CDF – fé cristiana e demonologia (26 de junho 1975): a síntese magistral sobre o diabo

O documento Fede cristiana e demonologia (Sacra Congregação para a Doutrina da Fé, 26 de junho de 1975) é a síntese magisterial fundamental sobre demonologia no magistério pós-conciliar. Publicado em momento de grande confusão teológica, quando muitos teólogos modernistas reduziam o Diabo a «mitologia» ou «símbolo do mal», reafirma a doutrina católica tradicional sobre a existência pessoal e a acção real dos demónios.

AutorSacra Congregação para a Doutrina da Fé (Card. Franjo Seper)
DocumentoFede cristiana e demonologia
Data26 de junho de 1975
FonteL’Osservatore Romano, 26 de junho de 1975; Enchiridion Vaticanum vol. 5
Autor principalMons. Henri Bouesse OP (redactor)

Contexto histórico

Após o Vaticano II (1962-1965), surgiu na teologia católica uma corrente «desmitologizadora» que reduzia o Diabo a:

  • Símbolo mitológico do mal abstracto
  • Personificação literária do pecado
  • Construção psicológica
  • Resíduo cultural pré-cristão

Esta corrente foi popularizada por teólogos como Herbert Haag (Abschied vom Teufel, 1969), Christian Duquoc, Hervé Léveque. O Papa Paulo VI já havia reagido com o seu célebre discurso de 15 de novembro de 1972 («Confronto col Diavolo»). A CDF retoma a questão em modo sistemático em 1975.

Estrutura do documento

O documento organiza-se em quatro partes:

  1. Posição do Magistério: recapitulação da tradição
  2. Testemunho bíblico: Antigo e Novo Testamento
  3. Os Padres da Igreja: Justino, Orígenes, Atanásio, Agostinho
  4. Conclusão doutrinal: reafirmação da doutrina católica

Texto italiano – conclusão doutrinal

La situazione attuale richiede dunque due richiami: il primo, di guardarsi dal dimenticare l’azione satanica; il secondo, di guardarsi dall’esagerare nell’individuarla, applicandola in modo errato. Si tratta non solo di non negare il diavolo o di farne il principio metafisico del male; si tratta anche di non interpretare le sue azioni come se fossero la spiegazione abituale dei nostri peccati o di tutti i nostri sbandamenti.

A Igreja não tem a sua doutrina de sua propriedade, mas anuncia o mensagem da palavra de Deus interpretada e vivida na tradição. O que ela afirma sobre o diabo, e que já o disse há séculos nas suas confissões de fé, na liturgia, no catecismo, no rito do baptismo, nos exorcismos, e o que afirma em pleno acordo com o que a Sagrada Escritura atesta de uma parte a outra, afirma-o em testemunho da experiência de tantas pessoas que se encontraram presas nas maquinações do Maligno.

Tradução portuguesa

A situação actual exige portanto dois apelos: o primeiro, de evitar esquecer a acção satânica; o segundo, de evitar exagerar ao identificá-la, aplicando-a de modo erróneo. Trata-se não apenas de não negar o diabo ou de fazer dele o princípio metafísico do mal, trata-se também de não interpretar as suas acções como se fossem a explicação habitual dos nossos pecados ou de todos os nossos descaminhos.

A Igreja não tem uma doutrina sua própria, mas anuncia a mensagem da Palavra de Deus interpretada e vivida na tradição. O que ela afirma sobre o diabo, e que já o disse há séculos nas suas confissões de fé, na liturgia, no catecismo, no rito do baptismo, nos exorcismos, e o que afirma em pleno acordo com o que a Sagrada Escritura atesta de uma parte a outra, afirma-o em testemunho da experiência de tantas pessoas que se encontraram presas nas maquinações do Maligno.

As sete teses centrais

  1. O Diabo existe como ser pessoal, não é símbolo, mito ou personificação literária
  2. O Diabo é um anjo decaído, foi criado bom por Deus mas rebelou-se pela sua própria escolha
  3. O Diabo actua no mundo, tenta os homens, perturba a acção da Igreja, busca a perdição das almas
  4. O Diabo não é omnipotente, tem poder limitado, sempre subordinado à soberania de Deus
  5. O Diabo foi vencido por Cristo na Cruz e na Ressurreição, mas continua a agir até ao fim dos tempos
  6. O cristão pode resistir ao Diabo pelo Baptismo, pela Eucaristia, pelos sacramentos, pela oração
  7. A Igreja praticou e pratica o exorcismo, não por superstição mas em fidelidade a Cristo (cf. Mc 16,17: «Em meu nome expulsarão demónios»)

O «equilíbrio católico»

O documento define o que pode ser chamado «equilíbrio católico» em demonologia:

Erro por DefeitoPosição CatólicaErro por Excesso
Negar a existência do DiaboO Diabo existe como ser pessoalAtribuir tudo o que é mau ao Diabo
Reduzir a «símbolo do mal»Ser real, anjo decaídoDualismo maniqueu (dois princípios iguais)
Ignorar a acção demoníacaO Diabo age no mundo, mas com limitesVer demónios em toda parte (paranoia)
Sentir vergonha do exorcismoO exorcismo é parte da TradiçãoMultiplicação indiscriminada de exorcismos

Significado doutrinal

O documento de 1975 estabelece que a demonologia católica não é:

  • Uma «obsessão» religiosa
  • Um resíduo de épocas pré-modernas
  • Uma «desculpa» para o pecado humano
  • Uma forma de superstição

Mas SIM:

  • Uma componente integral da fé bíblica
  • Uma exigência da soteriologia (Cristo veio salvar do pecado e do Maligno)
  • Uma chave de leitura existencial do mal pessoal e estrutural
  • Uma prática espiritual sóbria e equilibrada

Influência posterior

O documento de 1975 foi a base para:

  • Catequeses de João Paulo II sobre os anjos e o Diabo (1986)
  • Catecismo da Igreja Católica nn. 391-395
  • Novo Rito do Exorcismo (1999)
  • Vade-mecum para Exorcistas da Sacra Congregação para o Culto Divino

Leitura complementar

IV Concílio de Latrão 1215 | Catecismo CIC

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