Diliges dominum Ex toto corde tuo: Maria e o amor total a Deus

Diliges dominum Ex toto corde tuo: Maria e o amor total a Deus

Diliges Dominum Deum tuum ex toto corde tuo, et ex tota anima tua, et ex tota mente tua, et ex tota virtute tua.
Mc 12,30

Quando um escriba pergunta a Jesus qual é o «primeiro de todos os mandamentos», Jesus responde com o Shemá Israel (Dt 6,4-5) e acrescenta o mandamento do amor ao próximo (Lv 19,18): «Não há mandamento maior do que estes». A quádrupla dimensão do amor a Deus que Marcos formula, coração, alma, mente, força, é a descrição da totalidade da pessoa humana: amar a Deus com «tudo o que se é». A mariologia encontra neste mandamento a sua expressão mais sintética: O Diliges Dominum encontra em Maria a sua realização mais perfeita: Maria que disse «fiat» com todo o seu ser é o modelo mais perfeito de quem amou a Deus com «todo o coração, toda a alma, toda a mente e toda a força».

I. O «Primeiro de todos os mandamentos»: estrutura e horizonte

O mandamento Diliges Dominum que Jesus cita não é uma novidade absoluta. A resposta de Jesus combina dois textos veterotestamentários que no judaísmo eram rezados separadamente: o Shemá de Dt 6,4-5 («Ouve, Israel: o Senhor nosso Deus é o único Senhor…») e o mandamento do amor ao próximo de Lv 19,18 («Amarás o teu próximo como a ti mesmo»). A novidade de Jesus não é inventar estes mandamentos, ambos já existiam na Torah, mas uni-los num único mandamento composto e afirmar que «não há outro mandamento maior do que estes».

A estrutura deste mandamento duplo revela a visão cristã da existência humana: a relação vertical com Deus e a relação horizontal com o próximo são inseparáveis. Não se pode amar verdadeiramente a Deus sem amar o próximo (1Jo 4,20). Não se pode amar verdadeiramente o próximo sem radicalizar esse amor na relação com Deus. O amor cristão é sempre este duplo movimento, de subida a Deus e de descida ao próximo, que em Jesus se unifica.

A quádrupla dimensão do amor a Deus em Mc 12,30, coração (kardia), alma (psychê), mente (dianoia), força (ischys), é uma variação sobre o texto hebraico de Dt 6,5, que menciona três dimensões (coração, alma, força). A adição da «mente» em Marcos sublinha que o amor a Deus não exclui a razão: amar a Deus com «toda a mente» é a forma intelectual do mandamento, que a tradição teológica expressou na fides quaerens intellectuma fé que procura a compreensão.

O escriba responde com admiração e acrescenta um elemento novo: o amor a Deus e ao próximo «vale mais do que todos os holocaustos e sacrifícios» (Mc 12,33). Jesus, vendo que o escriba «respondeu sabiamente», diz-lhe: «Não estás longe do Reino de Deus». Esta proximidade ao Reino mediante o amor duplo é o horizonte dentro do qual a mariologia encontra Maria: ela que amou a Deus e ao próximo com mais perfeição do que ninguém está já no coração do Reino.

II. «Ex toto corde»: Maria e o amor indiviso

O «coração» (lev em hebraico, kardia em grego) na tradição bíblica é o centro da pessoa, o lugar donde emanam as decisões e os afectos fundamentais. Amar a Deus «com todo o coração» é amar sem divisão interior, sem reservas, sem o «coração dividido» (cor duplici) que o salmista descreve como o coração do hipócrita (Sl 12,2). O «Diliges Dominum» começa precisamente neste coração indiviso.

Maria é, na tradição, a figura do «coração indiviso». A sua entrega a Deus no «fiat» não foi uma entrega parcial, foi a entrega de «todo o coração». Não havia no coração de Maria uma parte reservada para si, uma área que ela protegesse da vontade de Deus: o «fiat» foi total, incondicional, sem cláusulas de salvaguarda. Este amor indiviso é o fruto directo da graça que a habitava desde a concepção: um coração não dividido pelo pecado pode amar sem divisão.

Esta dimensão do Diliges Dominum ilumina a teologia do Imaculado Coração. A devoção ao Imaculado Coração de Maria, que a liturgia celebra no Sábado após a Solenidade do Sagrado Coração, é a expressão devocional desta totalidade. O «Coração Imaculado» não é apenas um símbolo de pureza moral, é a afirmação de um amor sem divisão, de um coração que amou a Deus «com todo o coração» porque não tinha em si mesmo nada que dividisse ou dispersasse esse amor. Contemplar o Imaculado Coração é contemplar o mandamento supremo realizado em plenitude numa criatura humana.

A mística cristã, de Bernardo de Claraval a João da Cruz, explorou o «amor puro» como o ideal da vida contemplativa: um amor que não busca retorno, que não é motivado pelo medo ou pelo prémio, que ama a Deus por Deus mesmo. Maria é o modelo deste amor puro: ela não amou a Deus porque esperava algo em troca, amou porque o amor era a estrutura fundamental da sua existência criada e graciada. O seu «fiat» não tinha cláusulas de compensação.

