Non veni solvere sed adimplere: Maria e o cumprimento perfeito da lei

Non Veni Solvere sed adimplere: Maria e o cumprimento perfeito da lei
Nolite putare quoniam veni solvere legem aut prophetas: non veni solvere sed adimplere.
Mt 5,17

Non Veni Solvere: Mt 5,17-19 é um dos textos mais debatidos do Sermão da Montanha: «Não penseis que vim abolir a Lei ou os Profetas. Não vim abolir, mas cumprir. Em verdade vos digo: antes que o céu e a terra passem, um só iota ou um único traço não passará da Lei, sem que tudo se cumpra». A declaração de Jesus coloca-se deliberadamente em continuidade com a tradição de Israel: ele não é um «destruidor» da Lei, mas o seu «cumpridor» (plêrôsai). Esta posição tem implicações mariológicas directas: Maria, que viveu toda a sua vida como filha fiel de Israel sob a Lei mosaica, é a criatura que mais perfeita e integralmente «cumpriu» a Lei, não como observância legalista, mas como amor ao Deus que a deu.

I. «Adimplere»: o cumprimento como plenitude

O Non Veni Solvere de Cristo encontra em Maria a sua mais clara aplicação.

O verbo grego plêroô (cumprir, completar, encher de plenitude) tem um significado mais rico do que o português «cumprir» sugere. Não é apenas «obedecer» ou «executar», é «levar à sua plenitude», «realizar o potencial máximo de». Jesus não «cumpre» a Lei no sentido de a obedecer pontilhosamente, «cumpre-a» no sentido de a revelar na sua intenção mais profunda, de a libertar das interpretações que a tinham reduzido a um código de regras, de a elevar ao nível do amor perfeito que era o seu alvo original. A Lei que proibia o homicídio é «cumprida» quando o coração é libertado da ira (Mt 5,21-22). A Lei que regulava o juramento é «cumprida» quando a palavra humana é absolutamente fidedigna (Mt 5,33-37).

Esta teologia do «cumprimento», em que o superior não abole o inferior mas o eleva à sua própria plenitude, é estruturalmente análoga à relação entre a humanidade de Maria e a graça divina. Maria não foi santificada «abolindo» a sua humanidade ou a sua pertença a Israel: foi santificada «cumprindo» a sua humanidade, elevando-a ao grau máximo de disponibilidade a Deus. O «fiat» de Maria não foi a abolição da sua vontade humana, foi o seu «cumprimento» mais pleno: a vontade humana que, em vez de se fechar sobre si mesma, se abre completamente ao querer divino e, nessa abertura, encontra a sua plenitude.

A exegese do versículo Mt 5,18, «Antes que o céu e a terra passem, um só iota ou um único traço não passará da Lei, sem que tudo se cumpra», tem sido debatida entre os exegetas: refere-se ao iota e ao traço da letra da Lei mosaica, que seria definitivamente válida até ao fim dos tempos? Ou refere-se ao «cumprimento» de toda a Lei em Jesus, que torna obsoleta a observância literal em favor da observância do amor? A tradição tem optado por uma leitura que integra as duas: a «intenção» da Lei é absolutamente permanente (o amor a Deus e ao próximo), mas a sua «forma» (os preceitos rituais e cerimoniais) encontrou o seu «cumprimento» em Cristo e não precisa de ser observada na sua literalidade pelos cristãos.

A posição de Mt 5,17-19 no contexto do Sermão da Montanha é significativa: vem depois das Bem-aventuranças e da imagem do sal e da luz, e antes das seis «antíteses» (Mt 5,21-48: «Ouvistes que foi dito… Mas eu digo-vos»). Esta posição de «charneira» indica que o «cumprimento» da Lei por Jesus não é uma posição teórica abstracta, é o fundamento das antíteses que se seguem, em que Jesus radicaliza os preceitos da Lei levando-os ao nível do coração e da intenção interior.

II. Maria, filha fiel de Israel sob a lei

O Non Veni Solvere de Cristo encontra em Maria a sua mais clara aplicação.

A Maria histórica viveu toda a sua vida dentro do quadro da Lei mosaica. O Evangelho de Lucas documenta este facto em vários pontos: a Circuncisão de Jesus ao oitavo dia (Lc 2,21: «segundo a Lei»), a Apresentação no Templo e a purificação de Maria quarenta dias após o parto (Lc 2,22-24: «segundo a Lei de Moisés»), a peregrinação anual a Jerusalém para a Páscoa (Lc 2,41: «segundo o costume da festa»). Maria não «aboliu» a Lei, viveu-a fielmente, como a filha de Israel que era.

