Sanctifica eos in veritate: Maria e a consagração na verdade

Sanctifica eos in veritate: sermo tuus veritas est.
Jo 17,17
«Santifica-os na verdade: a tua palavra é a verdade». A oração sacerdotal de Jesus por aqueles que o Pai lhe deu (Jo 17,6-19) inclui este pedido de santificação: que os discípulos sejam «consagrados» (hagiazein) na verdade que é a Palavra do Pai. Esta santificação não é apenas moral, é ontológica: uma configuração progressiva à verdade de Deus que transforma a natureza do fiel. A mariologia encontra nesta santificação o seu fundamento dogmático mais profundo: Maria, santificada de modo único e singular pela graça de Cristo, é o modelo e a intercessora da santificação de todos os discípulos.
I. «Santificar» em João: consagração e configuração
O verbo hagiazein, «santificar», «consagrar», tem em João uma dimensão primordialmente cultual: «consagrar» é separar para Deus, reservar para um uso sagrado, ordenar inteiramente ao serviço divino. Em Jo 17,17.19, Jesus pede que os discípulos sejam «consagrados», separados do mundo para a missão, e afirma que ele próprio se «consagra» para que eles também sejam «consagrados na verdade» (Jo 17,19). O sacerdócio de Cristo é o fundamento da santificação dos discípulos: a sua «consagração» deriva da consagração do Filho.
A santificação «na verdade» especifica o meio: não uma santificação por mérito ou por esforço ascético, mas uma santificação pela participação na Palavra de Deus que é «verdade». A Palavra que santifica não é apenas a Escritura como texto, é o próprio Cristo que é «a Verdade» (Jo 14,6) e cuja Palavra, «guardada» (Jo 17,6) pelos discípulos, os transforma progressivamente à sua imagem. Esta santificação é o que a teologia chamou de «divinização» (theôsis): a participação progressiva na natureza divina (2Pe 1,4) que Cristo comunica aos seus.
A estrutura da santificação tem uma dimensão eclesial que João sublinha: Jesus não santifica os discípulos individualmente mas como comunidade, «santifica-os» no plural. A santificação cristã é sempre comunitária: realiza-se nos sacramentos (actos comunitários), na liturgia (oração comunitária), na caridade (serviço mútuo). Esta dimensão eclesial da santificação tem em Maria a sua figura mais eloquente: ela que foi santificada de modo singular é simultaneamente «Mãe da Igreja», o coração da comunidade dos santificados.
A conexão entre santificação e missão em Jo 17,18 é deliberada: «como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo». A santificação não é para «ficar» junto de Deus, separado do mundo, é para «ir» ao mundo com a missão que o Filho recebeu do Pai. A santidade cristã é missionária: não a separação do mundo no sentido de uma clausura, mas a separação «para Deus» que habilita para a missão «ao mundo». Maria, santificada de modo supremo, é também a missionária por excelência, a que apresentou o Filho ao mundo e que continua a apresentá-lo através da sua maternidade espiritual.
II. Maria, a mais completamente santificada
A mariologia dogmática afirma que Maria foi santificada de modo único e singular: a Imaculada Conceição é a santificação preventiva pelo único Mediador (LG 56). A plenitude de graça da Anunciação é a santificação inaugural da nova Aliança. A sua vida inteira é a santificação progressiva que culmina na glória da Assunção. Nenhum outro ser humano foi santificado de modo tão completo, tão precoce e tão definitivo.
Esta santificação singular de Maria não é privilégio gratuito, é necessidade teológica. O Filho que se Encarna «na» carne de Maria não pode assumir uma carne manchada pelo pecado sem que isso afecte a dignidade da sua humanidade. A «carne que assumiu» (Jo 1,14) é a carne de Maria. E a santidade desta carne é condição da conveniente dignidade da Encarnação. A Imaculada Conceição não é uma decoração do mistério da Encarnação, é uma das suas condições de conveniência.
A santificação de Maria é, ao mesmo tempo, a mais perfeita realização da promessa de Jo 17,17. Ela foi «santificada na Verdade» de modo máximo: a Verdade que é o Filho habitou nela, a Palavra do Pai que «é a verdade» tomou carne nela, o Espírito que «guia a toda a verdade» (Jo 16,13) habitou nela de modo singular. Toda a operação da Trindade na santificação dos discípulos atingiu em Maria o seu paradigma e a sua cimeira.
A tradição espiritual, em particular a escola carmelita (Teresa de Ávila, João da Cruz, Teresa do Menino Jesus), desenvolveu a contemplação de Maria como modelo das «mansões interiores» da santidade: ela que atingiu a «sétima mansão», a união transformante com Deus, de modo mais pleno do que qualquer outro ser humano, é o guia para o itinerário espiritual de cada cristão. A sua santidade não é uma realidade fechada em si mesma, é um convite e um modelo para a santidade de todos.
