A maternidade espiritual universal de Maria (1987): o testemunho demoníaco segundo o padre giovanni bamonte
A doutrina da maternidade espiritual de Maria constitui um dos capítulos mais desenvolvidos e ao mesmo tempo mais disputados da mariologia dogmática. Não se trata de uma metáfora piadosa nem de uma devoção periférica: trata-se de uma afirmação teológica de peso ontológico que tem o seu fundamento nas palavras de Cristo crucificado, na reflexão patrística sobre Maria como nova Eva e no magistério pontifício contemporâneo.
A sua confirmação mais invulgar provém de uma fonte que nenhum tratado mariológico académico convocaria por iniciativa própria: os registos de exorcismos documentados pelo sacerdote italiano Giovanni Bamonte, nos quais entidades demoníacas foram constrangidas a revelar, contra a sua própria vontade, a realidade e o alcance da maternidade espiritual de Maria sobre cada ser humano.

I. A maternidade espiritual de Maria: fundamento bíblico e teológico
O fundamento escriturístico da maternidade espiritual de Maria situa-se no episódio do Calvário narrado por João 19,26-27: «Vendo Jesus a sua mãe e, perto dela, o discípulo que ele amava, disse à sua mãe: “Mulher, eis o teu filho.” Depois disse ao discípulo: “Eis a tua mãe.”» A tradição exegética, de Orígenes a João Paulo II, interpreta esta passagem não como uma disposição privada de ordem familiar, mas como um acto de fundação teológica: o discípulo amado recebe a mãe em representação de toda a humanidade redimida. Maria, por sua vez, adquire neste momento a sua maternidade espiritual universal, estendida a todos os que pertencem ao Filho.
A Mariologia patrística identificou precocemente o nexo entre a maternidade divina e a maternidade espiritual. Ireneu de Lyon, ao formular a antítese Eva-Maria, já implica que a obediência de Maria que gerou o Salvador é continuada numa maternidade de ordem espiritual: assim como Eva, sendo mãe da humanidade carnal, se tornou causa de morte pela desobediência, Maria, sendo mãe do Salvador, torna-se causa de vida pelo seu consentimento. O que a teoria da recirculação afirma a nível histórico-salvífico é o que a doutrina da maternidade espiritual de Maria afirma a nível existencial: cada pessoa humana é objeto do mesmo cuidado materno que Maria exerceu sobre o seu Filho.
II. A maternidade espiritual na cruz: a expansão do vínculo materno
A tradição teológica foi identificando progressivamente um momento preciso em que a maternidade espiritual de Maria atinge a sua plena extensão: o instante da morte de Cristo na Cruz. Na primeira fase da vida de Jesus, a maternidade de Maria, sendo já a maternidade de quem concebera o Salvador do mundo, estava concretamente centrada sobre a pessoa histórica do Filho. Na Cruz, no momento em que Jesus abandona o espírito ao Pai e a sua missão histórica se consuma, a maternidade de Maria não se extingue: dilata-se. O vínculo materno que estava focalizado em Jesus expande-se para abranger toda a humanidade que Jesus recapitulou em si.
Este dado teológico tem uma formulação clássica na doutrina da Corredenção, que a Mariologia propõe com diferentes níveis de desenvolvimento. Mas tem também uma expressão mais simples e profunda na constatação de que a maternidade de Maria para com cada ser humano não é uma extensão analógica da sua maternidade divina: é a sua consumação. O filho morto a quem ela choraria debaixo da Cruz é o mesmo que entregou ao mundo a maternidade que havia sido toda sua. A maternidade espiritual de Maria é, neste sentido, o legado do Calvário.
III. O testemunho demoníaco de padre giovanni bamonte sobre a maternidade de Maria
O sacerdote italiano Giovanni Bamonte, exorcista com longa experiência pastoral documentada, registou ao longo do seu ministério um conjunto de declarações extorquidas a entidades demoníacas nos contextos de exorcismo. Entre as mais significativas para a Mariologia encontram-se as que tocam directamente à maternidade espiritual de Maria. Uma delas, obtida durante uma sessão de exorcismo quando o exorcista invocava Maria, formulou a oposição ontológica entre a presença materna de Maria e a acção demoníaca com uma precisão que os próprios tratados teológicos raramente atingem: «Ela se chama rainha e mãe. Isso nos arruinou. A humanidade renasceu naquele ventre dela. Mas a humanidade não sabe».
