Os apócrifos são escritos que, a partir de temas bíblicos, não foram incluídos no cânon sagrado. No campo da Mariologia, os apócrifos do Novo Testamento desempenharam um papel decisivo: transmitiram tradições populares sobre Maria, alimentaram a devoção e a iconografia cristã, e constituem a primeira documentação escrita de algumas verdades que a Igreja viria a definir dogmaticamente.
A palavra “apócrifo” significa originalmente “oculto” ou “secreto”. Com o tempo passou a designar escritos que imitam os géneros literários bíblicos (evangelho, acto, carta, apocalipse) mas que a Igreja não reconhece como inspirados nem como fonte da revelação. Apesar disso, os apócrifos não são sem valor: reflectem a fé popular das primeiras comunidades cristãs e revelam como a Mariologia nascente se expressava antes de ser formalizada em dogma.
Algumas das tradições mais enraizadas na devoção mariana provêm de textos apócrifos: os nomes dos pais de Maria, Joaquim e Ana. a apresentação de Maria criança no Templo. o nascimento de Jesus numa gruta, com a presença do boi e do asno. os nomes dos Reis Magos, Melchior, Gaspar e Baltasar. a história da morte e glorificação de Maria. Estas tradições entraram na liturgia, na iconografia e na piedade popular sem que muitos dos seus fiéis soubessem que a sua origem era apócrifa.
O mais importante dos apócrifos marianos é o Protevangelho de Tiago (c. 200 d.C.), dividido em três partes: a vida de Maria até à Anunciação, a história de José, e um relato da matança dos inocentes. Este texto defende a perpetua virgindade de Maria antes, durante e após o parto. A prova da virgindade no parto é confirmada por duas testemunhas (uma parteira e Salomé), segundo o critério da dupla testemunha que torna incontestável um facto. Os mosaicos do arco triunfal da Basílica de Santa Maria Maior em Roma (séc. V) reproduzem cenas directamente retiradas do Protevangelho.
A morte e glorificação de Maria são o tema central dos apócrifos assuncionistas, entre os quais se destacam a “Dormição da Mãe de Deus” (atribuída a João Teólogo, séc. IV-V) e o “Transito de Maria”. Estes textos convergem num ponto fundamental: o corpo de Maria não se decompôs no sepulcro, mas foi levado ao céu. Embora cheios de elementos legendários, constituem a primeira documentação escrita do que viria a ser o dogma da Assunção (definido por Pio XII em 1950). O teólogo E. Peretto sublinha que os apócrifos assuncionistas não representam uma posição herética, mas um ensinamento do qual são a primeira documentação escrita.
A influência dos apócrifos na arte cristã é profunda. A apresentação de Maria no Templo, o casamento de Maria com José, a Fuga para o Egipto foram temas predilectos da pintura cristã, desde os afrescos de Giotto até às composições de Rafael e Ticiano, todos inspirados em fontes apócrife. As igrejas orientais e eslavas recorreram igualmente a esta tradição na iconografia mariana. O ciclo iconográfico mariano é, em grande medida, uma tradução visual da literatura apócrifa.
Os apócrifos não são fonte da revelação divina, mas constituem um documento precioso da fé popular das primeiras comunidades cristãs. A Igreja distingue claramente entre a Escritura canónica e esta literatura paralela, sem condenar formalmente a maior parte dos apócrifos. O seu valor reside no facto de espelharem como as primeiras gerações de cristãos viviam e expressavam a sua fé em Maria, completando com imaginação piedosa os dados sóbrios dos Evangelhos canónicos e respondendo, por vezes, a polémicas doutrinárias do seu tempo.
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