elizabetha peperit filium»: a alegria do nascimento improvável

Isabel era «estéril e já avançada em anos» (Lc 1,7), a esterilidade no mundo bíblico não era apenas uma condição médica mas uma situação de desonra social e de aparente abandono divino. O padrão bíblico da graça que nasce onde a natureza falhou percorre toda a história da salvação: Sara (Gn 11,30 → Gn 21), Ana, mãe de Samuel (1Sm 1), a mãe de Sansão (Jz 13), a Sunamita (2Rs 4). Em cada caso, a esterilidade é o fundo escuro sobre o qual a graça de Deus aparece com maior claridade: Deus não precisa de condições favoráveis para agir, actua precisamente onde as condições humanas são desfavoráveis, para que a glória seja reconhecidamente sua.

O nascimento de João é, neste contexto, não apenas a alegria de Isabel mas a manifestação pública de que «o Senhor magnificou a sua misericórdia para com ela» (Lc 1,58, emegas kyrios to eleos autou met’ autes). A «misericórdia» de Deus, o hesed hebraico, o amor leal que não abandona, manifestou-se concretamente no ventre de Isabel. Os vizinhos e parentes «alegravam-se com ela», a alegria que começa num ventre transborda para a comunidade. Esta estrutura, graça pessoal que se torna alegria comunitária, é paralela à estrutura da Visitação: Maria recebeu a graça da Anunciação e imediatamente foi partilhá-la com Isabel. Isabel recebeu a graça do nascimento de João e imediatamente a comunidade se rejoubilou com ela.

A analogia entre o nascimento de João e o nascimento de Jesus é deliberada em Lucas. Ambos são anunciados por Gabriel (Lc 1,19 a Zacarias. Lc 1,26 a Maria). Ambos são caracterizados como obras do Espírito Santo (Lc 1,15.35). Ambos são recebidos com alegria que ultrapassa os pais (Isabel, Maria, vizinhos, pastores, magos). Lucas traça um paralelo cuidadoso para sublinhar que João e Jesus são inseparáveis, não rivais mas complementares: João prepara o que Jesus realiza, a «voz» prepara o caminho para o «Verbo».

O «magnificat» que Maria cantou na Visitação (Lc 1,46-55) antecipou o nascimento de João com a linguagem do louvor: «fez proezas com o seu braço… encheu de bens os famintos… socorreu Israel seu servo». Maria celebrou com antecedência a vinda de João, porque João é parte do projecto que o «sim» de Maria tornara possível. Não há João Baptista sem Maria: foi através da presença de Maria que João saltou de alegria no ventre de Isabel e recebeu a sua missão.

II. «O seu nome é joão»: a identidade que Deus dá

O episódio da imposição do nome (Lc 1,59-63) é narrativamente crucial: a família queria chamar a criança «Zacarias», como o pai, em conformidade com a tradição de perpetuar o nome familiar. Isabel impõe: «não, chamará João» (Lc 1,60). A objecção dos parentes, «ninguém na tua parentela tem esse nome» (1,61), revela o que está em jogo: o nome é a identidade, a pertença, a continuidade com a família e com a tradição. Dar a João um nome sem precedente na família é romper com a continuidade e abrir-se a uma identidade nova, dada de fora, pelo próprio Deus.

«João», Iōhannēs transliteração do hebraico Yōhānān: «YHWH é gracioso» ou «YHWH concedeu misericórdia». O nome do Precursor é em si mesmo uma teologia em miniatura: ele que prepara a vinda do Messias tem um nome que anuncia a graça que o Messias vai trazer. O nome não é decorativo, é vocacional. João é «gracioso» porque é o portador da graça que anuncia. É o «misericordioso» porque o seu ministério consiste em preparar o coração dos que receberão a misericórdia de Deus encarnada em Jesus.

Zacarias recupera a voz no momento em que confirma o nome (Lc 1,63-64): «o seu nome é João», e imediatamente «abriu-se a sua boca e soltou-se a sua língua e falava louvando a Deus». A obediência à vontade de Deus, que se manifesta na aceitação do nome que Deus escolheu, restaura a capacidade de comunicar que a desobediência (a dúvida de Lc 1,18-20) havia silenciado. O paralelo com a vocação de Moisés (Ex 4,10-12: «não sei falar». «Eu abrirei a tua boca») é deliberado: o Precursor é, como Moisés, aquele cuja voz é instrumentalizada por Deus para preparar a libertação do seu povo.

A ligação ao nome de Jesus é paralela: o nome «Jesus» foi também dado por Gabriel antes do nascimento (Lc 1,31. Mt 1,21), não escolhido pelos pais mas dado por Deus. «Jesus», Iēsous transliteração de Yēshûa’: «YHWH salva». O nome do Salvador anuncia a salvação que ele vai realizar. Maria recebeu o nome do Filho e aceitou-o: o fiat inclui a aceitação do nome, que é a aceitação da identidade e da missão do Filho que vai carregar. Assim como Zacarias aceitou «João» e recuperou a voz, Maria aceitou «Jesus» e tornou-se a «voz» que o cantou no Magnificat.

