Quae est Mater mea: «Quem é a minha mãe?» e a maternidade espiritual de Maria

Quae est Mater mea: «Quem é a minha mãe?» e a maternidade espiritual de Maria
Quis est mater mea, et qui sunt fratres mei? Et extendens manum in discipulos suos dixit: Ecce mater mea et fratres mei. Quicumque enim fecerit voluntatem Patris mei qui in caelis est, ipse meus frater et soror et mater est.
Mt 12,48-50

Mt 12,46-50 é um dos textos que a apologética anti-mariana usa com frequência para «desvalorizar» a maternidade de Maria: Jesus, informado de que a sua mãe e irmãos estão fora à espera, recusa sair para os encontrar e aponta para os discípulos como «minha mãe e meus irmãos». A leitura apressada vê neste gesto uma rejeição dos laços familiares carnais em favor da família espiritual do Reino. Uma leitura atenta do texto de Mateus revela uma teologia mais rica: Jesus não rejeita Maria, define qual é o fundamento da sua relação com ela e com qualquer discípulo.

«Quem fizer a vontade do meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, irmã e mãe» (Mt 12,50), o critério da família do Reino não é o sangue mas a obediência à vontade do Pai. A pergunta de Jesus («quem é a minha mãe»?) não é retórica de rejeição, é retórica de revelação: está a revelar o fundamento mais profundo da relação com Ele. E esse fundamento, no caso de Maria, foi precisamente o que a distinguiu: «Ei-la a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1,38). Maria foi a primeira a «fazer a vontade do Pai», e por isso é «mãe» de Jesus no sentido mais radical: no sentido que Jesus mesmo define como o fundamento da família do Reino.

I. «A tua mãe e os teus irmãos estão fora»: o contexto da cena

«Enquanto ele ainda falava às multidões, eis que sua mãe e seus irmãos estavam fora, querendo falar com ele» (Mt 12,46), o contexto imediato é o discurso sobre o «sinal de Jonas» e o confronto com os fariseus. A chegada da família de Jesus «de fora», enquanto ele está «dentro» com os discípulos, cria um contraste espacial que Mateus usa teologicamente: «dentro/fora» é metáfora de pertença ao grupo dos discípulos (cf. Mc 4,11: «a vós foi dado o mistério do Reino de Deus. Mas aos que estão fora, tudo se faz em parábolas»).

«Alguém disse-lhe: Olha que a tua mãe e os teus irmãos estão fora à tua espera» (Mt 12,47), o mensageiro apresenta a situação como apelo à convenção social: a mãe e os irmãos de Jesus têm direito à prioridade de acesso. A resposta de Jesus subverte a convenção: «Quem é a minha mãe e quem são os meus irmãos»? não é ignorância da família carnal mas pergunta sobre o fundamento verdadeiro da relação familiar. A família do sangue não é suficiente, é necessário o vínculo da «vontade do Pai».

A referência aos «irmãos» de Jesus (Mt 12,46-47. Cf. Mt 13,55-56) é um dos pontos mais debatidos na exegese neotestamentária e na teologia dogmática. As três principais posições, irmãos carnais de Jesus (leitura protestante comum), meio-irmãos filhos de José de um casamento anterior (posição de Epifânio), primos de Jesus (posição de Jerónimo e da maioria católica), têm implicações diferentes para a mariologia mas nenhuma delas afecta o argumento teológico central de Mt 12,50: o critério da família do Reino é o cumprimento da vontade do Pai, independentemente dos laços de sangue.

II. «Eis a minha mãe e os meus irmãos»: a família escatológica

«Estendendo a mão para os seus discípulos, disse: Eis a minha mãe e os meus irmãos» (Mt 12,49), o gesto de Jesus é inclusivo, não exclusivo: não está a dizer que a família carnal deixa de existir, mas que a família do Reino é igualmente real e igualmente vinculante. A «extensão da mão» para os discípulos é um gesto de adopção, os que fazem a vontade do Pai são incorporados na família de Jesus com o mesmo vínculo que o une à sua família carnal.

