Annales ecclesiastici (Baronius, 1588-1607) – referências angeológicas e demonológicas na história da Igreja (anos 1-1198)
Os Annales Ecclesiastici de Cesare Baronio (1538-1607), publicados em 12 volumes originais (Roma 1588-1607, depois reeditados por Theiner em 20 vols. em 1864), constituem a primeira grande história eclesiástica católica sistemática. Cobrem ano a ano desde o nascimento de Cristo até 1198. Para angeologia/demonologia, são a fonte primária das fontes patrísticas e conciliares até Inocêncio III. Texto na biblioteca da Locus Mariologicus.
| Autor | Cardeal Cesare Baronio (1538-1607) |
| Volumes (Ed. Theiner 1864) | 20 vols (originais: 12 vols 1588-1607) |
| Cobertura | Ano 1 (nascimento de Cristo) até 1198 (fim do pontificado de Celestino III) |
| Continuação | Raynaldus continuou 1198-1565, Laderchi continuou 1566-1571 |
| Status historiográfico | Fonte fundamental da historiografia católica, alternativa às «Centúrias de Magdeburgo» protestantes |
Temática angeológica/demonológica nos Annales
Baronio organizou os Annales em formato cronológico ano a ano, citando fontes primárias (papiros, manuscritos). Para angeologia/demonologia, os Annales registam:
I. Era apostólica (Vols 1-2, anos 1-100)
- Ano 33: Exorcismos de Cristo e dos Apóstolos
- At 12: Aparição de um anjo do Senhor a São Pedro na prisão, sob Herodes Agripa I
- Ano 50: Concílio de Jerusalém, papel dos anjos na Igreja nascente
- Anos 60-100: João Apóstolo e sua visão do Apocalipse, Miguel e o dragão
II. Era apostólica tardia + padres apostólicos (Vols 2-3, anos 100-200)
- Inácio de Antioquia: menção dos coros angélicos na liturgia
- Justino Mártir: contra os demônios pagãos, I Apologia
- Ireneu de Lião: contra os gnósticos sobre angeologia
- Ano 195: Concílio Romano, antecedentes do exorcismo no Batismo
III. Era das perseguições (Vols 3-5, anos 200-313)
- Orígenes (185-253): Peri Archon, livro I, anjos rebeldes (cf. SC 252)
- Pseudo-Cipriano (obra atribuída com probabilidade a Novaciano): De Spectaculis, demônios pagãos no anfiteatro
- Santo Antão do Deserto (250-356): combates angeológicos contra demônios, Vita Antonii
- Anos 305-311: Perseguição de Diocleciano, mártires e os anjos protetores
IV. Era constantiniana e concílios (Vols 5-7, anos 313-451)
- Concílio de Niceia (325): implícito ao definir o Verbo encarnado contra o arianismo (que reduzia Cristo a anjo)
- Concílio de Laodiceia (363-364): cân. 35 contra culto excessivo dos anjos
- Concílio de Constantinopla I (381): Credo «descendit de caelis»
- Concílio de Éfeso (431): Theotokos contra Nestório
- Concílio de Calcedónia (451): duas naturezas em Cristo
V. Era bizantina e medieval primitiva (Vols 8-12, anos 451-1000)
- Concílio de Constantinopla II (553): anátemas anti-origenistas (apocatástase do Diabo condenada)
- Concílio Bracarense I (561): contra priscilianismo
- São Gregório Magno (séc. VI-VII): Homilias dos Evangelhos com os nove coros
- Concílio Romano de 745: caso Aldebert (oito anjos com nomes apócrifos)
- Concílio Niceno II (787): culto das imagens angélicas
VI. Era medieval (Vols 13-19, anos 1000-1198)
- São Bernardo de Claraval (1090-1153): tratado sobre anjos no Cântico dos Cânticos
- Hugo de São Vítor (séc. XII): primeira síntese escolástica
- Pedro Lombardo (1100-1160): Sentenças livro II sobre anjos
- Concílios Lateranenses I, II, III (1123, 1139, 1179): condenam os cátaros (dualismo demoníaco)
Continuação de Raynaldus (1198-1565)
Odorico Raynaldi (1595-1671) continuou os Annales de Baronio cobrindo de 1198 (Inocêncio III) até 1565 (Trento). Para angeologia/demonologia inclui:
- 1215, IV Concílio de Latrão (Inocêncio III): Firmiter credimus, definição dogmática dos anjos
- 1442, Florença: Cantate Domino retoma Latrão IV
- 1483, Sisto IV: Constituição Grave nimis (4 de setembro de 1483), que pune com excomunhão quem, de uma ou de outra opinião sobre a Imaculada Conceição, acuse de heresia a opinião contrária
- 1517, 95 Teses de Lutero: contexto demonológico da Reforma
- 1545-1563, Trento: definições sobre demonologia
Importância metodológica dos Annales
Baronio escreveu os Annales como resposta católica às «Centúrias de Magdeburgo» (1559-1574), história eclesiástica protestante de Matias Flávio Ilírico. Os Annales destacam-se por:
- Cronologia ano a ano permitindo localizar cada evento
- Citação de fontes primárias com referências precisas
- Uso de manuscritos do Vaticano ainda não publicados na época
- Tratamento sistemático dos concílios particulares além dos ecuménicos
- Documentação de festas litúrgicas e devoções locais
Importância para a pesquisa angeológica
Para o estudo da angeologia/demonologia histórica, os Annales são úteis porque:
- Documentam concílios particulares não incluídos no Mansi principal
- Referem milagres e exorcismos nas vidas dos santos
- Citam liturgias antigas em texto integral
- Compilam bulas papais em ordem cronológica precisa
- Conservam tradições orientais sobre os sete arcanjos
Leitura complementar
Índice das Fontes Magisteriais Antigas | Latrão IV (1215) | Concílio Romano 745 | Bracarense I
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