Catecismo romano (1566) – a doutrina sobre os anjos e os demônios

O Catecismo Romano (Catechismus ex decreto Concilii Tridentini ad parochos), publicado por São Pio V em 1566 por mandato do Concílio de Trento, contém uma das mais sistemáticas exposições patrísticas e escolásticas sobre os anjos e os demónios na história do magistério católico. As suas afirmações formaram a base da catequese mariana até ao Catecismo da Igreja Católica de 1992.

DocumentoCatechismus ex decreto Concilii Tridentini ad parochos (Catecismo Romano)
EditorSão Pio V (1566)
MandatoConcílio de Trento (1545-1563)
EstruturaQuatro partes: Credo, Sacramentos, Decálogo, Oração
Secção sobre anjosParte I, art. I (sobre Deus criador), nn. 17-23

Estrutura da doutrina sobre os anjos no catecismo romano

n. 17, a criação dos anjos

Latino: Praeter spiritualia substantias, sive Angelos creavit Deus eo tempore quo coeli formatus est sive prius, ut ex sacris litteris est evidentius, ad illius decoris pulchritudinemque additam: nam scrptum est «Cum me laudarent simul astra matutina et iubilarent omnes filii Dei» (Iob 38, 7).

Português: Além das substâncias espirituais ou Anjos, Deus criou-os no tempo em que foi formado o céu, ou antes, como mais evidentemente se conclui das Sagradas Letras, para acrescer ao seu adorno e beleza: pois está escrito «Quando juntos louvavam-me as estrelas matutinas e jubilavam todos os filhos de Deus» (Jo 38, 7).

n. 18, a natureza dos anjos

Os anjos são espíritos puros e incorpóreos, dotados de inteligência e vontade, não misturados com nenhuma matéria. Possuem o conhecimento por via intuicional (não discursiva como o homem), conhecem-se uns aos outros perfeitamente, e têm livre arbítrio.

n. 19, os nove coros angélicos

Retomando Pseudo-Dionísio Areopagita (séc. V) e São Tomás de Aquino (séc. XIII), o Catecismo Romano apresenta as nove ordens angélicas em três hierarquias:

HierarquiaCorosFunção
1ª (Suprema)Serafins, Querubins, TronosContemplação directa de Deus
2ª (Intermédia)Dominações, Virtudes, PotestadesGoverno do cosmos
3ª (Inferior)Principados, Arcanjos, AnjosCustódia das pessoas e povos

n. 20, os anjos da guarda

Cada fiel tem um Anjo da Guarda atribuído por Deus desde o nascimento. O Anjo protege o cristão contra as ciladas do Diabo, sustenta-o nas tentações, conforta-o nas tribulações e o apresenta a Deus na hora da morte. Esta verdade é fundamentada em Mt 18, 10 («Os anjos deles vêem continuamente a face de meu Pai que está nos céus») e em Sl 91, 11 («Aos seus anjos dará ordem a teu respeito, para te guardarem em todos os teus caminhos»).

n. 21, a queda dos anjos rebeldes

Latino: At inter sublimes Angelos, Lucifer caput nostrum imitator agnoscitur, qui suo opere creando elatus, fastu et superbia intumuit, et adversus Deum cogitans, ad turpia delicta praecipitatus est, ut e clari coeli sede in tenebrosos infernos detruderetur, infinita aliis Angelorum multitudine deceptus, qui scelera Luciferi communia studio sequebantur.

Português: Mas entre os sublimes Anjos, Lúcifer reconhece-se como cabeça do nosso Inimigo, o qual exaltando-se na sua obra ao ser criado, inchou em fástio e soberba, e pensando contra Deus, foi precipitado em torpes delitos, sendo expulso da clara sede do céu para os tenebrosos infernos, juntamente com uma infinita multidão de Anjos enganados que com igual estudo seguiam os crimes de Lúcifer.

n. 22, a inveja do diabo contra o homem

Os Anjos rebeldes tornaram-se invejosos da felicidade dos homens, ainda não caídos. Por inveja, o Diabo, tomando a figura da serpente, tentou Eva e Adão, conduzindo-os à desobediência. Por isso «invidia diaboli mors introivit in orbem terrarum» (pela inveja do diabo entrou a morte no mundo, Sb 2, 24).

n. 23, a acção contínua do demónio

Mesmo após a Cruz e a Ressurreição de Cristo, o Diabo continua a tentar os fiéis. São Pedro adverte: «sede sóbrios e vigiai. O vosso adversário, o diabo, anda à roda como leão a rugir, procurando a quem devorar» (1Pe 5, 8). A Igreja provê-se de armas espirituais para resistir ao Maligno: a graça dos sacramentos, a oração, o jejum, a virtude.

O catecismo romano e a devoção aos anjos

O Catecismo Romano consolidou a devoção aos Anjos da Guarda na Igreja universal:

  • Prática de rezar diariamente ao Anjo da Guarda
  • Festa dos Anjos da Guarda (2 outubro)
  • Festa dos Arcanjos São Miguel, São Gabriel e São Rafael (29 setembro)
  • Inclusão dos Anjos na Ladainha de Loreto (Regina Angelorum)

Continuidade com o cCC

O CCC de 1992 retoma quase literalmente as afirmações do Catecismo Romano sobre os anjos:

TemaCatec. Romano (1566)CCC (1992)
Existência dos anjosParte I, art. I, n. 17n. 328
Natureza espiritualParte I, art. I, n. 18nn. 329-330
Anjos da guardaParte I, art. I, n. 20n. 336
Queda do DiaboParte I, art. I, nn. 21-22nn. 391-393
Ação do demónioParte I, art. I, n. 23n. 394-395

Leitura complementar

IV Concílio de Latrão 1215 | Florença – Cantate Domino 1442 | Catecismo Romano (Mariologia) | CCC sobre Anjos e Demónios

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