III. «Et proximum tuum sicut teipsum»: Maria e o amor ao próximo

O segundo mandamento, «amarás o teu próximo como a ti mesmo» (Lv 19,18), tem em Maria uma realização que a vida evangélica documenta com concreteza. A Visitação (Lc 1,39-56) é o gesto imediato: mal recebeu a notícia da gravidez de Isabel, «foi às pressas» ao seu serviço. As Bodas de Caná (Jo 2,1-11) mostram Maria atenta às necessidades dos outros antes que lhe peçam. No Calvário (Jo 19,25-27), a sua presença junto do Filho é ao mesmo tempo amor ao Filho e amor ao «discípulo amado» que recebe como filho. Em Maria o «Diliges Dominum» abre-se naturalmente ao «diliges proximum».

A «proximidade» do amor de Maria não tem limites de grupo ou de etnia: a sua maternidade espiritual que o gesto de Jo 19,26-27 inaugura, é universal. O «discípulo amado» que ela recebe como filho não é apenas João, é todo o discípulo de todos os tempos. Esta universalidade do amor mariano ao próximo é a consequência da universalidade do amor ao Filho: porque ela amou o Filho «com todo o coração», o seu amor se estende a todos os que são «do Filho».

A tradição das obras de misericórdia, que a Igreja sempre associou à vida cristã, tem em Maria um dos seus modelos mais eloquentes: ela que visitou a anciana Isabel (misericórdia das pernas), que intercedeu pelos convidados de Caná (misericórdia da intercessão), que acolheu João junto da Cruz (misericórdia do coração acolhedor). O amor ao próximo de Maria não é abstracto, é concreto, atento, personalizado. O mesmo mandamento que Jesus proclamou como «o segundo» é vivido por Maria em cada gesto concreto da sua vida.

O Diliges Dominum não se separa do amor ao próximo. A mariologia social, um desenvolvimento teológico do século XX que procura articular a devoção mariana com o compromisso pela justiça, encontra no mandamento duplo o seu fundamento. Não se pode honrar a Mãe que cantou «derrubou os poderosos e exaltou os humildes» (Lc 1,52) sem se comprometer com os humilhados da história. O amor ao próximo que o Magnificat promove não é apenas assistência caritativa, é transformação das estruturas que geram a pobreza. Maria, que viveu o mandamento duplo em plenitude, é o modelo de um amor ao próximo que chega às suas raízes estruturais.

IV. «Não estás longe do reino»: Maria já no coração do reino

Jesus diz ao escriba: «Não estás longe do Reino de Deus». Esta proximidade ao Reino mediante o amor duplo tem em Maria a sua realização definitiva: ela não está «não longe» do Reino, está no seu coração. Ela que amou a Deus e ao próximo de modo mais perfeito do que qualquer outro ser humano está já na plenitude do Reino que a Assunção confirmou. O «Diliges Dominum» encontra nela a sua consumação escatológica.

No horizonte do Diliges Dominum, Maria habita já o coração do reino. A tradição contemplativa identificou o amor perfeito como o «Reino de Deus» já presente no coração do fiel: o Reino não é apenas uma realidade futura e escatológica, começa já no presente onde o amor duplo é vivido. Maria é, nesta perspectiva, a pessoa em que o «Reino de Deus» esteve mais presente no curso da história terrena: não por poder político ou influência social, mas pelo amor a Deus e ao próximo que a habitava de modo singular.

A devoção ao Sagrado Coração de Jesus e ao Imaculado Coração de Maria, celebrada na liturgia nos últimos dias de Junho, tem neste mandamento duplo o seu fundamento mais sólido. O «Coração» de Jesus e o «Coração» de Maria são, no fundo, a expressão do mandamento duplo realizado: um Coração que amou a Deus e ao próximo «com todo o coração, toda a alma, toda a mente e toda a força». Contemplar estes Corações é contemplar o mandamento supremo na sua realização mais perfeita.

O Tempo Comum, que agora se inicia e se estenderá até ao Advento, é o tempo litúrgico do mandamento duplo: o tempo em que a fé se vive no quotidiano, em que o amor a Deus se traduz em amor ao próximo nas circunstâncias ordinárias da vida. Maria, que viveu «o tempo comum» de Nazaré durante trinta anos em obscuridade e fidelidade, é o guia privilegiado deste «tempo comum» da Igreja: ela que amou «com todo o coração» no quotidiano de uma vida de mulher galiliana é o modelo do amor que não depende das circunstâncias extraordinárias mas que se sustenta nas circunstâncias mais ordinárias.


Maria, que amou a Deus «com todo o coração, toda a alma, toda a mente e toda a força» e o próximo como a si mesma, é o modelo mais perfeito do mandamento duplo que Jesus proclamou como «o maior de todos».

Referências

  • Concílio Vaticano II, Lumen Gentium, n. 63-65 (1964).
  • Bento XVI, Deus Caritas Est, n. 1-18 (2005).
  • João Paulo II, Redemptoris Mater, n. 38-41 (1987).
  • J. Gnilka, Das Evangelium nach Markus, vol. II (1979).
  • H. U. von Balthasar, Mary for Today (1987).

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