A declaração tem três momentos teológicos distintos: a afirmação do título de Rainha e Mãe como título real, não apenas honorífico, a confissão do dano que esta realidade causa à operação do mal, e a constatação paradoxal de que a humanidade permanece ignorante do que se cumpriu em Maria.
Noutro registo das mesmas sessões, o demónio foi constrangido a revelar a proximidade de Maria em relação a cada ser humano com uma linguagem de ódio que é simultaneamente uma confissão de impotência: «Vocês pensam que ela está lá em cima, mas ela não está lá em cima. Ela está perto de vocês. E quando vocês morrem, ela está lá». Este testemunho invertido confirma, de forma que o adversário não pode falsificar por motivação alguma, a doutrina da presença maternal de Maria junto da alma de cada fiel ao longo da vida e no momento da morte, que a tradição pastoral da Igreja expressa na oração da Ave Maria: «agora e na hora da nossa morte».
IV. O manto de Maria como símbolo de destruição para o demónio
Os registos de exorcismos documentados por Bamonte incluem ainda um testemunho sobre o poder da intercessão de Maria formulado na linguagem corporal e simbólica do toque materno: «As suas mãos tão doces, tão frescas, são incandescentes para nós. Sempre que ela toca um de vocês, destrói um de nós». E sobre o manto branco e azul que a iconografia mariana associa à protecção de Maria: «Esse manto branco e azul. Se você só disser “Ave”, ela corre. Esse é a minha ruína».
A densidade teológica destas declarações supera o que a sua origem poderia sugerir. O toque de Maria como destruição do adversário remete para Génesis 3,15 e a inimizade radical entre a mulher e a serpente. O manto como símbolo de protecção remete para a iconografia da Madonna della Misericordia, na qual Maria acolhe sob o seu manto todos os que lhe recorrem. A simples invocação «Ave» como gatilho da sua presença remete para a teologia da intercessão que o Concílio Vaticano II formulou no capítulo VIII do Lumen Gentium.
A declaração sobre o Natal de Maria obtida nas mesmas sessões tem uma beleza teológica que ultrapassa o registo demonológico: «Preparou lá de cima. A bela, limpa, clara com o orvalho, a esplêndida como a luz que passa pela água. Quando ela nasceu, o mundo parou por um momento. Toda a criação parou para olhar para ela. Eu sabia quem ela era e não podia fazer nada. Não podia tocá-la. Ela era pura, pura».
Esta descrição involuntária da Natividade de Maria como evento cósmico encontra paralelo em São Bernardo de Claraval e na tradição contemplativa que lê a vinda de Maria ao mundo como aurora da salvação. A maternidade espiritual de Maria começa, na lógica desta testemunha involuntária, antes da história: na pré-eleição eterna de Deus que a preparou como mãe do Salvador e, nele, mãe de toda a humanidade redimida.
V. O legado teológico da maternidade espiritual de Maria
A doutrina da maternidade espiritual de Maria recebeu formulação magisterial progressivamente consolidada, de Leão XIII a João Paulo II. A encíclica Redemptoris Mater (1987) dedica-lhe uma reflexão desenvolvida, situando a maternidade espiritual na lógica da mediação maternal de Maria, que é distinta da mediação única de Cristo mas subordinada a ela e dela dependente em todo o seu exercício. O magistério afirma que Maria «com amor maternal coopera para o nascimento e educação» dos fiéis, tornando a sua maternidade espiritual operativa não apenas no momento da morte mas ao longo de toda a existência cristã.
O testemunho extorquido por Giovanni Bamonte não substitui nem completa este magistério. Confirma-o, porém, de uma forma que nenhum argumento racional poderia reproduzir: com a voz do adversário que reconhece, com ódio e consternação, aquilo que a fé professa com amor e esperança. A declaração «se você só disser Ave ela corre» é a tradução demonológica exacta do que a liturgia e a oração cristã afirmam sobre a prontidão da intercessão de Maria. Cf. Redemptoris Mater (João Paulo II, 1987) e Lumen Gentium, n. 61. O estudo aprofundado da maternidade espiritual de Maria integra o programa da pós-graduação em Mariologia da Locus Mariologicus.
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