Maria e a dignidade da mulher: a mulher nova ao lado do homem novo

Por Prof. Dr. Daniel C. Afonso · Atualizado em
A relação entre Maria e a condição feminina é um dos temas mais discutidos na Mariologia contemporânea. A exortação apostólica Marialis Cultus (Paulo VI, 1974) reconhece que existe um “fosso entre certos conteúdos do culto mariano e as atuais concepções antropológicas” (MC 34), pedindo uma leitura renovada da figura de Maria que respeite a sua autenticidade bíblica e responda às interrogações da mulher contemporânea.
A imagem de Maria na história
Nos primeiros séculos, Maria era modelo do fiel, homem ou mulher, e não apenas da mulher. Com o desenvolvimento da devoção mariana medieval, foi-se acentuando uma imagem de Maria centrada na maternidade, na intercessão e em virtudes como a docilidade e a paciência, virtudes que a cultura patriarcal tendia a associar exclusivamente à mulher. Esta evolução comportou ambiguidades: Maria foi proposta como modelo de silêncio e passividade, o que o feminismo criticou como função ideológica de uma sociedade masculinista. A Marialis Cultus assume explicitamente a necessidade de uma “profunda revisão crítica” deste modelo (MC 34).
A Maria bíblica: ativa, livre e comprometida
A leitura bíblica renovada apresenta uma Maria radicalmente diferente da imagem devocional passiva. O Magnificat é o cântico da “primeira revolucionária da ordem nova”, que proclama os direitos de Deus sobre os pobres e oprimidos. A Visitação é o primeiro ato missionário: Maria leva Cristo ao encontro de Isabel com iniciativa e serviço concreto. No Calvário Maria está “de pé”, não apenas sofrendo, mas comprometida com a missão salvífica do Filho. O Concílio Vaticano II afirma que “também a Virgem avançou na peregrinação da fé” (LG 58): a fé de Maria não é segurança estática, mas risco e crescimento.
Modelo de todo o fiel, não apenas da mulher
A Marialis Cultus é decisiva: Maria é “o modelo acabado do discípulo do Senhor: artesão da cidade terrena e temporal, mas peregrino solícito para a celeste e eterna. Promotor da justiça que liberta o oprimido e da caridade que socorre o necessitado, mas sobretudo testemunha operosa do amor que edifica Cristo nos corações” (MC 37). Este modelo é proposto a todos os fiéis, sem distinção de sexo. As virtudes de Maria (fé, obediência, esperança, caridade, serviço) não são propriedades femininas, mas propriedades do discipulado cristão.
A mulher nova ao lado do homem novo
O horizonte definitivo é escatológico: Maria é “a mulher nova” ao lado de “Cristo, o Homem novo, em cujo mistério apenas encontra verdadeira luz o mistério do homem”, e está nele como penhor e garantia de que numa pura criatura, em Maria, já se realizou o projeto de Deus, em Cristo, para a salvação do homem inteiro (MC 57). A glória de Maria não diminui, mas exalta toda a humanidade: “é da nossa estirpe, verdadeira filha de Eva, embora isenta da culpa desta mãe, e verdadeira nossa irmã, que partilhou plenamente, mulher humilde e pobre, a nossa condição” (MC 56).
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