«Nisi granum frumenti cadens mortuum fuerit»: Inácio, o martírio e Maria

Nisi granum frumenti cadens in terram mortuum fuerit, ipsum solum manet: si autem mortuum fuerit, multum fructum affert.
Jo 12,24
A memória de Santo Inácio de Antioquia (17 de Outubro, mártir, †107) une Fl 3, onde Paulo descreve os «inimigos da cruz de Cristo» cujo fim é a perdição e os cristãos cuja «cidadania está nos céus», a Jo 12, onde Jesus proclama a lei do grão de trigo: «se morrer, produz muito fruto». Inácio que escreveu às comunidades pedindo que não impedissem o seu martírio porque «é bom para mim morrer para Cristo» é a incarnação desta lei. Maria que aceitou a morte de Jesus como o grão de trigo necessário é o modelo da fé que acredita no fruto da morte.
I. A primeira leitura: fl 3,17-4,1
Paulo desenha dois retratos: os «inimigos da cruz de Cristo» cujo «Deus é o ventre, cuja glória é a vergonha» (v.18-19) e os discípulos cuja «cidadania está nos céus» e de quem aguardam o Salvador, o Senhor Jesus Cristo (v.20). O contraste não é entre bons e maus mas entre os que têm o horizonte na terra e os que têm o horizonte nos céus. Inácio que pediu às comunidades que não o privassem do martírio é o discípulo cuja cidadania é celeste: a morte terrena não o amedronta porque o seu «fim» não é a perdição mas a ressurreição.
«Esperamos, como salvador, o Senhor Jesus Cristo, que transformará o nosso corpo humilhado em conformidade com o seu corpo glorioso» (v.20-21): a cidadania celeste de Paulo inclui a esperança da ressurreição do corpo. Inácio que rogou ser «triturado pelos dentes das feras» sabia que o triturar do grão não é o fim mas o começo: o corpo triturado é a semente do corpo glorioso.
II. O evangelho: Jo 12,24-26
«Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo que cai na terra não morrer, fica só. Mas se morrer, produz muito fruto» (v.24): Jesus enuncia a lei fundamental do Reino. A morte não é o fim da fecundidade mas a sua condição. A lei do grão de trigo não é metáfora poética mas teologia: Jesus mesmo é o Grão que morre (Jo 12,33 identifica este discurso com a morte de Cruz) para produzir o fruto da salvação.
«Quem ama a sua vida perde-a. Mas quem «odeia» a sua vida neste mundo conservá-la-á para a vida eterna» (v.25): a lei do grão aplica-se ao discípulo. «Onde eu estiver, lá estará também o meu servidor» (v.26): o seguimento de Jesus inclui o seguimento até à morte. Inácio compreendeu este versículo de forma literal: queria estar onde Jesus estava, no centro do martírio que é o centro do Evangelho.
III. O grão que cai: Inácio e a lei do fruto
Fl 3 e Jo 12 descrevem a mesma lei do Reino de dois ângulos. Paulo: a cidadania celeste liberta do medo da morte porque o horizonte é a transformação do corpo glorioso. Jesus: a lei do grão ensina que a morte é a condição do fruto. Inácio viveu as duas realidades em simultâneo: era cidadão do céu que não temia a morte e era o grão que se entregava para produzir fruto.
A memória de Inácio de Antioquia é a memória de que a Igreja vive da lei do grão: cada mártir que morreu pelo Evangelho produziu fruto que persiste. As suas sete cartas, escritas no caminho para o martírio, são a prova de que o grão que caiu continua a produzir fruto dezanove séculos depois.
IV. Maria: o grão que aceitou a morte para o fruto
Maria compreendeu a lei do grão antes de todos. Quando aceitou ser a mãe do Filho de Deus, aceitou implicitamente a lei que Jesus enuncia em Jo 12,24: o filho que ela tinha concebido era o Grão que devia morrer. A espada de Simeão (Lc 2,35) anunciou desde o início que a maternidade de Maria era a aceitação da lei do grão, receber a vida sabendo que essa vida devia morrer para produzir fruto eterno.
Maria ao pé da Cruz é a imagem mais perfeita de Jo 12,24: viu o Grão cair na terra e morrer. A sua fé foi a fé de quem crê que o grão que morreu produzirá muito fruto, uma fé que a Ressurreição confirmou. A cidadania celeste de Fl 3,20 foi alcançada por Maria antes de todos os outros: o seu corpo foi transformado em conformidade com o corpo glorioso de Jesus (Assunção). O sábado da Semana XXIX convida a contemplar em Inácio e em Maria os dois modos de viver a lei do grão de trigo que cai na terra e morre.
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