Filiam meam modo defuncta est: jairo, a hemorroíssa e Maria porta da vida

Et ecce princeps unus accessit et adorabat eum, dicens: Domine, filia mea modo defuncta est. Sed veni, impone manum tuam super eam, et vivet.
Mt 9,18
O episódio de Mt 9,18-26 é um dos mais engenhosos da narrativa de Mateus: dois milagres entrelaçados, um dentro do outro, como se a urgência de um caso iluminasse a discrição do outro. Jairo, chefe da sinagoga, vem pedir a Jesus que ressuscite a sua filha, e no caminho para a casa de Jairo a mulher com hemorragia há doze anos toca a orla da veste de Jesus e é curada. A filha de Jairo que estava morta há doze anos, não, ela estava viva quando Jairo pediu, mas morreu entretanto, é ressuscitada. Os dois milagres são cronologicamente consecutivos mas narrativamente simultâneos, e a justaposição é teologicamente deliberada.
Mateus é o mais breve dos três evangelistas que narram este episódio (ver Mc 5,21-43 e Lc 8,40-56): omite a hemorragia de doze anos, omite os detalhes da multidão, omite os criados que chegam a dizer «a tua filha morreu, para que incomodes mais o Mestre». Em Mateus, Jairo diz desde o início «acaba de morrer» (Mt 9,18), o que acelera a urgência: não há progressão do mau para o pior, há apenas a morte apresentada de imediato ao Curador. Esta concentração de Mateus é característica do seu método: foca-se no essencial teológico, não no dramático narrativo.
I. «Impõe a tua mão e ela viverá»: a fé de jairo na urgência
«Senhor, a minha filha acaba de morrer. Mas vem, impõe a tua mão sobre ela, e ela viverá» (Mt 9,18), a petição de Jairo é um dos modelos mais completos de oração de intercessão nos Evangelhos. Três elementos: o reconhecimento da realidade («acaba de morrer»), o pedido específico («vem, impõe a tua mão»), e a fé na eficácia da acção de Jesus («ela viverá»). Jairo não pede «se puderes fazer algo», pede com a certeza de que Jesus pode fazer o impossível. A morte é apresentada não como limite da petição mas como objecto da petição: precisamente porque morreu, Jairo vem pedir.
A postura de Jairo, «prostrou-se diante d’Ele» (Mt 9,18, «prosekynei»), é a postura da adoração. O mesmo verbo é usado pelos Magos que se prostraram diante do Menino (Mt 2,11) e pelos discípulos que se prostraram diante do Ressuscitado (Mt 28,17). Jairo, o chefe da sinagoga, um representante da autoridade religiosa judaica, prostra-se diante de Jesus como diante de Deus. A fé na ressurreição da filha é inseparável do reconhecimento da identidade divina de Jesus: só Deus pode ressuscitar os mortos. Jairo pede a Jesus que ressuscite a sua filha. Logo, Jairo, implicitamente, está a reconhecer em Jesus mais do que um profeta.
A urgência de Jairo tem eco na oração cristã de intercessão nos momentos extremos. Quando a situação parece além da esperança humana, a doença terminal, a morte inesperada, a crise irreversível, a oração de Jairo é o modelo: não a resignação fatalista («Deus fará o que quiser»), não a barganha ansiosa («faço votos se Tu fizeres»), mas a petição directa fundada na fé: «vem, impõe a tua mão, e ela viverá». A fé de Jairo não depende da probabilidade da cura, depende da identidade do Curador.
Maria, Mãe de Deus viveu a experiência de Jairo no Calvário: o Filho morto, a fé que não morreu, a certeza implícita de que o que Deus havia prometido («o seu reino não terá fim», Lc 1,33) não podia ser anulado pela cruz. Como Jairo que se prostrou diante de Jesus pedindo vida para a filha morta, Maria permaneceu perto do Filho morto com a fé que aguardava a vida que Deus havia de dar. A Ressurreição foi a resposta divina à fé silenciosa de Maria no Sábado Santo, o equivalente do «levanta-te, menina» que Jesus disse à filha de Jairo.
II. «Se tocar a sua veste, serei curada»: a fé discreta da hemorroíssa
«Uma mulher que sofria de hemorragia há doze anos aproximou-se por detrás e tocou a orla da sua veste» (Mt 9,20), a abordagem da mulher é o oposto da de Jairo. Jairo veio directamente, identificou-se, pediu em público. A mulher veio por detrás, não se identificou, tocou sem pedir. A sua fé é «se eu tocar apenas a sua veste, serei curada» (Mt 9,21), a fé mínima, a fé que não ousa pedir mas que crê que a simples proximidade de Jesus é suficiente para a cura.
Jesus «virou-se, viu-a e disse: Tem coragem, filha, a tua fé salvou-te» (Mt 9,22). O mesmo «tem coragem» (tharsei) dirigido ao paralítico em Mt 9,2 é agora dirigido à mulher. Jesus não repreende a abordagem discreta, responde-lhe com a mesma palavra de encorajamento e com o reconhecimento da fé que motivou o gesto. A fé da mulher, que ela considerava quase insuficiente, tanto que não ousou pedir em voz alta, foi reconhecida como salvífica. «A tua fé te salvou» é a frase que Mateus usa para as curas associadas à fé pessoal: a fé que age, mesmo que seja fé tímida e discreta.
