Nossa Senhora de Częstochowa: o ícone de Jasna Góra e a sua história

Nossa Senhora de Czestochowa

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Te in Patronam meam, meorumque Dominiorum Reginam hodie deligo.
«Hoje te escolho por minha Padroeira e Rainha dos meus domínios» (votos do rei João Casimiro, Lviv, 1656)

O santuário de Jasna Góra, em Częstochowa, é o santuário mariano nacional da Polônia (WITKOWSKA, [1989], p. 120). A imagem, pintada sobre madeira, mostra a Virgem com o Menino no braço esquerdo e a mão direita voltada para ele (PACH, [2010?], p. 287). Pertence ao tipo bizantino chamado Hodegetria (WITKOWSKA, [1989], p. 120), a «Guia» (PACH, [2010?], p. 288). O rosto de Maria tem duas cicatrizes paralelas na face direita e uma terceira que as atravessa, pintadas na restauração do século XV em memória dos golpes de 1430 (ZAŁĘCKI, 1976, p. 61-62). A história do santuário foi reconstruída por Jan Jerzy Tomziński, no verbete «Częstochowa» do Nuovo dizionario di mariologia (TOMZIŃSKI, 1986, p. 455-461), e por Marian Załęcki, na monografia Theology of a Marian shrine (ZAŁĘCKI, 1976).

A fundação e a chegada do ícone

Em 1382, o duque Ladislau de Opole fundou no monte de Jasna Góra, junto à cidade de Częstochowa, um mosteiro da Ordem de São Paulo Primeiro Eremita, os paulinos (WITKOWSKA, [1989], p. 120). O cronista Jan Długosz conta que o duque doou ao mosteiro a imagem quam in Russia causaliter absconditam reperierat, «que tinha achado por acaso escondida na Rutênia» (DŁUGOSZ apud ZAŁĘCKI, 1976, p. 56). Tomziński escreve que se admite 1382 como data de chegada (TOMZIŃSKI, 1986, p. 460). Nenhum documento da época registra o fato. A licença de construção de 1382 não menciona a imagem, e a data só aparece num texto de 1474 (ZAŁĘCKI, 1976, p. 56-58).

A tradição atribui a imagem a São Lucas. Długosz já dizia que se contava entre as que Beatus Lucas Evangelista sua manu depinxit, «o bem-aventurado evangelista Lucas pintou com a sua mão» (DŁUGOSZ apud ZAŁĘCKI, 1976, p. 57). O relato completo da lenda, que faz a imagem passar de Jerusalém a Constantinopla e daí à Rutênia, está num texto de 1474, e Załęcki mostra que ele transpõe para Częstochowa a lenda da Hodegetria de Constantinopla (ZAŁĘCKI, 1976, p. 83-84).

O saque de 1430

No dia de Páscoa de 1430, o mosteiro foi assaltado. Os assaltantes arrancaram as joias da imagem, golpearam o rosto da Virgem e quebraram a tábua. Durante muito tempo se disse que tinham sido hereges boêmios, e o livro dos milagres de Jasna Góra fala de «hussitas» (ZAŁĘCKI, 1976, p. 63-64). Długosz conta outra coisa: nobiles Regni Poloniae, qui patrimonia sua nimis prodige effunderant et aere alieno tenebantur, «nobres do reino da Polônia, que tinham dissipado o seu patrimônio e estavam endividados», contrataram salteadores ex Bohemia, Moravia et Silesia, «da Boêmia, da Morávia e da Silésia», e golpearam o rosto da imagem ut non Poloni, sed Bohemi, ex operibus tam crudelibus et nefariis iudicarentur, «para que, por obras tão cruéis e nefandas, se julgasse que eram boêmios e não poloneses». Apurada a verdade, acrescenta, foram os nobres poloneses os castigados (DŁUGOSZ apud ZAŁĘCKI, 1976, p. 57-58).

