«Deus incrementum dedit»: o campo de Deus, o serviço e a cooperação de Maria

«Praeterit figura huius mundi»: a virgindade escatológica e as bem-aventuranças

Ego plantavi, Apollo rigavit, sed Deus incrementum dedit. […] Illa autem continuo surgens ministrabat illis.
1Cor 3,6 e Lc 4,39

A quarta-feira da Semana XXII do Tempo Comum junta duas lições sobre a mesma coisa, o lugar exato da ação humana dentro da obra de Deus. Paulo corrige uma comunidade que transformou os seus pregadores em bandeiras e reduz cada um deles à sua medida real, «eu plantei, Apolo regou, mas Deus é que fez crescer» (v.6). Lucas mostra a sogra de Simão que, curada, se levanta e serve, e Jesus que se recusa a ficar onde é querido porque foi enviado a outras cidades. Em ambos os casos, o humano é decisivo e não é a origem.

I. A primeira leitura: 1Cor 3,1-9

Paulo continua a desmontar as facções de Corinto e agora aponta a raiz. A comunidade dividida entre «eu sou de Paulo» e «eu sou de Apolo» (v.4) não tem um problema de simpatias pessoais, tem um problema de imaturidade teológica. Por isso a metáfora do leite e do alimento sólido (v.2). Quem se agrupa em torno de um ministro ainda não percebeu o que um ministro é.

A correção é feita com uma imagem agrícola de uma sobriedade brutal: «nem o que planta nem o que rega são coisa alguma, só Deus é que conta, pois é Ele que faz crescer» (v.7). O apóstolo não está a praticar humildade retórica, está a descrever a estrutura da causalidade na ordem da graça. O ministro trabalha de verdade, e por isso «cada qual receberá a recompensa, segundo o esforço do seu trabalho» (v.8). Mas o crescimento é de outra ordem, e nenhuma quantidade de esforço humano o produz. A conclusão devolve a dignidade sem devolver a ilusão: «nós somos colaboradores de Deus e vós sois o campo de Deus» (v.9).

II. O evangelho: Lc 4,38-44

Lucas encadeia três cenas breves e cada uma diz algo sobre o mesmo tema. Primeiro a cura da sogra de Simão, contada com uma economia notável: Jesus «falou imperiosamente à febre», a febre deixou-a, «ela levantou-se e começou logo a servi-los» (v.39). O verbo grego que Lucas usa para esse serviço é o mesmo que dará origem à palavra diaconia. A cura não termina no alívio. Desemboca imediatamente num serviço, e é esse serviço que revela que a cura foi verdadeira.

Depois, ao pôr do sol, a multidão traz os doentes e Jesus impõe as mãos «sobre cada um deles» (v.40). O detalhe não é decorativo. Não há cura em massa nem gesto genérico, há atenção individual num contexto de urgência coletiva. E por fim, ao romper do dia, a fuga para o lugar deserto e a recusa de ficar: «tenho de ir também às outras cidades anunciar a boa nova do Reino de Deus, porque para isto fui enviado» (v.43). A multidão queria retê-lo. O êxito local é apresentado como uma tentação real, e a solidão orante é o que permite resistir-lhe.

III. Colaborar sem confundir

As duas leituras encontram-se numa frase que poderia resumir toda a espiritualidade apostólica: primeiro receber, depois dar. A sogra de Simão não serviu para ser curada, serviu porque foi curada. Os coríntios não fizeram crescer a Palavra, foram o campo onde ela cresceu. A ordem não é invertível, e invertê-la é a definição mais precisa daquilo a que a tradição chamou presunção.

Daqui decorre uma exigência dupla que a prática costuma partir ao meio. Quem sabe que o crescimento é dom tende a relaxar o esforço, e quem se empenha a fundo tende a apropriar-se do resultado. Paulo pede as duas coisas ao mesmo tempo, trabalho pleno e desapropriação plena. O agricultor que conhece os limites da sua ação não trabalha menos, trabalha sem ansiedade. É por isso que Jesus, no auge do sucesso em Cafarnaum, se levanta antes do amanhecer e vai para o deserto. A missão que nasce da oração não precisa de ser retida por ninguém.

IV. Maria: o campo em que cresceu o que ninguém plantou

Se «vós sois o campo de Deus» descreve a Igreja, então Maria é o caso em que a imagem deixa de ser imagem. Nela, o crescimento que só Deus dá tomou carne. Ela não gerou o Filho a partir de si, recebeu-o do Espírito Santo (Lc 1,35), e no entanto a sua cooperação foi tudo menos passiva. O Concílio é preciso ao dizer que ela não foi instrumento puramente passivo nas mãos de Deus, mas cooperou na salvação com fé e obediência livres (LG 56).

Esta é a fórmula exata do que Paulo exige aos coríntios, levada ao seu grau máximo. Maria plantou com o fiat, regou com os anos ocultos de Nazaré, e nunca confundiu o seu contributo com o resultado. O Magnificat é precisamente essa distinção posta em oração: «o Todo-Poderoso fez em mim maravilhas» (Lc 1,49). Ela reconhece que algo grande aconteceu, situa-se dentro do acontecimento, e nomeia quem o fez.

E há o serviço. Lucas, que hoje mostra a sogra de Simão a levantar-se para servir, é o mesmo que mostra Maria a levantar-se e a partir «apressadamente» para a montanha, para casa de Isabel (Lc 1,39). O movimento é idêntico. Recebeu, levantou-se, serviu. A Igreja reconhece nela o seu próprio tipo na ordem da fé, da caridade e da perfeita união com Cristo (LG 63), e essa tipologia inclui este ritmo elementar que a vida cristã nunca deixa de repetir.

A quarta-feira da Semana XXII deixa portanto uma medida para o exame de consciência de quem trabalha na Igreja. A pergunta não é quanto plantei nem quanto reguei. É se continuo a saber que não sou eu quem faz crescer, e se, sabendo-o, continuo a plantar com o mesmo empenho.

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