O contraste entre a fé pública de Jairo e a fé discreta da hemorroíssa revela que Jesus acolhe as duas modalidades. Há quem venha de frente, se identifique, peça em voz alta com urgência, como Jairo, como as mães que trazem os filhos, como os cegos que gritam «Filho de David, tem misericórdia de nós». E há quem se aproxime pelo silêncio, sem palavras, pelo toque discreto que sabe que a proximidade de Jesus é suficiente. Jesus responde a ambas as modalidades com a mesma eficácia: o paralítico que foi carregado pelos amigos, a filha de Jairo que foi pedida pelo pai, a hemorroíssa que tocou em silêncio, todos foram curados.
A hemorroíssa que «sofria há doze anos» e que foi curada no momento de tocar a orla da veste antecipa teologicamente a experiência da confissão sacramental: o penitente que se aproxima de Cristo não directamente mas pela mediação sacerdotal, que «toca» a graça de Cristo pela via dos sacramentos, que recebe a cura sem a ver fisicamente mas que experimenta o efeito, «a hemorragia estancou imediatamente» (Mc 5,29). A saúde restaurada é o sinal da graça recebida, como o paralítico que andou foi o sinal do perdão recebido.
III. Maria porta da vida: entre jairo e a hemorroíssa
A tradição mariana viu em Maria uma síntese das duas figuras deste episódio. Como Jairo, Maria intercede com urgência e confiança quando a situação parece sem saída: «Não têm vinho» (Jo 2,3) é a fórmula da intercessão directa, pública, fundada na certeza de que o Filho pode fazer o que parece impossível. Como a hemorroíssa, Maria age frequentemente de modo discreto, não pede para si mesma, não se coloca em evidência, toca o coração do Filho sem discurso, e o efeito é imediato: «Fazei tudo o que Ele vos disser» (Jo 2,5).
«Porta da Vida», «Ianua Vitae», é um dos títulos marianos que a tradição desenvolveu a partir da imagem de Maria como aquela que dá passagem ao Filho que é a Vida. O Filho que ressuscitou a filha de Jairo e curou a hemorroíssa entrou no mundo pela porta de Maria. A maternidade divina de Maria não é apenas um facto biológico: é a afirmação de que a Vida que cura e ressuscita passou pela mediação da sua humanidade, o Verbo se fez carne no ventre de Maria e foi pelo ventre de Maria que a Vida entrou no tempo.
A devoção às graças obtidas pela intercessão de Maria os sanatórios, as igrejas votivas, as colecções de ex-votos que documentam curas e salvações, tem neste episódio um fundamento cristológico sólido: se Jesus curou a filha de Jairo pela intercesão do pai, e se curou a hemorroíssa pela fé discreta do toque, a estrutura do agir divino inclui a mediação da fé de outros. Maria como «Porta da Vida» é quem facilita o acesso ao Filho para os que, como Jairo, vêm com urgência, e para os que, como a hemorroíssa, se aproximam em silêncio.
IV. «A menina não morreu, está a dormir»: a fé na Ressurreição
«Afastai-vos, pois a menina não morreu, está a dormir» (Mt 9,24), Jesus usa o eufemismo do «sono» para a morte de uma criança diante de quem chora. A multidão «ria-se d’Ele» (Mt 9,24), a incredulidade face à afirmação de que a morte é «sono» é a incredulidade dos que não reconhecem quem está na casa. Jesus «expulsou a multidão» e entrou apenas com os pais, a ressurreição acontece no silêncio, longe do escrutínio dos que não crêem.
«E a menina levantou-se» (Mt 9,25), o verbo grego «egeírō» é o mesmo usado para a Ressurreição de Jesus em toda a literatura neotestamentária. A ressurreição da filha de Jairo é um sinal antecipador da Ressurreição de Cristo: o que aconteceu à menina no quarto fechado, longe dos risonhos, é o sinal do que acontecerá ao Filho no túmulo fechado, longe dos que duvidavam. A estrutura é a mesma: morte, incredulidade dos que riam, intervenção silenciosa de Jesus, ressurreição.
«A fama disto correu por toda aquela terra» (Mt 9,26), a ressurreição da menina não ficou em segredo, apesar do ambiente de silêncio em que aconteceu. A missão que Jesus deu aos curados de não divulgar (em outros episódios) aqui não é mencionada: a ressurreição de uma criança morta é demasiado visível para ser contida. A fama que se difunde é o eco natural de um sinal que vai além das curas de doenças: ressuscitar mortos é o sinal mais alto da autoridade divina, o que coloca Jesus na linha de Elias e Eliseu mas acima de ambos, eles ressuscitaram mortos pela oração, Jesus ressuscita pelo próprio poder.
Maria testemunhou a fama do Filho difundir-se, desde a adoração dos Magos, passando pelas curas na Galileia, até ao Calvário onde a fama se inverteu em escândalo. Mas no Sábado Santo, quando a fama calou e a menina parecia definitivamente morta, Maria manteve a fé na ressurreição que o Filho havia de realizar. «Não morreu, está a dormir», Maria soube, desde a Anunciação que o Filho que havia de nascer era o Filho do Altíssimo cujo reino não teria fim. A morte era o sono do qual o Pai o havia de despertar. A fé de Maria no Sábado Santo é a fé que aguarda o despertar, e que, ao terceiro dia, foi confirmada.
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