O grande sacramento e o fermento escondido

«Multi unum corpus sumus in christo»: Paulo, a parábola do banquete e Maria

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Sacramentum hoc magnum est, ego autem dico in Christo et in Ecclesia.
Ef 5,32

A liturgia da trigésima semana do Tempo Comum reúne dois textos que, à primeira vista, parecem pertencer a mundos distintos. A epístola aos Efésios contempla o mistério nupcial que une Cristo e a Igreja, e o evangelho de Lcas apresenta duas parábolas do Reino, a semente de mostarda e o fermento escondido. Entre a densidade dogmática de Paulo e a leveza narrativa das parábolas há, porém, um único fio, o do mistério que cresce por dentro. O Reino não se impõe pela grandeza, ele se difunde pela comunhão. A Igreja não é uma instituição sobreposta ao mundo, ela é a Esposa que Cristo santifica e o pequeno grão que se faz árvore. Ler estes textos juntos é aprender que a salvação tem forma esponsal e ritmo germinativo.

I. O grande sacramento da união esponsal

A perícope de Ef 5,21-33 não é primeiramente um código doméstico, é uma cristologia da aliança. Paulo abre com a submissão recíproca, subjecti invicem in timore Christi, isto é, submetei-vos uns aos outros no temor de Cristo (Ef 5,21), e nesse verso inicial dissolve qualquer leitura que fizesse do matrimônio uma simples hierarquia de poder. O que o Apóstolo descreve não é a dominação do forte sobre o fraco, mas a entrega total do amante pela amada. O modelo é dado sem ambiguidade, Christus dilexit Ecclesiam, et seipsum tradidit pro ea, Cristo amou a Igreja e a si mesmo se entregou por ela (Ef 5,25). O verbo da entrega é o mesmo da paixão. Amar, aqui, significa morrer.

A finalidade dessa entrega é a santificação da Esposa. Cristo purifica a Igreja lavacro aquæ in verbo, pelo banho da água na palavra (Ef 5,26), alusão transparente ao batismo, e a apresenta a si mesmo non habentem maculam, aut rugam, sem mancha nem ruga (Ef 5,27). Três predicados definem a Esposa escatológica, esplendor, ausência de mácula, santidade irrepreensível. Paulo conclui citando o Gn 2,24, os dois numa só carne, e declara que este mistério é grande e o interpreta em relação a Cristo e à Igreja (Ef 5,32). A Vulgata traduz mystḗrion por sacramentum, e nessa transposição nasce toda a teologia sacramental do matrimônio. O amor conjugal não é metáfora da aliança, é o seu sinal eficaz. A carne humana torna-se linguagem do amor divino.

II. A semente e o fermento do Reino

O evangelho de Lc 13,18-21 responde a uma pergunta que Jesus formula duas vezes, Cui simile est regnum Dei?, a que é semelhante o Reino de Deus (Lc 13,18). A dupla interrogação denuncia a insuficiência de toda imagem isolada. O Reino excede qualquer comparação, e por isso Jesus oferece duas, uma masculina e agrária, outra feminina e doméstica. A primeira é o grão de mostarda que um homem lança no seu jardim e que se faz arborem magnam, grande árvore, onde as aves do céu repousam nos ramos (Lc 13,19). O contraste é vertiginoso, a menor das sementes gera a maior das hospitalidades. A imagem das aves ecoa Dn 4 e Ez 17, onde a árvore acolhedora simboliza o reino que abriga as nações.

A segunda parábola desloca a cena para o interior da casa. Uma mulher toma o fermento e o esconde, abscondit, em três medidas de farinha até que tudo fermente (Lc 13,21). O verbo é decisivo, não se trata de misturar à vista de todos, mas de ocultar. O Reino age escondido, silencioso, imperceptível, e no entanto transforma a massa inteira. As três medidas, sata tria, evocam a hospitalidade de Abraão em Gn 18,6, e assim a fermentação recebe uma ressonância de aliança. O Reino de Deus é a potência do pequeno que contagia o todo. Nada nele começa grande. Tudo nele termina imenso.

III. O mistério que cresce por dentro

A síntese das duas leituras revela uma única lógica, a do crescimento oculto que culmina em comunhão total. A Igreja de Ef 5 é a Esposa que Cristo torna gloriosa, e o Reino de Lc 13 é a semente e o fermento que se dilatam do interior. Em ambos os casos o princípio é minúsculo e a consumação é plena. O grão de mostarda e o banho batismal são gestos discretos, quase invisíveis, e no entanto deles procede a árvore que abriga as aves e a Esposa sem mácula que resplandece. A história da salvação não avança por conquista, avança por fermentação.

Há mais. A imagem esponsal e a imagem germinativa convergem no mesmo escândalo da pequenez. Cristo entrega-se por uma Esposa que ainda tem manchas e rugas, e o Reino confia-se a uma semente que ainda não é árvore. O amor divino aposta no que ainda não está pronto. O salmo responsorial confirma esse tom com a bênção do lar fiel, uxor tua sicut vitis abundans, a tua esposa como videira fecunda (Sl 127,3), e liga a fecundidade doméstica ao temor do Senhor. A videira que dá fruto, a árvore que dá abrigo, a massa que cresce, tudo canta a mesma verdade. Deus faz do escondido o lugar da sua glória. O invisível é o seu método.

IV. Maria, esposa imaculada e mulher do fermento

A chave mariológica destes textos está inscrita no próprio vocabulário paulino, ainda que Maria não seja nomeada. A Igreja que Cristo apresenta a si non habentem maculam, sem mancha (Ef 5,27), tem um rosto concreto e realizado na história, o da Virgem imaculada. O que a Esposa será no fim, Maria já o é no princípio. A tradição patrística e o magistério leram na Ecclesia immaculata a figura antecipada daquela que a bula Ineffabilis Deus proclamou preservada de toda mancha desde a conceção. Maria não é apenas membro da Esposa, ela é a Esposa em estado puro, o penhor visível da santidade prometida a todo o Corpo.

A parábola do fermento oferece a segunda chave. A mulier que esconde o fermento na massa até tudo fermentar (Lc 13,21) tornou-se, na leitura contemplativa, imagem daquela que escondeu no seu seio o Verbo destinado a levedar a humanidade inteira. Maria é a mulher do abscondit, do que se guarda em silêncio, e o evangelho de Lcas insiste que ela conservava todas estas coisas meditando-as no coração (Lc 2,19). O fermento do Reino foi primeiro escondido no ventre de uma jovem de Nazaré. Nela o grão de mostarda encontrou a terra, e nela a farinha do mundo recebeu o levedar da graça. A pequenez que salva tem nome de mulher. A Esposa sem ruga tem feições de Mãe.

Assim as três imagens do dia, a Esposa gloriosa, a árvore acolhedora, a massa fermentada, encontram em Maria a sua síntese pessoal. Ela é a criatura em quem o mistério grande de Ef 5,32 deixou de ser promessa e se fez carne. Contemplá-la é ver antecipado o que a Igreja inteira há de ser, esplêndida, santa, irrepreensível. Não uma exceção que nos afasta, mas uma primícia que nos convoca. O que Deus operou na Serva é o programa oferecido a todos os fiéis.

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