A família de Nazaré não é a imagem adoçada das gravuras piedosas. É uma história real, marcada pela fé, pelo drama e pelo amor concreto. Maria, José e Jesus viveram trinta anos de vida comum, partilhando trabalho, silêncio e descoberta progressiva do mistério que habitava a sua casa. O estudo desta família é parte essencial da Mariologia, porque revela Maria como mulher, esposa e mãe, protagonista da história da salvação.
O Anúncio do Anjo acontece quando Maria está prometida a José. Lucas apresenta-os com uma fórmula corrente, sem dramatismo, como dois jovens que projectavam viver juntos. A partir desse momento, porém, as suas vidas ficam marcadas por uma vocação que ultrapassa os seus planos: Maria concebe pela acção do Espírito Santo, sem José. Do ponto de vista humano, Maria estava terrivelmente só naquele momento decisivo. O impacto sobre José foi o de um homem justo confrontado com o inexplicável: a dúvida, a dor, a pergunta sem resposta. O Evangelho de Mateus resolve o drama com a intervenção do anjo, que revela a José a origem divina do filho. A partir daí, José acolhe o mistério com fé e generosidade totais, tomando Maria consigo e dando ao Filho o nome de Jesus.
A tradição cristã tendeu a sublinhar apenas o papel protector de José. Mas o Evangelho aponta para algo mais profundo: uma comunhão de fé entre dois seres livres, cada um chamado a um sacrifício imenso, cada um sustentado pela Palavra que vem de Deus. Maria não suportou um marido de quem prescindiria. Viveu, com José, uma experiência de reconciliação e de comunhão liberta do medo, da possessividade e do domínio.
A Lumen Gentium (n. 58) descreve Maria como avançando “na sua peregrinação da fé”. Essa peregrinação passa por momentos da vida familiar concretos. No Natal de Belém, Maria e José percorrem juntos a busca de um lugar, a surpresa dos pastores, o silêncio da manjedoura. Na apresentação no Templo, escutam as palavras de Simeão sobre a espada que traspassará a alma de Maria. Na fuga para o Egipto, partem de noite, com o filho que o poder quer matar. Em Nazaré, vivem trinta anos de vida comum, de que o Evangelho guarda apenas um episódio: o menino de doze anos encontrado no Templo. Maria repreende-o, ele responde com palavras que ela não compreende por completo, e volta a ser-lhes submisso. O Evangelho conclui: “A sua mãe guardava todas estas coisas no seu coração” (Lc 2,51). Maria não compreende tudo de imediato. Mas guarda, medita, e avança na fé.
A família de Nazaré oferece à família cristã de hoje não um modelo de perfeição fácil, mas um modelo de fidelidade na complexidade. Maria revela que a família pode ser um espaço de libertação: lugar onde o filho cresce segundo a sua própria autonomia, onde o homem e a mulher se tratam como pessoas e não como propriedade, onde a fé é a pedra sobre a qual se constroem as decisões mais difíceis.
Na Cruz, ao confiar Maria a João e João a Maria, Jesus prolonga para toda a história da Igreja a presença materna daquela que foi, na sua família terrena, modelo de escuta, de serviço e de coragem. A família de Nazaré não é idílica. É humana, crente e corajosa.
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