III. «A mão do Senhor estava com ele»: vocação desde o nascimento

Lc 1,66b, «e a mão do Senhor estava com ele», é a avaliação divina do recém-nascido João: a bênção que precede toda a resposta humana, a graça que está presente antes de qualquer mérito. João é santificado desde o ventre materno (Lc 1,15: «será preenchido com o Espírito Santo ainda no seio de sua mãe»), o que a teologia dos séculos seguintes articularia como «santificação pré-natal» em analogia, mas em grau inferior, à Imaculada Conceição de Maria.

A vocação profética de João «desde o ventre materno» (Lc 1,15. Cf. Is 49,1. Jr 1,5) insere-o na longa linha dos profetas que foram chamados antes de nascerem. Esta anterioridade do chamado divino em relação a qualquer resposta humana é central na teologia bíblica da eleição: não é João quem primeiro escolhe Deus, é Deus quem primeiro escolhe João. A graça precede a liberdade. A eleição precede a resposta. Maria foi a primeira a compreender isto corporalmente: o seu ventre foi o lugar onde a graça de Deus se tornou carne, antes de qualquer resposta de João, antes de qualquer anúncio público, no silêncio do encontro entre os dois ventres.

«Crescia e se fortalecia em espírito, e ficou no deserto até ao dia da sua manifestação a Israel» (Lc 1,80): a formação de João acontece no deserto, no anonimato, no silêncio. A «manifestação» (Lc 1,80: anadeixis«aparecimento público solene») de João no Jordão (Lc 3,1-20) será precedida por décadas de formação escondida. O mesmo padrão aplica-se a Jesus: «crescia em sabedoria, em estatura e em graça perante Deus e os homens» (Lc 2,52) nos trinta anos de Nazaré. E o mesmo padrão aplica-se a Maria: a «formação» de Maria, na Lei de Israel, na oração dos Salmos, na meditação das Escrituras, precedeu o fiat e tornou-o possível.

A pregação de João no Jordão, «preparai o caminho do Senhor, endireitai os seus caminhos» (Lc 3,4, citando Is 40,3), é a expressão pública da missão que estava no seu nome: preparar os corações para acolherem o Salvador. Mas esta preparação começou antes, na Visitação, quando Maria chegou a casa de Isabel e o menino saltou de alegria. Maria foi a primeira «preparadora» do Precursor: a sua visita santificou João antes do nascimento, preparou o preparador, untou o arauto com o óleo da presença de Jesus no seu ventre.

IV. Maria e João: a «Voz» e o «Verbo»

Bernardo de Claraval, no seu célebre Sermo in Adventu Domini elaborou a distinção que o próprio João propôs em Jo 1,23 («eu sou a voz do que clama no deserto»): João é a «voz», Jesus é o «Verbo». A «voz» precede o «Verbo», não existe «Verbo» audível sem a «Voz» que o transporta. Não existe João sem o Jesus que ele anuncia. Mas a «Voz» não é o «Verbo»: a «Voz» passa e o «Verbo» permanece. João mesmo afirmou: «é preciso que Ele cresça e que eu diminua» (Jo 3,30).

Maria está no centro desta relação entre Voz e Verbo: ela é a que contém o Verbo no seu ventre e é, pela sua presença, a causa da alegria da Voz antes de nascer. A Visitação é o evento em que a Voz (João no ventre de Isabel) é acordada para a sua missão pela presença do Verbo (Jesus no ventre de Maria). Maria é o veículo através do qual o Verbo acorda a Voz. Sem Maria, não há Visitação. Sem Visitação, não há santificação pré-natal de João. Sem santificação pré-natal, não há Precursor. Sem Precursor, o «Verbo» chega a um coração não preparado.

A Natividade de João Baptista é, portanto, uma festa profundamente mariana: João não pode ser separado de Maria, porque foi através de Maria que ele recebeu a graça que o tornou Precursor. A tradição litúrgica, que coloca esta solenidade em Junho, seis meses antes do Natal, sublinha esta conexão: João precede Jesus seis meses, assim como a Visitação precede a Natividade seis meses. O calendário litúrgico conta em paralelo: o que aconteceu no ventre de Isabel seis meses antes do que aconteceu em Belém antecipa na estrutura temporal o que anuncia na estrutura teológica.

A festa de João Baptista convida cada cristão a reflectir sobre o seu próprio papel de «voz que prepara o Verbo» no coração daqueles com quem vive. Como João, cada cristão é chamado a ser precursor, a preparar nos outros a disposição de acolher o Evangelho. E como João, esta missão não é auto-iniciada: começa quando Maria se aproxima, quando o Evangelho chega por meio de outro, quando a presença de Cristo num irmão ou numa irmã acorda no coração a alegria que reconhece o Salvador. Maria é a «ocasião» da alegria de João: a sua proximidade desperta o que o Espírito já havia depositado no coração que a aguardava.

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