Não vim abolir, mas cumprir: sir 15, 1Cor 2 e Jesus e a lei em Mt 5
Non veni solvere legem aut prophetas: non veni solvere, sed adimplere.
Mt 5,17
O sexto domingo do Tempo Comum do Ano A, último domingo antes da Quaresma, articula três textos em torno da relação entre liberdade humana, sabedoria divina e o cumprimento da Lei. Sir 15,15-20 proclama que a guarda dos mandamentos está ao alcance de quem quer: Deus colocou diante de cada pessoa fogo e água, vida e morte, e cada um escolhe livremente. 1Cor 2,6-10 apresenta a sabedoria oculta que Deus decretou para a glória dos seus eleitos, e que o Espírito revela. Mt 5,17-37 apresenta Jesus a afirmar que não veio abolir a Lei mas cumpri-la, e a aprofundá-la radicalmente: da proibição do homicídio ao controle da cólera, da proibição do adultério ao controle do desejo, do divórcio à integridade da palavra. Os três textos descrevem a mesma exigência: a lei não é obstáculo à liberdade, é o caminho para a sua plena realização.
I. A primeira leitura: Sir 15,15-20O Eclesiástico afirma contra qualquer fatalismo ou determinismo: «Se quiseres, guardarás os mandamentos. E ser fiel é uma escolha que depende da tua vontade» (Sir 15,15). Deus colocou diante de cada pessoa fogo e água: «Estende a mão para aquele que quiseres» (v.16). Diante de cada pessoa estão a vida e a morte, e qualquer das duas que ela escolher, essa lhe será dada (v.17). O Eclesiástico articula a liberdade humana de modo radical: a obediência a Deus não é uma necessidade natural mas uma escolha. Isto não significa que a graça de Deus é desnecessária: significa que a graça não anula a liberdade mas a potencia. Deus não quer escravos mas filhos que escolhem livremente. E os seus olhos vêem as obras dos homens e conhecem todos os seus actos (v.19): a liberdade é real, e as suas consequências também.
II. A segunda leitura: 1Cor 2,6-10Paulo distingue dois tipos de sabedoria: a dos poderosos deste século, que está a ser reduzida a nada, e a sabedoria de Deus, misteriosa e oculta (1Cor 2,6-7). Esta sabedoria foi decretada por Deus antes dos séculos para a nossa glória (v.7b). Os dominadores deste século não a conheceram: se a tivessem conhecido, não teriam crucificado o Senhor da glória (v.8). E cita Is 64,3: «O que o olho não viu, nem o ouvido ouviu, nem o coração humano imaginou, isso é o que Deus preparou para os que o amam» (v.9). Esta realidade foi revelada pelo Espírito (v.10): a sabedoria oculta não se atinge pelo esforço intelectual, mas pela abertura ao Espírito que sonda as profundezas de Deus. Sir 15 descreve a liberdade humana que escolhe os mandamentos. 1Cor 2 descreve o que Deus preparou para os que o amam, além do que qualquer lei poderia exigir: uma realidade que o olho não viu nem o ouvido ouviu.
III. O evangelho: Mt 5,17-37Jesus declara no Sermão da Montanha: «Não penseis que vim abolir a Lei ou os profetas. Não vim abolir, mas cumprir» (Mt 5,17). A novidade de Jesus não é ruptura mas plenitude. A letra da Lei proibia o homicídio. Jesus vai à raiz: «quem se irar com o seu irmão será réu de julgamento» (v.22). A violência começa no coração, antes de chegar à mão. A letra proibia o adultério. Jesus vai à raiz: «todo o que olha para uma mulher com desejo, já adulterou com ela no seu coração» (v.28). A fidelidade começa no olhar, antes de chegar ao acto. Sobre o divórcio, Jesus reconduz à intenção original do Criador: o que Deus uniu, o homem não separe. Sobre os juramentos, a radicalidade é ainda maior: não jurar de modo nenhum. «Que o vosso falar seja: sim, sim. Não, não. O que passa disto vem do Maligno» (v.37). Jesus não torna a Lei mais pesada: torna-a mais interior. O fariseu cumpria a letra. O discípulo de Jesus é chamado a cumprir o espírito, a partir do coração transformado.
IV. Maria e o cumprimento da leiSir 15 afirma que guardar os mandamentos é escolha livre: Deus colocou diante do homem o fogo e a água, a vida e a morte, e cada um estende a mão para o que quiser. Maria é a criatura que estendeu a mão para a vida com perfeita liberdade: o fiat de Lc 1,38 não é resignação mas adesão total da vontade humana à vontade divina. Sir 15 diz que é possível alinhar a liberdade com Deus: Maria demonstrou que é possível fazê-lo sem reserva. 1Cor 2 diz que «o que olho não viu, nem ouvido ouviu, nem coração de homem imaginou, isso é o que Deus preparou para os que o amam» (v.9). Maria foi a primeira criatura a receber, no seu seio, o que nenhum coração humano havia ainda concebido: o Verbo de Deus feito carne. O inimaginável tornou-se realidade nela antes de se tornar realidade para o mundo. E Mt 5,17 diz que Jesus não veio abolir mas cumprir. Maria é o lugar onde a promessa de Is 7,14, «eis que a virgem conceberá», encontrou o seu cumprimento. Ela não aboliu a Lei de Israel: viveu-a de modo tão interior e tão pleno que se tornou, ela própria, o sinal da coisa nova que Deus prometera. O VI Domingo do Tempo Comum convida o discípulo a este mesmo percurso: da letra ao coração, da observância exterior à adesão livre, do cumprimento mínimo à plenitude do amor.
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