«Fazei tudo o que ele vos disser» (Jo 2,5) são as últimas palavras de Maria registadas no Evangelho de João, e as únicas que dirige à humanidade. Ditas nas Bodas de Caná, durante o primeiro sinal de Jesus, estas palavras sintetizam toda a missão de Maria: apontar para Cristo e conduzir à obediência à sua palavra.«Fazei tudo o que ele vos disser» (Jo 2,5): são as únicas palavras que Maria dirige à humanidade em todo o Evangelho de João. Pronunciadas no banquete de Casamento de Caná da Galileia, estas palavras resumem toda a espiritualidade mariana: Maria não fala de si mesma, não reivindica nada para si, não pede atenção. Aponta para o Filho e diz: «Fazei o que ele vos disser». É o programa mariano em sete palavras. Neste artigo analisamos o contexto do episódio de Caná (Jo 2,1-11), o significado das palavras de Maria, e o papel de intercessora que ela exerce junto ao Filho.Dentro do Evangelho de João, o episódio das bodas em Caná da Galileia (2,1-11) assume uma importância particular. Sua relevância é imediatamente assinalada pelo facto de que ocorre três dias após o encontro com Natanael (1,43-51) e, portanto, sete dias após o encontro com João Batista (1,28). Em Caná, portanto, conclui-se a primeira semana “laboral” de Jesus: é possível supor que, em analogia com a semana da criação descrita no Livro de Génesis, o sétimo dia seja o designado para manifestar de forma especial a glória de Deus, autor em Cristo da nova criação.O versículo 11 enfatiza que estamos diante do primeiro dos “sinais” (semeia) realizados por Jesus. Esses sinais, mais do que atos miraculosos destinados a demonstrar poder, têm a função de suscitar a fé nas pessoas em relação a Jesus, revelando diante de seus olhos que Ele é o Filho de Deus em quem se realizam os últimos tempos, os tempos da salvação.Este é um dos raros trechos nos Evangelhos em que, fora dos relatos da infância de Jesus, Maria aparece. No IV Evangelho, precisamente, a Virgem está presente apenas em duas ocasiões: aqui em Caná e novamente junto à cruz (19,25-27). Como veremos em breve, esses dois episódios estão intimamente relacionados e se iluminam mutuamente, como se revela especialmente pela referência à “hora” de Jesus.Curiosamente, os esposos nunca são mencionados directamente, excepto pelo diálogo final entre o mestre de cerimónias e o esposo, que, no entanto, ao contrário dos servos, não desempenha nenhum papel activo na narrativa. Os protagonistas da história são, na verdade, Jesus e Sua Mãe.É Maria quem inicia a acção quando aponta para Seu Filho e diz: “eles não têm vinho”. Ela antecipa um problema que os outros parecem não ter percebido até então. A Virgem antecipa tudo e todos, e esse conhecimento antecipado da situação a impulsiona à acção. O problema daquela família não a deixa indiferente, por isso decide interceder: um verbo que literalmente significa “caminhar no meio”. Maria coloca-se no meio entre os esposos e Jesus, expondo-se pessoalmente, porque “sabe” que Jesus pode fazer “qualquer coisa”.A resposta aparentemente seca do Filho está cheia de significado. O termo “Mulher” não implica desrespeito de forma alguma. Em vez disso, além de evocar um uso helenístico, enquadra Maria em seu papel simbólico. Assim como nas Escrituras antigas a mulher é símbolo do povo de Israel com o qual Deus deseja unir-se em casamento por meio da Aliança, agora a Virgem personifica toda a humanidade, o novo Israel, com o qual Cristo pretende tornar-se o esposo eterno.O matrimónio místico entre Jesus e a humanidade será celebrado na cruz, onde Maria será novamente chamada de “Mulher” (19,26). A cruz servirá como altar nupcial e leito conjugal, porque ali o amor de Cristo pelos homens atingirá o seu auge. Neste trecho, a relação materno-filial entre Maria e Jesus combina-se com a relação conjugal entre a humanidade, representada pela Virgem, e Cristo, o mediador de uma nova e eterna aliança.Agora podemos compreender as palavras enigmáticas de Jesus: “A minha hora ainda não chegou”. O tema da “hora” é recorrente no Evangelho de João, onde geralmente indica a suprema revelação da glória de Deus que se cumprirá na cruz. A hora do Filho ocorrerá na sexta-feira santa, o ponto culminante do amoroso dom de si mesmo à humanidade pecadora. Portanto, a “hora” ainda não chegou: os sinais que Jesus realiza durante o seu ministério não podem antecipá-la, mas apenas anunciá-la, preparando as pessoas para reconhecer o “sinal dos sinais” que é a sua morte e ressurreição.O leitor aprende a receber Jesus e Maria em sua vida pessoal e familiar, para experimentar que, se eles se tornarem hóspedes permanentes entre nós, mesmo situações aparentemente desesperadas podem abrir-se para alegrias maiores. Muitas vezes, nossa devoção mariana fica apenas na superfície. Recorremos a Maria para pedir graças de todos os tipos, mas depois mantemo-nos afastados do Senhor Jesus, que age de maneira especial na Palavra e nos Sacramentos.A Virgem de Nazaré não quer ser o fim de nossa oração, mas apenas um meio que nos leva ao Filho. É Cristo quem intervém, enquanto Ela é mais como aquela que intercede, dirigindo-se a Jesus em nosso nome. O leitor aprende a fazer de Maria a ponte abençoada que nos leva ao Filho, direcionando nosso coração para Ele, o único Salvador do mundo.Sobre as palavras de Maria em Caná e o seu significado mariológico, consulte a Encíclica “Redemptoris Mater” do Papa João Paulo II.
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