«Sepulcra dealbata»: os sepulcros caiados e a interioridade de Maria

Vae vobis, scribae et pharisaei hypocritae, quia similes estis sepulcris dealbatis, quae a foris quidem parent speciosa, intus vero plena sunt ossibus mortuorum. […] Si quis non vult operari, nec manducet.
Mt 23,27 e 2Ts 3,10
A quarta-feira da Semana XXI do Tempo Comum une dois textos que falam da mesma coisa por caminhos opostos: a correspondência entre o que se mostra e o que se é. Paulo despede-se dos tessalonicenses com uma regra áspera de vida cotidiana, «quem não quer trabalhar também não deve comer» (v.10), e assina a carta de próprio punho para que ninguém duvide de quem fala. Jesus denuncia os sepulcros caiados, belos por fora e cheios de morte por dentro. Maria é o avesso exato dessa imagem, um exterior sem nenhum brilho e um interior que o anjo declarou cheio de graça.
I. A primeira leitura: 2Ts 3,6-10.16-18
O fim da segunda carta aos Tessalonicenses enfrenta um problema concreto. A comunidade fora abalada pela ideia de que o Dia do Senhor já teria chegado, e alguns tiraram daí a conclusão de que o trabalho perdera sentido. Paulo não responde com especulação sobre o fim. Responde com pão ganho: «trabalhamos dia e noite, com esforço e fadiga, para não sermos pesados a nenhum de vós» (v.8). A ociosidade que ele repreende não é o descanso, é a vida que se desliga da realidade e passa a viver de aparências e da conta alheia.
O apóstolo insiste que tinha direito ao sustento e renunciou a ele para ser «exemplo a imitar» (v.9). A autoridade que reivindica não vem do cargo, vem da coerência verificável entre o que ensina e o modo como vive. O gesto final confirma essa lógica: «a saudação é do meu punho e letra: Paulo» (v.17). Numa época de cartas falsificadas, a letra do próprio autor é a garantia de que o exterior corresponde ao interior. Paulo autentica o texto com o corpo, do mesmo modo que autenticou a pregação com o trabalho das mãos.
II. O evangelho: Mt 23,27-32
Os dois «ais» deste trecho pertencem à série que Mateus reúne no capítulo 23 e são, de todos, os mais duros. A imagem do sepulcro caiado tem base num costume preciso: antes da Páscoa caiavam-se de branco os túmulos ao longo dos caminhos, para que os peregrinos os vissem e não tocassem neles sem perceber, pois quem tocasse num sepulcro contraía impureza legal por sete dias (Nm 19,16). A cal era, portanto, um sinal de advertência. Jesus inverte a função do sinal: nos hipócritas, aquilo que deveria avisar do perigo tornou-se o enfeite que o esconde.
A acusação não recai sobre o exterior enquanto tal, e sim sobre o divórcio entre o exterior e o interior: «por fora pareceis justos aos olhos dos homens, mas por dentro estais cheios de hipocrisia e maldade» (v.28). O segundo «ai» aprofunda a ferida. Edificar os sepulcros dos profetas e ornamentar os túmulos dos justos (v.29) é prestar culto a uma memória que a própria vida contradiz. Daí a ironia terrível do v.32, «completai, então, a obra dos vossos pais», que aponta já para a Paixão. O culto aos mortos que se recusa a ouvir os vivos prepara a próxima morte.
III. Interioridade e exterioridade: o critério católico
Seria fácil ler estes textos como uma condenação do visível em nome do invisível. Seria uma leitura falsa. A fé católica nunca opôs o interior ao exterior, porque a Igreja é ao mesmo tempo sociedade visível e comunidade espiritual, e essas duas dimensões formam «uma realidade complexa» que não se pode separar (LG 8). O sinal exterior não é o inimigo. A mentira é. O sepulcro caiado é condenado não por ser branco, mas por ser branco sobre a podridão.
O critério, portanto, é a verdade do sinal. E a primeira leitura oferece exatamente o contra-exemplo do evangelho: as mãos calejadas de Paulo dizem a verdade sobre o coração de Paulo. O trabalho é um exterior honesto, sem cal e sem ornamento, que revela em vez de esconder. É esta a razão pela qual a tradição espiritual sempre desconfiou da devoção que cresce enquanto a vida cotidiana apodrece. Santo Agostinho formulou o princípio no seu registro mais denso ao falar de Maria, que «concebeu antes na mente do que no corpo» (AGOSTINHO. Sermo 215,4). Primeiro o interior, depois o sinal. Nunca o sinal sem o interior.
IV. Maria, o avesso do sepulcro caiado
Se o hipócrita é belo por fora e morto por dentro, Maria é a inversão perfeita dessa figura. Por fora, nada: uma jovem de Nazaré, aldeia de que se perguntava se podia sair algo de bom (Jo 1,46), esposa de um artesão, sem título, sem sinal, sem cal. Por dentro, a saudação que a nomeia antes de qualquer feito, kecharitoméne, «cheia de graça» (Lc 1,28). O nome que o anjo lhe dá não descreve uma aparência, descreve um estado interior real. Maria é aquela cujo exterior humilde não engana ninguém, porque nada tem a esconder.
Os anos de Nazaré são, nesse sentido, a exegese viva de 2Ts 3. Maria viveu o trabalho oculto que não pede testemunhas, e por isso o Concílio pôde apresentá-la como aquela que avançou «na peregrinação da fé» e conservou fielmente a sua união com o Filho até a Cruz (LG 58). A Igreja reconhece nela o tipo de si mesma na ordem da fé, da caridade e da perfeita união com Cristo (LG 63), e reconhece também que aquilo que nela já está consumado os fiéis ainda o buscam, vencendo o pecado (LG 65). Maria é modelo porque nela não há distância entre o parecer e o ser.
Há ainda um último traço, e é o mais surpreendente. O evangelho de hoje fala de sepulcros cheios de ossos de mortos. A fé da Igreja confessa que o corpo de Maria não conheceu esse destino: terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celeste (PIO XII. Munificentissimus Deus, 1950). O único sepulcro que a devoção cristã venera sem cal é aquele que está vazio, e está vazio precisamente porque a corrupção não teve nada a reivindicar. Nela, diz o Concílio, a Igreja contempla «a imagem e o princípio» daquilo que ela mesma há de ser (LG 68).
A quarta-feira da Semana XXI propõe, portanto, uma pergunta simples e incômoda. Não se trata de escolher entre o interior e o exterior, e sim de verificar se um diz a verdade sobre o outro. Paulo mostra as mãos. Jesus desmascara a cal. Maria não precisa de nenhuma das duas coisas, porque o seu exterior sempre foi apenas aquilo que o seu interior deixava transparecer.
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