Um só Evangelho, um só próximo: a fidelidade que se faz caridade

«Não somos escravas dos filhos, mas livres»: Paulo, sinal de jonas e Maria

«Miror quod sic tam cito transferimini ab eo qui vos vocavit in gratiam Christi in aliud Evangelium»
Gl 1,6-7

Há um só Evangelho, e a fidelidade a ele é a medida de toda a vida cristã. A liturgia desta segunda-feira da vigésima sétima semana do Tempo Comum coloca diante de nós dois textos que à primeira vista pouco se tocam, a indignação de Paulo perante os Gálatas que abandonam a graça, e a parábola lucana do homem que desce de Jerusalém para Jericó. Une-os um mesmo nervo, a exigência de que a fé recebida se traduza inteira, sem adulteração na doutrina e sem estreitamento na caridade. O Evangelho não se guarda conservando-o, guarda-se vivendo-o. Maria, ausente do texto sagrado de hoje, permanece o rosto em que essa fidelidade se fez carne.

I. A primeira leitura: Gl 1,6-12

A carta aos Gálatas nasce de um espanto que é já forma de amor ferido. Paulo escreve «Miror quod sic tam cito transferimini», admiro-me de que tão depressa vos afasteis, e o advérbio tam cito, tão depressa, mede a distância entre a graça recebida e o seu abandono. O apóstolo não repreende uma hesitação, denuncia uma deserção. Os Gálatas não trocaram um mestre por outro, passaram in aliud Evangelium, para um outro evangelho, que Paulo de imediato corrige, porque outro não existe. Há apenas o Evangelho de Cristo e as suas falsificações, e entre um e as outras não cabe transação.

O apóstolo pronuncia então a palavra mais dura da sua pena. «Sed licet nos aut angelus de caelo evangelizet vobis praeterquam quod evangelizavimus vobis, anathema sit» (Gl 1,8), ainda que nós ou um anjo do céu vos anuncie um evangelho diverso do que anunciámos, seja anátema. A dureza não protege Paulo, protege a verdade que não lhe pertence. Ele mesmo se submete ao critério que enuncia, porque o Evangelho que prega não veio dos homens. «Neque enim ego ab homine accepi illud, neque didici, sed per revelationem Iesu Christi» (Gl 1,12), não o recebi nem o aprendi de homem algum, mas por revelação de Jesus Cristo. A autoridade da mensagem repousa na sua origem, o encontro com o Ressuscitado, e não na eloquência de quem a transmite.

II. O evangelho: Lc 10,25-37

O relato lucano conduz a mesma exigência da fidelidade para o terreno da carne sofredora. Um doutor da Lei levanta-se para pôr Jesus à prova e pergunta o que fazer para herdar a vida eterna. A resposta devolve-lhe a sua própria ciência, o duplo mandamento de Dt 6,5 e Lv 19,18, amar a Deus de todo o coração e ao próximo como a si mesmo. O doutor sabia a Lei de cor. Faltava-lhe deixá-la descer do saber para o gesto. Quando procura justificar-se e pergunta «Quis est meus proximus?», quem é o meu próximo, revela o que buscava, uma definição que lhe permitisse traçar o limite exato da obrigação e dormir tranquilo dentro dele.

Jesus responde com uma história que desloca a pergunta. Um homem desce de Jerusalém para Jericó e cai nas mãos de salteadores. Passa um sacerdote, e praeterivit, passou adiante. Passa um levita, e faz o mesmo, homens do culto e do templo que veem e não se detêm. Passa por último um samaritano, o herege, o cismático, aquele de quem nada de bom se esperava, e é ele quem misericordia motus est, se compadece, se aproxima, ata as feridas, derrama azeite e vinho, carrega o ferido e paga a hospedagem. Jesus não responde à pergunta do doutor, inverte-a. Não interroga quem merece ser amado como próximo, pergunta quem se fez próximo daquele que caiu. Próximo não é quem está perto, é quem se aproxima.

III. A caridade que transcende a Lei

A caridade não revoga a Lei, leva-a ao seu cumprimento. Há uma unidade profunda entre a leitura paulina e a parábola, porque em ambas a norma exterior corre o risco de se voltar contra a graça que devia servir. Os Gálatas fazem da circuncisão um segundo evangelho. O sacerdote e o levita fazem da pureza ritual uma razão para não tocar o sangue e não se contaminar. Num caso e no outro a observância torna-se muralha, e o que devia abrir ao dom fecha-se em fórmula. Paulo chamará noutro lugar a isto a letra que mata, o Evangelho de hoje mostra-a na estrada, no corpo abandonado à beira do caminho.

O samaritano não possui a Lei, cumpre-a. A sua compaixão não é comoção passageira, é splanchnizomai, o revolver-se das entranhas, o mesmo verbo que os Evangelhos reservam quase sempre a Cristo diante da multidão faminta e da viúva em luto. Amar o próximo é deixar entrar em si a misericórdia de Deus e devolvê-la em ato, sem exigir do ferido credenciais de raça ou de crença. A verdadeira religião não se mede pela distância que guarda do impuro, mede-se pela proximidade que ousa com o que sofre. Quem ama já guarda toda a Lei.

IV. Maria, guardiã do Evangelho recebido

Maria reúne em si os dois fios que a liturgia mantém hoje em tensão, a fidelidade intacta ao Evangelho e a caridade que se faz caminho. Não é nomeada nas leituras, e contudo nenhuma criatura viveu com maior verdade aquilo que Paulo defende e o samaritano encarna. Guardou a Palavra recebida sem lhe acrescentar nem tirar, conservabat omnia verba haec conferens in corde suo (Lc 2,19), conservava todas estas palavras, meditando-as no seu coração. O fiat de Nazaré é o oposto exato da deserção dos Gálatas, é a alma que não passa para outro evangelho, porque acolheu o único, e o acolheu não em fórmula mas em carne.

E é também Maria quem primeiro faz o gesto do samaritano. Mal concebeu o Verbo, exsurgens abiit in montana cum festinatione (Lc 1,39), levantou-se e partiu apressada para a montanha, ao serviço de Isabel. Aquela que trazia Deus dentro de si não ficou a contemplar-se, desceu a estrada da caridade. A escola francesa de espiritualidade viu nela a forma acabada da vida teologal, aquela em que crer e amar não se separam, porque a fé que a habitava era já toda ela dom de si. Bérulle contemplava o seu estado de servidão amorosa a Cristo, e Grignion de Montfort ensinava que por Maria se chega ao Evangelho puro, livre das adulterações que a devoção mundana tantas vezes lhe acrescenta.

Daqui nasce, para nós, uma só e mesma vigilância. Ser fiel ao Evangelho de Cristo e aproximar-se do homem caído são um único movimento, e quem os separa perde os dois. A pergunta do doutor da Lei continua a soar entre nós, e continua mal formulada. Não perguntemos quem é digno da nossa proximidade, perguntemos de quem nos faremos próximos hoje. Maria, mãe da divina graça e guardiã do único Evangelho, ensina-nos a não trocar a graça recebida por sucedâneo nenhum, e a descê-la, como ela fez, da montanha da contemplação para a estrada onde alguém espera, ferido, que nos detenhamos.

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