«Hodie impleta est»: Nazaré, a ofensa da proximidade e a fé de Maria

Hodie impleta est haec Scriptura in auribus vestris. […] Non enim iudicavi scire me aliquid inter vos nisi Iesum Christum et hunc crucifixum.
Lc 4,21 e 1Cor 2,2
A segunda-feira da Semana XXII do Tempo Comum leva o fiel a Nazaré e devolve-o a Corinto. Lucas narra o dia em que Jesus leu Isaías na sinagoga da sua aldeia e foi expulso pelos vizinhos que o tinham visto crescer. Paulo recorda que chegou a Corinto «cheio de fraqueza e de temor e a tremer deveras» (v.3), decidido a não saber nada senão Cristo crucificado. As duas cenas partilham o mesmo escândalo, o de um Deus que se apresenta sem as credenciais que os homens exigem. E as duas tocam Maria de perto, porque foi ela quem viveu trinta anos naquela aldeia.
I. A primeira leitura: 1Cor 2,1-5
Paulo continua a desmontar a expectativa de Corinto e agora faz da própria fragilidade o argumento. Recusa a «sublimidade de linguagem ou de sabedoria» (v.1) e descreve a sua chegada em termos que nenhum orador antigo usaria por vaidade: fraqueza, temor, tremor. Não é modéstia de circunstância. É a descrição de um método.
O motivo aparece no fim, e é rigorosamente teológico: «para que a vossa fé não se fundasse na sabedoria humana, mas no poder de Deus» (v.5). Se a adesão dos coríntios tivesse nascido do brilho de quem falava, ficaria dependente desse brilho e cairia com ele. Paulo apaga-se de propósito, para que aquilo que sustenta a fé daquela comunidade seja verificável noutro lugar que não a sua pessoa. Todo o ministério eclesial vive desta regra, e todo o ministro é tentado a esquecê-la.
II. O evangelho: Lc 4,16-30
A cena de Nazaré é programática em Lucas. Jesus lê o texto de Isaías sobre o ungido enviado aos pobres, aos cativos, aos cegos e aos oprimidos, senta-se, e declara: «cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir» (v.21). O hodie lucano é a chave de todo o Evangelho. A promessa deixa de ser futuro e passa a ser presente, e é esse presente que se torna insuportável.
A reação inicial é favorável, e é aí que a pergunta se atravessa: «não é este o filho de José?» (v.22). A objeção não é sobre a doutrina, é sobre a origem. Os vizinhos conhecem a casa, a oficina, a mãe, e por isso julgam saber os limites daquilo que dali pode sair. Jesus responde com dois exemplos que fazem a fúria explodir, a viúva de Sarepta e o sírio Naamã, ambos estrangeiros, ambos socorridos enquanto Israel ficava a ver. A familiaridade que devia dispor à fé tinha-se convertido em posse, e a posse não suporta que o dom se dirija a outros.
III. A ofensa da proximidade
Há um fio que liga a fraqueza de Paulo à rejeição de Nazaré. Em ambos os casos, o obstáculo à fé não é a distância de Deus mas a sua proximidade. Corinto queria um anunciador à altura da sua cultura e recebeu um homem a tremer. Nazaré queria um profeta vindo de fora e recebeu o filho do carpinteiro. Deus escolhe de cada vez a forma que desarma a expectativa, e a expectativa desarmada reage sempre da mesma maneira, com desprezo ou com violência.
Esta lógica não é um acidente da história de Jesus, é a estrutura da Encarnação. O Concílio recorda que o Filho de Deus trabalhou com mãos humanas, pensou com inteligência humana e amou com coração humano (GS 22). Quem se escandaliza com a normalidade daquela família está a escandalizar-se com o modo escolhido por Deus para se dar. E é sempre mais fácil admirar a mensagem do que aceitar o mensageiro que se conhece desde criança.
IV. Maria, a vizinha de Nazaré
Aquela sinagoga onde Jesus foi rejeitado ficava na aldeia onde Maria vivia, e os homens que o quiseram precipitar da colina eram os seus vizinhos. É um detalhe que a piedade costuma passar depressa e que merece demora. Maria não teve o privilégio de assistir ao ministério do Filho a partir de uma posição protegida. Assistiu a partir de dentro da comunidade que o recusou.
Ela é, ao mesmo tempo, a razão humana da objeção e a sua refutação. É a mãe que todos conheciam, aquela cuja casa comum tornava impensável a origem divina do Filho. E é, precisamente por isso, o primeiro testemunho de que a proximidade não é obstáculo à graça. Quem viu de mais perto foi quem creu primeiro. O Concílio situa a sua fé no início de tudo e reconhece que ela avançou na peregrinação da fé, conservando fielmente a união com o Filho até à Cruz (LG 58).
Lucas fecha a cena com uma nota estranha e serena: «Jesus, passando pelo meio deles, seguiu o seu caminho» (v.30). O caminho continua, e Maria continua nele. Ela não ficou na aldeia a lamentar a incompreensão dos vizinhos, nem se juntou aos que exigiam sinais. Guardou a Palavra e seguiu. É essa a razão pela qual a Igreja a reconhece como o seu próprio tipo na ordem da fé, da caridade e da perfeita união com Cristo (LG 63). Nazaré recusou o dom por conhecer demasiado bem a família. Maria recebeu-o pela mesma razão.
A segunda-feira da Semana XXII deixa portanto um aviso de que ninguém está isento. O maior perigo para a fé não é a ignorância sobre Deus. É a familiaridade que se transformou em posse e deixou de esperar novidade nenhuma.
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