A anunciação a Maria (Lc 1,26-38): o texto e o seu significado

A anunciação a Maria (Lc 1,26-38): o texto e o seu significado

A Anunciação a Maria (Lc 1,26-38) é o momento em que o anjo Gabriel anuncia a Maria que ela será a Mãe do Filho de Deus, e em que Maria responde com o seu «sim» livre e total. É a primeira revelação do mistério de Jesus e o início do seu cumprimento. Este guia apresenta o texto de São Lucas e a riqueza teológica de cada palavra do anúncio.

O texto de Lucas (Lc 1,26-38)

No sexto mês, o anjo Gabriel é enviado por Deus a Nazaré, «a uma virgem desposada com um homem chamado José, da casa de Davi; e o nome da virgem era Maria». A saudação do anjo – «Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo» – perturba Maria, que reflete sobre o seu sentido. Gabriel anuncia-lhe que conceberá Jesus, Filho do Altíssimo, cujo reino não terá fim. À objeção «Como será isto, se não conheço homem?», o anjo responde: «O Espírito Santo virá sobre ti.» Maria conclui: «Eis a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra.»

«Alegra-te» (chaire): um convite à alegria messiânica

A primeira palavra do anjo, chaire, foi traduzida pela Vulgata como «Ave», mas os Padres gregos e a liturgia bizantina interpretam-na como um convite à alegria. No Antigo Testamento grego (LXX), o mesmo verbo dirige-se à Filha de Sião nos anúncios messiânicos (Sf 3,14; Zc 9,9; Jl 2,21-23). Em todo o evangelho da infância de Lucas, a alegria da salvação é um tema dominante: seria estranho que o anúncio do nascimento de Cristo se reduzisse a um simples cumprimento.

«Cheia de graça» (kecharitoméne): transformada pela graça

O termo grego kecharitoméne é teologicamente densíssimo. Lucas não usou a fórmula habitual «pleres charitos» (cheio de graça), mas o particípio perfeito passivo do verbo charitóo – que tem sentido causativo, transformador. Literalmente, significa «aquela que foi transformada pela graça». O tempo perfeito indica uma graça que vem de Deus e permanece operante nela. É um novo nome, atribuído a Maria em vista da sua vocação e missão – como Gideão foi chamado «guerreiro valoroso» (Jz 6,12). Esta é a raiz bíblica do que a Igreja confessa na Imaculada Conceição.

Um relato de vocação

A Anunciação não é apenas um «anúncio de nascimento»: tem a forma de um relato de vocação, como os de Moisés (Êx 3), Gideão (Jz 6) ou Jeremias (Jr 1). O foco está tanto em Jesus como na resposta de Maria. Lucas opera uma inversão radical de valores: enquanto o nascimento de João Batista é anunciado ao homem (Zacarias), o nascimento de Jesus é anunciado à mulher, à jovem virgem desconhecida de Nazaré – sinal da gratuidade absoluta da escolha de Deus.

O «sim» de Maria

Ao título kecharitoméne que recebe no início, Maria responde no fim com o de «serva do Senhor» (doulé) – título de humildade, mas sobretudo de dedicação ao projeto de Deus. O verbo optativo génoito («faça-se») exprime uma adesão livre, incondicional e generosa. Este «sim» dá início ao cumprimento da salvação e está na raiz da sua Virgindade fecunda pela ação do Espírito.

Perguntas frequentes

Quando se celebra a Anunciação?

A 25 de março, nove meses antes do Natal.

O que significa «cheia de graça»?

Traduz o grego kecharitoméne: «aquela que foi transformada pela graça de Deus», uma graça que a precede e a habita totalmente.

Por que o anjo diz «não temas»?

É a fórmula típica dos relatos de vocação, garantia e encorajamento de Deus para quem recebe uma missão.

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