Uma imagem antiga, pintada de novo

A origem do ícone continua em discussão. O próprio Tomziński reconhece que a origem e a data da pintura continuano ad essere oggetto di discussione, «continuam a ser objeto de discussão» (TOMZIŃSKI, 1986, p. 460). O especialista Rudolf Kozłowski, que estudou a imagem com métodos técnicos entre 1948 e 1952, defendeu um original bizantino dos séculos VI a IX, pintado à encáustica. Outros historiadores da arte propuseram uma obra italiana ou boêmia, datada entre o fim do século XII e o século XIV (ZAŁĘCKI, 1976, p. 85-93). O que se sabe com mais segurança é que, depois do saque, a imagem foi repintada em Cracóvia, a têmpera, sobre as tábuas antigas, entre 1430 e 1434 (WITKOWSKA, [1989], p. 120). A pintura que hoje se vê é, portanto, obra do século XV, e só as tábuas são do original (ZAŁĘCKI, 1976, p. 62). Jan Pach, do Instituto Mariano de Jasna Góra, resume: Allo stato attuale delle ricerche non si può stabilire né l’autore del quadro, né il luogo e il tempo della sua realizzazione, «no estado atual das pesquisas não se pode determinar nem o autor do quadro, nem o lugar e o tempo da sua realização» (PACH, [2010?], p. 288).

O cerco de 1655 e os votos de 1656

No fim de 1655, durante a invasão sueca, Jasna Góra resistiu ao cerco sob a direção do prior Augustyn Kordecki, e os suecos fugiram em 26 de dezembro, quadragésimo dia do cerco (ZAŁĘCKI, 1976, p. 123). Pio XII recordou o fato três séculos depois: Clarus Mons Czestochoviensis libertatis vestrae postremum fuit propugnaculum, «Jasna Góra foi o último baluarte da vossa liberdade» (PIO XII, 1956, p. 74).

Em 1º de abril de 1656, na catedral de Lviv, o rei João Casimiro escolheu Maria por Padroeira e Rainha e entregou o reino à sua proteção: Ego Ioannes Casimirus, Tui Filii, Regis Regum, ac Domini mei, Tuaque miseratione Rex, Sanctissimis Tuis advolutus pedibus, Te in Patronam meam, meorumque Dominiorum Reginam hodie deligo, «Eu, João Casimiro, rei pela misericórdia do teu Filho, Rei dos reis e meu Senhor, e pela tua, prostrado aos teus pés santíssimos, hoje te escolho por minha Padroeira e Rainha dos meus domínios». O rei prometia pedir à Santa Sé uma festa anual e, uma vez restabelecida a paz, procurar com todos os Estados do reino os meios para que o povo fosse libertado a gravaminibus iniustis, et oppressionibus, «dos encargos injustos e das opressões» (JOÃO CASIMIRO apud ZAŁĘCKI, 1976, p. 127-128). A segunda promessa tinha alcance social. No século XX, Pio XI instituiu a festa de Maria Rainha da Polônia, a ser celebrada todos os anos em 3 de maio, como lembra Pio XII na mesma carta (PIO XII, 1956, p. 74).

A coroação e a festa

Em 8 de setembro de 1717, o bispo Krzysztof Szembek coroou a imagem com coroas enviadas por Clemente XI (ZAŁĘCKI, 1976, p. 130). Roubadas em 1909, foram substituídas em 22 de maio de 1910 por coroas oferecidas por Pio X (ZAŁĘCKI, 1976, p. 66). A festa de Nossa Senhora de Częstochowa é celebrada em 26 de agosto. A Sagrada Congregação dos Ritos a concedeu em 1904 só à diocese de Włocławek, na quarta-feira depois de São Bartolomeu, concedeu ofício e missa próprios em 1931, cujos textos Pio XI aprovou em 1935, e, em 1956, a elevou a festa de primeira classe em toda a Polônia (ZAŁĘCKI, 1976, p. 165-166). A data de 26 de agosto vigora desde 1931 (WITKOWSKA, [1989], p. 121).

