«In verbo tuo»: a pesca de Pedro, o fiat de Maria e a fé que age

In verbo autem tuo laxabo retia. […] Omnia enim vestra sunt, vos autem Christi, Christus autem Dei.
Lc 5,5 e 1Cor 3,22-23
A quinta-feira da Semana XXII do Tempo Comum propõe duas cenas de desapropriação. Paulo manda o sábio de Corinto fazer-se louco para se tornar sábio e fecha com uma cadeia de pertenças que arruma tudo no seu lugar, «tudo é vosso, mas vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus» (v.22-23). Lucas mostra um pescador profissional a lançar as redes em pleno dia, depois de uma noite inteira sem nada, apenas porque alguém lho pediu. As duas leituras perguntam a mesma coisa ao fiel: sobre que palavra estás a agir?
I. A primeira leitura: 1Cor 3,18-23
O apelo de Paulo é deliberadamente escandaloso: «se alguém entre vós se julga sábio aos olhos do mundo, faça-se louco, para se tornar sábio» (v.18). Não há aqui nenhum elogio da ignorância. A loucura que ele pede é a renúncia ao critério que mede a realidade pela sua conveniência e pelo seu proveito, e que em Corinto se tinha tornado o critério de tudo, inclusive da escolha do pregador preferido.
A conclusão do capítulo é uma das passagens mais libertadoras do epistolário paulino. Ele acabara de reduzir os ministros à sua justa medida, e agora, em vez de humilhar os coríntios, entrega-lhes o mundo inteiro: «Paulo, Apolo e Pedro, o mundo, a vida e a morte, as coisas presentes e as futuras. Tudo é vosso» (v.22). Aquilo que a facção procurava conquistar apoderando-se de um nome já lhes pertencia por inteiro. Só que a posse tem uma direção obrigatória, e é a segunda metade da frase que a fixa. Eles possuem tudo porque não se possuem a si mesmos. A liberdade cristã nasce exatamente aqui, na aceitação de não ser o termo final da própria vida.
II. O evangelho: Lc 5,1-11
Lucas constrói a cena com cuidado. Jesus ensina a multidão a partir do barco de Simão, isto é, a partir do instrumento de trabalho de um homem que naquele momento estava a lavar as redes depois de uma noite perdida. Só depois vem o pedido, «faz-te ao largo e lançai as redes para a pesca» (v.4), que contraria tudo o que Simão sabe do seu ofício, porque no lago de Genesaré pesca-se de noite e não à hora em que o sol está alto.
A resposta de Simão é a peça central do texto e vale a pena ouvi-la nas suas duas metades. Primeiro a objeção competente: «Mestre, andámos na faina toda a noite e não apanhámos nada» (v.5). Depois a rendição: «mas, já que o dizes, lançarei as redes». Ele não finge que a ordem lhe parece razoável. Age contra a sua própria experiência, e age por causa de uma palavra. É isso, e não a quantidade de peixe, que faz da cena uma cena de fé.
Segue-se a reação que revela o que estava em jogo. Diante da abundância, Simão não festeja, ajoelha-se e pede que Jesus se afaste, «que sou um homem pecador» (v.8). A proximidade do santo produz sempre esta consciência, e a resposta de Jesus não a nega nem a discute. Limita-se a acrescentar-lhe uma missão: «não temas. Daqui em diante, serás pescador de homens» (v.10). E eles deixaram tudo, incluindo a maior pesca das suas vidas, e seguiram-no (v.11).
III. Agir sobre a palavra antes de ver o resultado
Há uma diferença decisiva entre crer depois de ver e agir por causa de uma palavra. Simão não lançou as redes porque tivesse sido convencido, lançou-as porque conhecia quem falava. A verificação veio depois, e nunca teria vindo se ele tivesse esperado por ela para se mexer. Toda a vida cristã se joga nesta ordem, e a inversão dela é a forma mais educada de incredulidade, porque exige garantias antes de dar o passo e assim garante que o passo nunca se dá.
É também aqui que a loucura pedida por Paulo deixa de ser paradoxo retórico. Fazer-se louco é aceitar agir sobre um critério que a competência própria não valida. Não significa desprezar a competência. Simão continua a ser o pescador que sabe que aquela hora é a errada, e é precisamente por ser bom pescador que a sua obediência tem peso. A fé não anula a experiência. Aceita ser corrigida por uma palavra que vem de fora dela.
IV. Maria, a primeira que lançou as redes ao meio-dia
Lucas dirige apenas duas vezes, em cenas de vocação, o «não temas» que hoje ouvimos dirigido a Simão. A outra é em Nazaré: «não temas, Maria, porque encontraste graça diante de Deus» (Lc 1,30). O paralelo não é acidental num autor tão cuidadoso. O mesmo evangelista que narra a chamada dos primeiros discípulos já tinha narrado uma chamada anterior, e a estrutura das duas é a mesma. Uma palavra que contraria o possível, um temor honesto, uma missão.
Maria também apresenta a sua objeção competente. «Como será isso, se eu não conheço homem?» (Lc 1,34) é o equivalente exato do «andámos na faina toda a noite e não apanhámos nada». Não é dúvida sobre Deus, é constatação sobre a realidade. E, tal como Simão, ela passa da constatação à entrega sem receber explicação nenhuma pelo meio: «faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1,38). A fórmula é literalmente a mesma que a de Pedro. Age em virtude de uma palavra, antes de qualquer resultado visível.
E o resto da vida dela confirmou que essa foi a única garantia que recebeu. O Concílio recorda que Maria avançou na peregrinação da fé e conservou fielmente a união com o Filho até à Cruz (LG 58). Não houve, ao longo desse caminho, nenhum momento em que a evidência tenha substituído a confiança. Por isso Isabel a proclama feliz «porque acreditou» (Lc 1,45), e não porque tenha visto.
Quanto à cadeia de pertenças de Paulo, ela encontra em Maria a sua realização mais limpa. Nada reteve para si, nem sequer o Filho, que apresentou no Templo e entregou na Cruz. Foi por não se possuir que recebeu tudo, e é isso que a Igreja confessa ao reconhecer nela aquilo que ela mesma há de ser (LG 68).
A quinta-feira da Semana XXII deixa portanto uma pergunta muito concreta. Não é se acreditamos que Deus pode agir. É se já lançámos alguma rede em pleno dia, contra o que a nossa experiência aconselhava, só porque alguém em quem confiamos o pediu.
Pós-Graduação em mariologia
Quer aprofundar a sua formação em Mariologia? Conheça a Pós-Graduação em Mariologia da Locus Mariologicus – uma formação académica que une rigor teológico, vida espiritual e tradição viva da Igreja.
Responses