III. «A tua palavra é a verdade»: Maria e a Escritura
Jo 17,17: «a tua palavra é a verdade» (ho logos ho sos alêtheia estin). Esta identificação da Palavra do Pai com a «verdade» tem uma dimensão mariológica directa: o «Logos» que é «a verdade» de que João fala é o mesmo Logos que «veio habitar entre nós» (Jo 1,14) e que Maria gerou. A «Palavra que é verdade», na sua forma escrita (Escritura) e na sua forma viva (Cristo), tem em Maria o seu modelo de «acolhimento»: ela que acolheu a Palavra viva no seu ventre é o modelo da alma que acolhe a Palavra escrita no seu coração.
A relação de Maria com a Escritura é um dos temas mais fecundos da mariologia contemporânea. O Magnificat (Lc 1,46-55) é tecido de alusões às Escrituras de Israel: os Salmos, o cântico de Ana (1Sm 2,1-10), as profecias de Isaías, as promessas a Abraão. Maria não improvisa, cita, alude, evoca, relê à luz do que está a acontecer nela. Esta «releitura» da Escritura à luz da experiência viva é o modelo da lectio divina: não a leitura do texto como literatura, mas como encontro com a Verdade viva que o texto medeia.
A tradição patrística chamou a Maria «Arca da nova Aliança», não apenas porque portou o Filho como a Arca portava as tábuas da Lei, mas porque ela é o modelo do coração humano que «guarda» a Palavra com a reverência com que Israel guardava a Arca. Guardar a Palavra não é guardá-la num cofre, é deixar que ela «habite» dentro, que opere, que santifique. Este «habitar da Palavra» no coração é o processo de santificação que Jo 17,17 descreve, e Maria é o seu modelo mais perfeito.
O Concílio Vaticano II (DV 8) afirma que a compreensão das Escrituras «cresce com a contemplação e o estudo dos fiéis». Esta «contemplação» que faz crescer a compreensão é exactamente o que Maria praticava, «guardava e meditava» (Lc 2,19.51). A Igreja que medita as Escrituras no Ofício Divino, na lectio divina, na pregação, repete o gesto de Maria. E Maria, que «praticou» este gesto de modo mais perfeito do que ninguém, é a intercessora mais qualificada para que a Igreja continue a ser santificada «na Verdade» que é a Palavra do Pai.
IV. «Também eu os envio ao mundo»: santidade missionária e Maria
Jo 17,18: «Como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo». A santificação exige a missão: quem é «santificado» na verdade é «enviado» ao mundo com a mesma missão do Filho. Não há santidade autêntica que não seja missionária, nem missão autêntica que não brote da santidade. Esta unidade de santidade e missão tem em Maria a sua expressão mais perfeita: ela que foi santificada de modo singular foi também «enviada» de modo singular, como a que apresentou o Filho ao mundo e que continua a «apresentá-lo» através da sua maternidade espiritual.
A «missão de Maria» na tradição mariológica é descrita com imagens diversas: ela é a «estrela do mar» que guia os navegantes ao porto, o «aqueduto» que conduz a graça do Filho aos seus membros, a «Mater Ecclesiae» que gera continuamente novos membros para o Corpo de Cristo, a «Auxilium Christianorum» que intercede nas tribulações da missão. Todas estas imagens expressam a convicção de que a santificação de Maria não foi para Maria, foi para o mundo.
A mariologia missionária tem uma expressão histórica particularmente eloquente: as grandes missões que levaram o Evangelho a novos povos foram frequentemente acompanhadas por uma intensificação da devoção mariana. A evangelização da América Latina (séc. XVI), com Guadalupe como o seu símbolo mais poderoso, a evangelização da África e da Ásia, com as aparições de Nossa Senhora de Kibeho no Ruanda e de Nossa Senhora de Akita no Japão como sinais contemporâneos, mostram como a santidade missionária de Maria continua a fecundar a missão da Igreja.
A conclusão da oração sacerdotal de João é a inclusão de «todos os que hão-de crer» na santificação pedida por Jesus: «Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que, pela palavra deles, hão-de crer em mim» (Jo 17,20). Esta inclusão universal aponta para a missão de cada geração: a santificação «na verdade» não é para os que já crêem, é para os que ainda não crêem e para quem os fiéis são enviados. Maria, como figura da missão universal, intercede por esta extensão da santificação a todos os que ainda não foram alcançados pela Verdade que é o Filho.
Maria, santificada na Verdade de modo mais pleno do que qualquer outro ser humano, é o modelo da santidade missionária que Jo 17 descreve: consagrada para ser enviada, santificada para santificar o mundo.
Referências
- Concílio Vaticano II, Lumen Gentium, n. 56 (1964).
- João Paulo II, Redemptoris Missio, n. 92 (1990).
- S. Teresa de Ávila, Castelo Interior, 7.ª Mansão.
- Concílio Vaticano II, Dei Verbum, n. 8 (1965).
- R. Laurentin, Court Traité de Théologie Mariale (1953).
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