Nisi videro: Tomé, Maria e a fé que toca as chagas

Dixit eis Thomas: Nisi videro in manibus eius fixuram clavorum, et mittam digitum meum in locum clavorum, et mittam manum meam in latus eius, non credam.
Jo 20,25
A Festa de São Tomé Apóstolo (3 de Julho) celebra um dos episódios mais humanos e mais teologicamente densos do ciclo pascal: a dúvida de Tomé, o aparecimento de Jesus especialmente para ele, e a confissão que resulta do encontro com as chagas, «Meu Senhor e meu Deus»! (Jo 20,28), a profissão de fé mais explícita de toda a literatura joânica. A tradição chamou a Tomé «Dídimo» (o gémeo) e fez dele o apóstolo da Índia. A devoção popular apelidou-o de «o incrédulo», mas a leitura atenta do texto de João mostra que Tomé não é um caso de incredulidade patológica, é um discípulo que pede a mesma experiência que os outros já tiveram.
«Oito dias depois» (Jo 20,26), o detalhe temporal é o dado mais perturbador da narrativa. Tomé ficou oito dias a duvidar. Oito dias durante os quais os outros discípulos lhe disseram «vimos o Senhor» e ele não acreditou. Oito dias de solidão espiritual numa comunidade em festa pascal. A misericórdia de Jesus que «veio, apesar das portas fechadas» (Jo 20,26), que voltou especialmente por causa de Tomé, revela o Deus que não abandona o que duvida mas vai ao encontro da dúvida com a experiência que ela pede. O Ressuscitado não exigiu de Tomé a fé que ele ainda não tinha: ofereceu-lhe o que precisava para ter a fé que os outros já tinham.
I. «Nisi videro»: a dúvida honesta
«Se não vir nas suas mãos o sinal dos cravos, e não meter o dedo no sinal dos cravos, e não meter a minha mão no seu lado, não acreditarei» (Jo 20,25), a condição de Tomé é tripla e escalada: ver, meter o dedo, meter a mão. A escalada sugere a intensidade da resistência, mas também a intensidade do desejo: Tomé não quer ser iludido, não quer acreditar num fantasma, não quer a consolo fácil de uma aparição que pode ser fruto da sugestão colectiva. Quer a evidência directa, física, indubitável.
A exegese moderna encontrou em Tomé uma figura simpática precisamente por esta honestidade da dúvida. O «agnóstico honesto» que não aceita a fé sem provas é uma figura que a modernidade valoriza, e Tomé parece confirmá-la. Mas a leitura joânica é mais nuançada: Jesus não repreende Tomé pela sua condição mas pela resistência após o encontro, «Porque me viste, acreditaste. Felizes os que não viram e creram» (Jo 20,29). A beatitude é para os que crêem sem a experiência directa das chagas. Tomé foi misericordiosamente tratado como excepção, mas a regra é a fé que não depende da visão directa.
«Felizes os que não viram e creram», esta é a beatitude que inaugura a era da Igreja, a era posterior às aparições do Ressuscitado. Os discípulos das gerações seguintes, incluindo todos os cristãos de todos os séculos, não terão a experiência de Tomé: não verão as chagas, não meterão o dedo. A sua fé será necessariamente mediada, pela Escritura, pela Tradição, pelos sacramentos, pelo testemunho da comunidade. Jesus declara «felizes» os que aceitam esta mediação sem exigir a experiência directa que Tomé exigiu.
Maria viveu esta beatitude avant la lettre: no Calvário, quando o Filho estava morto e não havia ainda aparição que confirmasse a fé, Maria manteve-se. No Sábado Santo, os «oito dias de Tomé» antes das aparições, Maria era a «feliz que não viu (o Ressuscitado) e creu». A fé de Maria no Sábado Santo é o modelo da «fé sem ver» que Jesus declara bem-aventurada: a fé que não tem ainda a experiência das chagas tocadas mas que confia na palavra do Deus que prometeu a Ressurreição.
II. As chagas do ressuscitado: a identidade que passa pela cruz
«Vê as minhas mãos. Chega o teu dedo aqui e vê as minhas mãos. Chega a tua mão e mete-a no meu lado. E não sejas incrédulo, mas fiel» (Jo 20,27), Jesus responde às condições de Tomé cumprindo-as exactamente: oferece as chagas, convida o toque, pede a fé resultante. As chagas do Ressuscitado são teologicamente cruciais: o Ressuscitado não é uma nova criação que apagou o Crucificado. É o mesmo Jesus que morreu na Cruz, com as marcas visíveis e tocáveis da Paixão. A Ressurreição não cancelou a Cruz: assumiu-a na glória.
