Sequere me: o sábado mariano e as exigências do seguimento

Et accedens scriba dixit ei: Magister, sequar te, quocumque ieris. Et dicit ei Iesus: Vulpes foveas habent, et volucres caeli tabernacula. Filius autem hominis non habet ubi caput reclinet.
Mt 8,19-20
O Sábado da semana XII do Tempo Comum é, na tradição litúrgica latina, o Sábado de Nossa Senhora, o dia dedicado à memória de Maria que Alcuíno introduziu no século IX e que a devoção monástica cisterciense, sob a influência de Bernardo de Claraval, generalizou no século XII. A pericope evangélica que a liturgia ferial deste sábado apresenta, Mt 8,18-22, sobre as exigências do seguimento, oferece uma chave inesperadamente rica para a contemplação mariana: as duas condições que Jesus apresenta ao escriba e ao discípulo que queriam segui-Lo são precisamente as que definem o perfil do seguimento exemplar de Maria.
Os dois encontros de Mt 8,18-22 descrevem duas tentações do seguimento incompleto. O escriba que diz «Mestre, seguir-te-ei para onde quer que fores» (Mt 8,19) expressa um entusiasmo genuíno mas não testado, não conhece as implicações do «onde quer que fores» que inclui a itinerância sem lar, a insegurança económica, a marginalidade social. O discípulo que pede «permiti-me primeiro ir enterrar meu pai» (Mt 8,21) tem um impedimento compreensível mas que revela uma hierarquia de prioridades em que o seguimento de Jesus é subordinado a obrigações familiares. Jesus responde a ambos com a exigência radical que define o discipulado autêntico: sem lar permanente, sem adiamentos.
I. «Seguir-te-ei para onde quer que fores»: o entusiasmo testado
O escriba de Mt 8,19 é notável pelo seu entusiasmo: ao contrário dos pescadores e de Mateus que foram chamados por Jesus, este toma a iniciativa. «Seguir-te-ei para onde quer que fores», a declaração não tem condições, não tem excepcções, não tem prazo de validade. É a afirmação mais generosa que um discípulo pode fazer. Contudo, Jesus não o encoraja imediatamente: responde com uma descrição da condição concreta do que o seguimento implica, «as raposas têm tocas, as aves do céu têm ninhos. Mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça» (Mt 8,20).
«O Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça», esta afirmação de Jesus sobre si mesmo é uma das mais sóbrias e mais reveladoras do Evangelho de Mateus. Jesus, que era filho de José o carpinteiro, tinha provavelmente tido uma casa em Nazaré. Mas ao iniciar o ministério público, renunciou à segurança do lar: dependia da hospitalidade dos discípulos, das mulheres que o seguiam e o serviam (Lc 8,1-3), das casas que o acolhiam. A itinerância radical de Jesus, que a tradição franciscana retomaria com especial ênfase, é parte da sua identificação com os mais pobres e mais vulneráveis da sociedade.
A resposta de Jesus não é uma recusa do entusiasmo do escriba, é uma preparação. O «seguir-te-ei para onde quer que fores» precisa de conhecer o que está incluído no «onde quer que fores»: inclui a semana XII da viagem de Cafarnaum para Jerusalém, inclui o Calvário, inclui a perseguição pós-pascal. O entusiasmo que não conhece as implicações do seguimento é frágil, a casa sobre a areia de Mt 7,26 que colapsa quando chega a tempestade. O entusiasmo que conhece as implicações e as aceita é a casa sobre a rocha que Mt 7,24 celebra.
O Sábado mariano é, neste contexto, o dia da revisão do entusiasmo: «onde está o meu seguimento de Jesus depois desta semana? Corresponde ao «seguir-te-ei para onde quer que fores» que pronunciei no Domingo? Ou foi condicionado pelas comodidades, pelas conveniências, pelos medos que tornaram o seguimento mais selectivo do que a declaração inicial»? Maria é o modelo não do entusiasmo de domingo mas do seguimento de toda uma vida: o «fiat» da Anunciação foi renovado a cada estação, na Visitação em Belém, no Egipto, em Nazaré, no Calvário, no Cenáculo.
II. «Deixa os mortos enterrar os seus mortos»: a primazia
O segundo encontro (Mt 8,21-22) é ainda mais perturbador: «Senhor, permite-me primeiro ir enterrar meu pai», um pedido razoável, comprometido com as obrigações familiares mais básicas. A resposta de Jesus, «segue-me. Deixa os mortos enterrar os seus mortos», parece contradizer a honra devida aos pais (quinto mandamento) e a piedade filial que o Antigo Testamento celebra. A exegese desta frase é objecto de debate: alguns intérpretes sugerem que o pai ainda não havia morrido e que o discípulo pedia para adiar o seguimento até à morte do pai (possivelmente anos no futuro). Outros tomam a frase ao pé da letra.
A chave interpretativa está no «deixa os mortos», os «espiritualmente mortos», os que não responderam ao chamado de Jesus, podem perfeitamente cumprir as obrigações funerárias. O discípulo que recebeu o chamado de Jesus tem uma responsabilidade que os «mortos» não têm: a urgência do anúncio do Reino não admite adiamento indefinido. Este princípio, a primazia do seguimento de Jesus sobre as obrigações familiares, não porque a família não importe, mas porque o Reino é urgente, é o mesmo que Jesus enunciou em Mt 10,37: «quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim, não é digno de mim».