Mas a fidelidade de Maria à Lei não era legalismo, era amor. A distinção entre «legalismo» (observar a Lei por medo ou por mero conformismo social) e «amor» (observar a Lei porque a Lei exprime a vontade de Deus a quem se ama) é o coração da espiritualidade bíblica. Os Profetas (Jeremias, Ezequiel) anunciaram uma «nova aliança» em que a Lei seria escrita «nos corações» (Jr 31,33) e não apenas nas tábuas de pedra, uma observância interior, motivada pelo amor, não pelo medo. Maria realizou este ideal profético: a sua fidelidade à Lei era uma fidelidade do coração, não da letra.

A doutrina da Imaculada Conceição definida dogmaticamente por Pio IX em 1854, tem uma dimensão que ilumina a relação de Maria com a Lei: Maria foi preservada do pecado original, o que significa que a sua relação com Deus não estava deformada pela inclinação ao mal (concupiscentia) que o pecado introduziu. Neste sentido, Maria «cumpria» a Lei sem o conflito interior que Paulo descreve em Rm 7,14-23 («o bem que quero fazer, não o faço. O mal que não quero, esse é que faço»). Para Maria, cumprir a Lei era a expressão natural de um coração que amava a Deus sem reservas, não uma batalha contra as próprias inclinações.

Este cumprimento perfeito da Lei por Maria não é uma fonte de orgulho ou de auto-suficiência, é um dom de Deus, a graça que a preparou para ser a Mãe do Messias. A Igreja entende a Imaculada Conceição não como um mérito de Maria, mas como uma graça anticipada dos méritos de Cristo: Maria foi salva pelo mesmo Cristo que ela iria gerar, mas «antes» da sua vinda histórica, pelo efeito antecipado da Redenção. Neste sentido, a «perfeição» da obediência de Maria à Lei não é sua, é de Cristo que a habitava e a preparava desde o primeiro instante da sua existência.

III. Os «Iota» da fidelidade: a fidelidade nos pequenos gestos

O Non Veni Solvere de Cristo encontra em Maria a sua mais clara aplicação.

A referência ao «iota» (iôta a menor letra do alfabeto grego, correspondente ao «yod» hebraico, uma pequena vírgula no texto) é uma imagem da fidelidade nos pormenores. Jesus valoriza a fidelidade «nos mínimos», o que está em contraste com a tendência humana de preocupar-se apenas com os grandes princípios enquanto negligência os pequenos detalhes. A tradição espiritual (em particular a espiritualidade inaciana e a «pequena via» de Teresa de Lisieux) desenvolveu esta intuição: a santidade manifesta-se primariamente nos pequenos gestos quotidianos, não nos grandes actos heróicos.

Maria é o modelo desta fidelidade nos «iotas»: o que os Evangelhos registam da sua vida não são grandes discursos ou actos espectaculares, mas gestos quotidianos de fidelidade, a sua disponibilidade ao anjo (Lc 1,38), a sua pressa em servir Isabel (Lc 1,39), a sua «guarda» no coração das palavras que não compreendia completamente (Lc 2,19.51), o seu interceder discreto em Caná (Jo 2,3). Estes «iotas» de fidelidade são o tecido real da santidade mariana, mais do que qualquer visão ou privilégio extraordinário.

A espiritualidade dos «pequenos actos feitos com grande amor», que Teresa de Lisieux sistematizou como «caminho de infância espiritual», tem raízes no Mt 5,18 e no modelo de Maria. A grandeza espiritual não se mede pela espectacularidade dos actos, mas pela profundidade do amor com que os actos ordinários são realizados. Um «iota» de amor vale mais, na lógica do Evangelho, do que grandes gestos realizados sem amor. Maria que coseu, que cozinhou, que viveu a vida ordinária de Nazaré com a plenitude do amor é a confirmação viva desta lógica.


Maria, que não «aboliu» a Lei de Israel mas a «cumpriu» até ao último «iota» com a totalidade do seu amor, é o ícone da fidelidade que não se mede pelo espectacular mas pela profundidade do coração que ama o Deus que nos deu a Lei da vida.

Referências

  • Concílio Vaticano II, Lumen Gentium n. 56 (1964).
  • Pio IX, Ineffabilis Deus (1854): dogma da Imaculada Conceição.
  • U. Luz, Das Evangelium nach Matthäus vol. I (1985).
  • J. Meier, Law and History in Matthew’s Gospel (1976).

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