O joio, o trigo e o fermento: Sb 12, rom 8 e a paciência do reino em Mt 13

Ipse Spiritus postulat pro nobis gemitibus inenarrabilibus.
Rom 8,26
O décimo sexto domingo do Tempo Comum do Ano A articula três textos em torno da paciência de Deus e da acção oculta do seu Espírito. Sb 12,13.16-19 proclama que o Deus soberano julga com brandura e deixa tempo à conversão. Rom 8,26-27 revela que o Espírito intercede por nós com gemidos que a linguagem não consegue exprimir. Mt 13,24-43 reúne três parábolas do Reino: o joio e o trigo que crescem juntos até à colheita, o grão de mostarda que se torna o maior dos arbustos, o fermento que levedou toda a massa. Os três textos descrevem o mesmo Deus: soberano mas paciente, eficaz mas discreto, que não arranca o joio antes do tempo, não força a mostarda a crescer, não obriga o fermento a actuar, mas confia que a sua palavra e o seu Espírito farão o que prometeram.
I. A primeira leitura: Sb 12,13.16-19
A Sabedoria proclama a singularidade e a clemência de Deus: «Não há outro deus além de ti que cuide de tudo, de modo que te devesses provar que não julgaste injustamente» (Sb 12,13). Deus não tem de se justificar perante ninguém: é o único soberano. Mas essa soberania não se traduz em arbitrariedade: «O teu poder é a fonte da justiça» (v.16). E a consequência é inesperada: por ser soberano, pode ser clemente, «tratando os culpados com toda a suavidade» (v.16). O sinal mais eloquente desta clemência é o tempo: «Governas com grande indulgência e com muita condescendência, porque tens o poder quando queres» (v.18). Deus não age com precipitação porque não precisa de apressar-se: o seu poder não caduca, a sua soberania não está ameaçada. E por isso dá espaço ao arrependimento: «ao pecador deixas tempo e lugar para que se converta» (v.19 LXX). A clemência de Deus não é fraqueza: é a expressão de quem tem poder suficiente para não precisar de o usar precipitadamente.
II. A segunda leitura: rom 8,26-27
Paulo descreve a situação do fiel: não sabe o que pedir. Não é ignorância culpável: é a condição da criatura que ainda não vê a plenitude. «O Espírito vem em auxílio da nossa fraqueza, pois não sabemos pedir o que nos convém, mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis» (Rom 8,26). O mesmo Espírito que geme com a criação (v.22) geme agora dentro do fiel, articulando o que a linguagem humana não consegue dizer. E a garantia é dupla: o Espírito intercede, e Deus escuta essa intercessionamento: «O que sonda os corações sabe o que o Espírito quer, porque é segundo Deus que o Espírito intercede pelos santos» (v.27). A oração mais profunda não é a que sabemos formular: é a que o Espírito formula em nós, nos silêncios, nos gemidos, nas situações onde as palavras faltam. Deus não precisa de palavras elaboradas: sonda os corações.
III. O evangelho: Mt 13,24-43
Jesus conta três parábolas. Na primeira, um homem semeou boa semente no seu campo, mas um inimigo semeou joio por cima, de noite. Os servos perguntam se arrancam o joio. A resposta é inesperada: «Não. Para não acontecer que, ao arrancar o joio, arranqueis também o trigo. Deixai crescer ambos juntos até à ceifa» (Mt 13,29-30). A separação virá, mas não agora: na ceifa, os ceifeiros recolherão primeiro o joio para o queimar, e o trigo para o celeiro. A explicação (vv.36-43) identifica o campo com o mundo, o semeador com o Filho do Homem, a boa semente com os filhos do Reino, o joio com os filhos do Maligno, a ceifa com o fim do mundo. O joio não é tolerado por indiferença moral: é tolerado pela mesma clemência de Sb 12, que dá tempo ao arrependimento. Na segunda parábola, o grão de mostarda, o menor dos grãos, cresce e torna-se o maior dos arbustos, onde as aves do céu vêm fazer ninho. Na terceira, o fermento escondido na farinha levedou toda a massa. As duas parábolas descrevem o crescimento oculto do Reino: não pela força, mas pela transformação interior, discreta e irresistível.
IV. Maria e a paciência do fermento
Sb 12 descreve um Deus que deixa tempo ao pecador para se converter. Em Maria, essa clemência encontra a sua resposta mais plena: ela que nunca precisou de conversão é a que mais compreendeu a necessidade da misericórdia para os outros. Em Caná, quando o vinho faltou, não julgou os anfitriões pela sua imprevidência: intercedeu. Como o Espírito de Rom 8,26 que geme por nós com o que não sabemos pedir, Maria intercede com o que não sabemos pedir. A tradição a chama «advogada dos pecadores»: não porque conheça melhor o que nos falta, mas porque o Espírito que orou nela na Anunciação continua a orar nela pela Igreja. Mt 13 fala do fermento escondido que levedou toda a massa. A presença de Maria na Igreja primitiva foi esse fermento: discreta, sem discurso público registado, mas transformadora. O Cenáculo onde o Espírito desceu tinha Maria no centro (Act 1,14). O Reino que cresce como grão de mostarda tem em Maria o modelo do crescimento sem ruído: «Guardava todas estas coisas e meditava-as no seu coração» (Lc 2,19). A paciência do joio e do trigo, a discrição do fermento, a grandeza final do grão de mostarda: tudo isso Maria viveu, à espera da ressurreição do Filho e da vinda do Espírito.
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