Ecumenismo e Maria — O obstáculo que pode tornar-se ponte

Ecumenismo e Maria — O obstáculo que pode tornar-se ponte

A Mariologia e o culto mariano constituem, a par do papado, a maior dificuldade no caminho para a unidade cristã. Karl Barth qualificou a mariologia católica como “excrescência parasitária que acabou por pôr em perigo o tronco vital do qual procede — a obra e a revelação de Deus em Cristo”. O Concílio Vaticano II reconheceu o problema e pediu que “nas palavras e nos actos se evite diligentemente tudo o que possa induzir em erro os irmãos separados acerca da verdadeira doutrina da Igreja” (LG 67).

As raízes do problema

O problema ecuménico da Mariologia tem raízes teológicas e pastorais. Do lado católico, identificam-se quatro causas principais: (1) Hipertrofia de especulação — a tendência a proclamar novos títulos à Maria sem fundamento escriturístico suficiente, segundo a máxima “de Maria nunquam satis”; (2) Esquecimento da hierarquia das verdades — em algumas práticas, Maria recebe mais atenção que Cristo, e a sua mediação é apresentada em paralelo com a única mediação do Mediador (UR 11); (3) Monoideismo mariológico — a centralidade afectiva dada a Maria em detrimento de Cristo, que “desce para a sombra”; (4) Modelo errado de mediação — o modelo “ad Christum per Mariam” de S. Bernardo, que opõe a misericórdia de Maria à justiça de Cristo, apresentando Maria como mais acessível que o próprio Senhor.

Declarações ecuménicas sobre Maria

Os diálogos ecuménicos têm produzido convergências significativas. Roma, 1975: luteranos, reformados, ortodoxos e católicos afirmaram conjuntamente que Cristo é o único Mediador (1 Tm 2,5), que Maria cooperou de modo eminente com a obra redentora, que o seu “fiat” tem significado permanente, e que as orações invocando a sua intercssão se fundam na fé de que Maria permanece ligada à obra da redenção ao longo dos séculos. Saragoça, 1979: teólogos de cinco tradições afirmaram que a veneração de Maria não é adoração (reservada só a Deus) mas dulia, e que as diferenças de atitude “resultam mais de razões emocionais que teológicas”.

O diálogo católico-luterano sobre “Maria no NT”

Entre 1975 e 1978, uma comissão mista de exegetas católicos e luteranos nos EUA trabalhou sobre “Maria no Novo Testamento”. As conclusões principais: a imagem de Maria deve ser reconstituída a partir do que os textos dizem ou implicam, sem o argumento do silêncio; a evolução dos evangelhos vai de uma imagem mais reservada em Marcos a uma mais positiva em Lucas; a cena do Calvário em João (19,25-27) institui uma nova comunidade de discípulos em que Maria se torna “mãe do discípulo por excelência” e “ideal da fé”. As divergências sobre os dogmas marianos (Imaculada Conceição, Assunção) são determinadas mais pela diferente atitude perante a Tradição que pelo NT.

Perspectivas

O caminho ecuménico sobre Maria passa por três exigências: (1) admitir um pluralismo teológico entre as igrejas, sem exigir a aceitação imediata de todos os dogmas marianos; (2) corrigir o modelo católico de mediação de Maria, privilegiando modelos mais cristocêntricos e pneumatológicos; (3) purificar a pregação e a devoção mariana, eliminando as exagerações que obscurecem a unicidade da mediação de Cristo. Como disse S. Bernardo — o maior pregador mariano da história — “A Virgem régia não precisa de uma honra falsa; possui títulos verdadeiros em abundância suficiente”.

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Daniel Afonso

Prof. Dr. Daniel Cerqueira Afonso é mariologista e teólogo, Doutor em Teologia Sagrada com especialização em Mariologia pela Faculdade Teológica Marianum (Roma, 2017). Membro correspondente da Academia Mariana Internacional Pontifícia (AMISM) desde 2012. Fundador e Presidente do Locus Mariologicus — primeiro centro de formação em Mariologia em língua portuguesa.

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