O Concílio Vaticano II chama Maria a “excelsa filha de Sião” (Lumen Gentium 55) — título novo no magistério e quase ausente nos manuais de teologia. Este título expressa uma descoberta fundamental da Mariologia bíblica contemporânea: em Maria converge toda a história de Israel, e é nela que o Antigo Testamento atinge o seu ponto de maturação e de cumprimento. Para artigo completo: Filha de Sião.
O Antigo Testamento narra repetidamente o milagre da vida nascida da esterilidade: Sara, Rebeca, Raquel, Ana — mães cujo filho é puro dom de Deus, não fruto do poder humano. O mensageiro celeste à beira de Mambré pergunta: “Será que alguma coisa é impossível para o Senhor?” (Gn 18,14). Esta pergunta fica suspensa durante dois milénios, até que um novo mensageiro celeste a retoma em modo afirmativo diante de Maria: “Nada é impossível a Deus” (Lc 1,37). A concepção virginal de Maria é o ponto de convergência desta tradição — e preparação imediata da “máxima manifestação do mistério da vida”: a Ressurreição.
O “sim” de Maria ao anúncio divino remete para o modo como Abraão e Sara acolheram a promessa do filho. Se a intensidade é diferente — Abraão e Sara chegam a rir de incredulidade —, a “qualidade” é a mesma: a alba da história de Israel e o início do seu ponto culminante encontram dois actos similares de abandono em Deus, dois actos de fé no “Deus da vida”. De Abraão a Maria prepara-se o acto supremo de fé com que Jesus entrega a sua vida nas mãos do Pai: “Nas tuas mãos entrego o meu espírito” (Sl 31,6; Lc 23,46).
O anúncio do anjo a Maria está redigido segundo um género literário de aliança. No Sinai, o povo responde três vezes ao mediador: “Tudo o que o Senhor disse nós o faremos” (Ex 19,8; 24,3.7). Na cena lucana, o mediador é o anjo e Maria ocupa o lugar do povo. O “sim” de Israel no Sinai ecoa ao longo da história até ressoar, numa adesão completa, nos lábios da Virgem. O Magnificat (Lc 1,46-55) retoma o cântico de Israel liberto do Egipto (Ex 15) — as “coisas grandes” que Deus fez em Maria são os magnalia Dei da história da salvação.
Três títulos veterotestamentários convergem em Maria. Primeiro, o “resto de Israel” (Is 4,2-3): o pequeno e oculto germe em que se concentra o poder vivificante de Deus — uma jovem desconhecida de um obscuro vilarejo, cheia do Espírito. Segundo, a “serva do Senhor”: o único título que Maria se atribui (Lc 1,38) e que remete para o Servo de Yhwh do Deutero-Isaías e para todos os patriarcas, profetas e para o próprio Israel (Is 41,8). No seu “fiat” ressoa o “sim” de Israele ao Sinai. Terceiro, a “arca santa”: Lucas usa o verbo episkiazo (“fazer sombra”) que os LXX empregam para a nuvem que envolve a Arca (Ex 40,35). Na Visitação, a viagem de Maria “às montanhas de Judá” e os três meses de permanência evocam directamente a transferência da Arca (2 Sam 6,2.11).
Os temas fundamentais da tradição mariana encontram ecos nas fontes judaicas: a maternidade universal de Sara, a profecia de Miriam sobre o irmão, os méritos das “mães de Israel” para a redenção do povo. Este facto documenta “a existência de uma afinidade de fundo” entre as duas tradições e “um húmus comum”, evidenciando o laço profundo que une judeus e cristãos. Maria não é um obstáculo mas uma possível ponte no diálogo ecuménico — a filha de Israel que, por graça, se tornou a Mãe do Messias prometido ao povo.
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