A «família escatológica» que Jesus constitui tem raízes no profetismo do Antigo Testamento: Jeremias foi chamado a não casar e a não ter filhos como sinal do julgamento que se aproximava (Jr 16,1-4). O próprio Jesus não tem filhos biológicos mas tem discípulos como «filhos». A família do Reino não anula a família biológica, transfigura-a: os laços de sangue são relativizados (não eliminados) pelo laço superior da vontade do Pai.

A relação entre Jesus e Maria após esta cena continua nos evangelhos: Maria está ao pé da Cruz (Jo 19,25-27), Maria está no Cenáculo com os apóstolos (At 1,14). A «rejeição» de Mt 12,46-50 não afastou Maria de Jesus, pelo contrário, a condição que Jesus enunciou («quem fizer a vontade do Pai») descreve precisamente o que Maria sempre foi. O «eis a minha mãe» que Jesus diz para os discípulos pode também ser dito, com maior razão, de Maria, porque ela cumpriu a condição antes de qualquer discípulo.

III. Maria, a primeira que «Fez a vontade do pai»

«Quem fizer a vontade do meu Pai que está nos céus» (Mt 12,50), o critério da família do Reino é explicitamente o cumprimento da vontade do Pai. Na teologia de Mateus, a «vontade do Pai» não é uma lei abstracta mas a adesão ao plano salvífico de Deus que se concretiza na pessoa e missão de Jesus. «Fazer a vontade do Pai» é, na linguagem de Mateus, o equivalente ao «fiat» lucano de Maria.

A tradição patrística explorou este paralelo com precisão: Agostinho (De sancta virginitate, 3,3) escreveu que a maternidade espiritual de Maria, o facto de ela ter feito a vontade do Pai, é mais importante do que a maternidade carnal: «mais feliz foi Maria ao receber a fé de Cristo do que ao conceber a carne de Cristo». Não porque a maternidade carnal não tenha valor (ela tem valor pleno e único), mas porque o seu valor provém do facto de ser a concretização da vontade do Pai, o «fiat» que antecedeu e tornou possível a Encarnação.

A mariologia que nasce de Mt 12,50 é uma mariologia de discipulado: Maria é mãe de Jesus não apenas biologicamente mas discipularmente, é a discípula perfeita que «faz a vontade do Pai» em cada momento da vida. O «fiat» da Anunciação o «sim» da Visitação o «conservava estas coisas no coração» da infância, o «fazei o que ele vos disser» de Caná, o «stabat» do Calvário, o «orante» do Cenáculo, cada um destes actos é uma concretização do «fazer a vontade do Pai» que Mt 12,50 identifica como o fundamento da família do Reino.

IV. «Mãe dos discípulos»: a extensão da maternidade de Maria

Jo 19,26-27, «Eis a tua mãe», é a chave que interpreta Mt 12,46-50 à luz da Cruz: Jesus, ao confiar João a Maria e Maria a João, não está apenas a tomar providências práticas pela mãe viúva. Está a concretizar o que Mt 12,50 enunciou em forma de princípio: a família do Reino tem uma mãe, Maria. O «eis a tua mãe» de Jo 19,27 dirige-se ao «discípulo amado» como representante de todos os discípulos. Maria torna-se, neste acto, «mãe» de todos os que «fazem a vontade do Pai».

A «maternidade espiritual de Maria», um dos temas centrais da mariologia contemporânea, tem o seu fundamento bíblico na conjunção de Mt 12,50 e Jo 19,27: o critério da família do Reino (Mt 12,50) e a extensão da maternidade de Maria a todos os discípulos (Jo 19,27). Maria é «mãe dos discípulos» porque estes são «irmãos de Jesus» (Mt 12,50) e ela é a mãe de Jesus, tanto no sentido biológico como no sentido mais profundo do «fazer a vontade do Pai».

A devoção mariana como «aprender de Maria a fazer a vontade do Pai», que a espiritualidade ignaciana, carmelita, dominicana desenvolveu de modos diferentes mas convergentes, tem a sua raiz em Mt 12,50 lido à luz de Lc 1,38. Maria não é apenas modelo do «fazer a vontade do Pai», é, pela sua maternidade espiritual, a «mestra» que pode ensinar os seus filhos espirituais o caminho do «fiat». Recorrer a Maria é recorrer à mãe que fez a vontade do Pai de modo mais perfeito, e que, por isso, pode ensinar o caminho.

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