O santuário da nação

Durante a ocupação nazista, Jasna Góra foi a capital espiritual de um povo sem Estado, e depois da Segunda Guerra Mundial passou a ser o centro da vida religiosa da Polônia (WITKOWSKA, [1989], p. 120). Em 26 de agosto de 1956, perante cerca de um milhão de fiéis vindos de todo o país (TOMZIŃSKI, 1986, p. 459), foram renovados os votos de João Casimiro com um texto preparado pelo cardeal Stefan Wyszyński (WITKOWSKA, [1989], p. 120): Królowo Polski, odnawiamy dziś śluby przodków naszych, «Rainha da Polônia, renovamos hoje os votos dos nossos antepassados» (ZAŁĘCKI, 1976, p. 142). No santuário se reza todos os dias, às 21 horas (TOMZIŃSKI, 1986, p. 456), o Apelo de Jasna Góra: Maryjo, Królowo Polski, jestem przy Tobie, pamiętam, czuwam, «Maria, Rainha da Polônia, estou junto de ti, eu me lembro, eu vigio» (JOÃO PAULO II, 1988, p. 464).

João Paulo II visitou Jasna Góra na sua primeira viagem à Polônia. Na homilia de 4 de junho de 1979, disse: Tyle razy przybywaliśmy tutaj! Stawaliśmy na tym świętym miejscu, przykładaliśmy niejako czujne pasterskie ucho, aby usłyszeć, jak bije serce Kościoła i serce Ojczyzny w Sercu Matki, «Tantas vezes viemos aqui! Paramos neste lugar santo, encostamos, por assim dizer, o ouvido atento do pastor, para ouvir como bate o coração da Igreja e o coração da Pátria no Coração da Mãe». E acrescentou: Jasna Góra jest sanktuarium Narodu, «Jasna Góra é o santuário da Nação» (JOÃO PAULO II, 1979, p. 760-761). No fim da missa confiou à Mãe de Deus toda a Igreja (JOÃO PAULO II, 1979, p. 764-766). Na Redemptoris Mater recordou o santuário numa única frase, ao lado de Guadalupe, Lourdes e Fátima: ex quibus taciti quomodo transire possumus illud sacrarium patriae nostrae, Clari Montis?, «entre os quais, como poderíamos passar em silêncio aquele santuário da nossa pátria, Jasna Góra?» (JOÃO PAULO II, 1986, p. 448).

Referências

JOÃO PAULO II. [Homilia e ato de entrega], Częstochowa, 4 jun. 1979. Acta Apostolicae Sedis, Cidade do Vaticano, v. 71, p. 757-766, 1979.

JOÃO PAULO II. Litterae encyclicae Redemptoris Mater, 25 mar. 1987. Marianum, Roma, v. 48, n. 3-4, p. 417-474, 1986.

JOÃO PAULO II. Allocutio in templo Sanctuario Claromontano ad Christifideles congregatos habita, Częstochowa, 12 jun. 1987. Acta Apostolicae Sedis, Cidade do Vaticano, v. 80, p. 463-468, 1988.

PACH, Jan. Maria di Jasna Góra a Częstochowa chiamata «Madonna Nera». In: GROPPO, Lalla e GIRARDI, Oliviero (org.). Nigra sum: culti, santuari e immagini delle Madonne Nere d’Europa. Ponzano Monferrato: Centro di Documentazione dei Sacri Monti, [2010?]. p. 287-290.

PIO XII. Epistula Gloriosam Reginam, 8 dez. 1955. Acta Apostolicae Sedis, Cidade do Vaticano, v. 48, p. 73-77, 1956.

TOMZIŃSKI, Jan Jerzy. Częstochowa. In: DE FIORES, Stefano e MEO, Salvatore (org.). Nuovo dizionario di mariologia. 2. ed. Cinisello Balsamo: Edizioni Paoline, 1986. p. 455-461.

WITKOWSKA, A. Czenstochau. In: BÄUMER, Remigius e SCHEFFCZYK, Leo (org.). Marienlexikon. v. 2. St. Ottilien: EOS, [1989]. p. 120-121.

ZAŁĘCKI, Marian. Theology of a Marian shrine: Our Lady of Częstochowa. Marian Library Studies, New Series, Dayton, v. 8, p. 35-311, 1976.

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