A permanência das chagas no Ressuscitado é um dos elementos mais profundos da cristologia pascal. Agostinho de Hipona especulou sobre se os santos ressuscitados terão as marcas das suas feridas glorificadas, «como ornamentos de virtude». As chagas de Jesus no Ressuscitado são ao mesmo tempo a prova da identidade (o mesmo que morreu é o que vive) e a revelação da lógica da salvação (a glória passa pela Cruz, não a contorna). Tomé que tocou as chagas não tocou apenas prova de identidade: tocou a teologia da salvação em carne gloriosa.
«Meu Senhor e meu Deus»! (Jo 20,28), a confissão de Tomé é a mais explícita do Novo Testamento. Não «Tu és o Cristo» (Pedro em Mt 16,16) nem «verdadeiramente és Filho de Deus» (discípulos em Mt 14,33): mas «meu Senhor e meu Deus», a afirmação directa da divindade de Jesus com os dois títulos do Deus do Antigo Testamento (Kyrios e Theos, equivalentes de YHWH e Elohim). A dúvida de Tomé, quando resolvida, produziu a afirmação de fé mais alta dos Evangelhos. A dúvida honesta que chegou à experiência das chagas produziu a teologia mais alta, o que Paulo VI chamou «o fruto da cruz».
Maria foi a primeira a contemplar as chagas do Filho, não glorificadas no Ressuscitado, mas abertas no Calvário. A piedade medieval capturou esta contemplação na imagem da Pietà: Maria a segurar o corpo do Filho morto. As chagas que Tomé tocou no Ressuscitado, Maria as viu abertas no Calvário. E como Tomé saiu da experiência com «Meu Senhor e meu Deus», Maria saiu do Calvário, não com dúvida mas com a fé que sobreviveu à Cruz, a fé que o Sábado Santo não destruiu, a fé que reconheceu no Ressuscitado o mesmo Filho cujas chagas havia contemplado no Gólgota.
III. Maria no sábado Santo: a fé que Tomé não teve
A tradição litúrgica vê no Sábado Santo, o dia entre a morte e a Ressurreição, o momento em que apenas Maria manteve a fé. Os discípulos fecharam-se «por medo dos judeus» (Jo 20,19). Tomé estava ausente da primeira aparição e duvidou. Maria, não mencionada nas aparições do Ressuscitado em João, foi o único ser humano que, segundo a tradição, não precisou de uma aparição para crer: creu a partir do Calvário, a partir das chagas que viu abertas, a partir da promessa que o Filho havia feito e que ela guardava «no seu coração» (Lc 2,51).
A «beatitude» de Jo 20,29, «felizes os que não viram e creram», descreve precisamente a posição de Maria no Sábado Santo: não viu o Ressuscitado ainda, mas creu. A fé de Maria neste intervalo escuro não era ingenuidade nem negação do que havia visto no Calvário: era a confiança no Deus que «fez proezas» (Lc 1,49), que havia prometido que o reino do Filho «não teria fim» (Lc 1,33), que havia enviado anjos para anunciar o Nascimento e que sabia o que fazia com a Cruz.
O contraste entre a «dúvida de Tomé» e a «fé de Maria no Sábado Santo» não é crítica de Tomé, Jesus tratou-o com misericórdia e ele chegou à confissão mais alta. É sublinhar que Maria representa o ideal da fé que «não vê e crê», a fé que não precisa das chagas tocadas para permanecer, a fé que a beatitude de Jo 20,29 declara bem-aventurada. Os cristãos de todos os séculos que acreditam sem ter tocado as chagas estão mais próximos de Maria do que de Tomé, e Maria é o modelo que os acompanha nesta fé «sem ver».
«Nisi videro», «se não vir», é a condição humana diante do mistério: a exigência de evidência que o ser humano moderno partilha com Tomé. A resposta de Jesus a esta condição é dupla: a misericórdia que vai ao encontro da dúvida honesta (como foi ao encontro de Tomé), e a beatitude que declara felizes os que crêem sem a experiência directa. Maria é o modelo desta segunda resposta, a fé que permaneceu no Sábado Santo sem aparição, sem chagas tocadas, sem prova empírica, sustentada apenas pela palavra do Filho e pela graça do Espírito que habitou nela desde a Anunciação.
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