Maria compreendeu esta primazia de modo exemplar, e duplamente paradoxal. Foi Maria que, ao pé da Cruz, recebeu de Jesus como «filho» o discípulo amado (Jo 19,26-27): a reconfiguração da família biológica em família espiritual. Mas foi também Maria que, na cena de Mc 3,33-35 («quem é minha mãe e meus irmãos»?), viu o laço materno ser redefinido não como relação de sangue mas como relação de discipulado: «quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe». Maria não se sentiu excluída por esta declaração, estava incluída, e mais profundamente: não apenas como mãe biológica mas como discípula que faz a vontade de Deus.
«Deixa os mortos enterrar os seus mortos» tem também uma aplicação na vida espiritual ordinária: «mortos» são os projectos, as ambições, as seguranças que me detêm no seguimento. A «morte» que preciso de deixar para trás não é necessariamente a morte biológica de um familiar, pode ser a morte de um projecto de vida que sigo porque é «o que toda a gente espera», a morte de uma segurança económica que me prende quando o chamado me pede mobilidade, a morte de uma reputação que me impede de comprometer-me com o Evangelho de modo visível. O Sábado mariano é o dia de examinar o que me pede para «deixar primeiro» antes de seguir.
III. Maria, itinerante do seguimento
O itinerário de Maria ao longo do Evangelho é o de uma mulher que seguiu, sem saber o destino final, cada passo que a missão do Filho exigiu. De Nazaré a Ain-Karim (Visitação), de Ain-Karim a Belém (Natividade), de Belém ao Egipto (fuga), do Egipto a Nazaré (regresso), de Nazaré a Caná, a Cafarnaum, a Jerusalém, e finalmente ao Calvário e ao Cenáculo. Este itinerário não foi planeado por Maria: foi vivido em obediência à missão do Filho, que não «tinha onde reclinar a cabeça» e cuja mãe aprendeu a não ter onde reclinar a atenção fixamente, sempre disponível para o próximo movimento que a missão do Filho exigiria.
A tradição espiritual viu em Maria o modelo da «peregrina de fé», expressão que o Vaticano II usou em Lumen Gentium 58: «a Virgem progrediu na peregrinação da fé». A peregrinação de fé não é a excursão sazonal ao santuário, é o modo de ser de quem nunca se instala definitivamente em nenhuma segurança criada, que caminha sempre «em direcção a» o que Deus promete mas ainda não revelou por inteiro. Maria viveu esta peregrinação sem o mapa completo: não sabia ao certo onde o «fiat» a conduziria, mas sabia Quem a conduzia.
A mariologia identifica na «itinerância» de Maria uma das dimensões da sua missão co-redentora: a sua presença no Calvário (Jo 19,25, «estava junto da Cruz») não foi acidental, não foi a visita de uma mãe que foi ver morrer o filho. Foi a presença que completou o «seguir-te-ei para onde quer que fores» no seu significado mais extremo: até ao Calvário, até ao momento em que nenhum outro discípulo (excepto João) havia chegado. Maria chegou onde os outros não chegaram, porque o seu seguimento não tinha as condições e os «permitam-me primeiro» que os outros colocaram.
O Sábado mariano como dia de contemplação desta itinerância tem uma função espiritual precisa: é o dia em que o fiel examina o seu seguimento, «onde parei? onde coloquei as condições que Jesus de Mt 8,21 não aceitou»?, e pede a Maria que o ajude a renovar o «seguir-te-ei para onde quer que fores» de modo mais completo, com menos condições, com maior disponibilidade para a itinerância que o Evangelho exige.
IV. O sábado Santo: Maria, guarda da fé
A tradição litúrgica que dedicou o sábado a Maria vê neste dia uma conexão com o Sábado Santo, o dia entre a morte e a Ressurreição em que os discípulos fugiram e Maria permaneceu. O Sábado Santo é o dia mais radical do «não tem onde reclinar a cabeça»: o Filho estava morto, o projecto parecia destruído, a fé não tinha onde se apoiar senão em si mesma. Os discípulos fecharam-se «por medo dos judeus» (Jo 20,19). Maria, a tradição afirma, manteve viva a fé onde todos os outros a perderam.
O sábado mariano é a participação litúrgica semanal naquele Sábado Santo: o dia de «entre», onde a semana com as suas dificuldades ficou para trás e o Domingo com a sua promessa ainda não chegou. A fé que persevera no sábado, sem a consolação da Eucaristia dominical, sem o entusiasmo da assembleia dominical, é a fé mais pura, a fé que não depende das consolações externas. Maria é o modelo desta fé no sábado: ela que «guardou» (Lc 2,19, dietērei) não apenas as palavras mas também as experiências que não compreendeu, conservando-as na esperança de que o Pai, que tudo comanda, tinha um plano que ia além do que ela via.
«Seguir-te-ei para onde quer que fores», o Sábado mariano é o dia em que esta promessa é examinada, renovada, e entregue a Maria para que ela a sustente. O fiel que termina a semana com a oração do Sábado a Maria não pede que Maria substitua o seguimento, pede que ela o sustente onde a sua própria força falha. Como João que «a partir daquela hora recebeu-a em sua casa» (Jo 19,27), o discípulo que acolhe Maria no sábado recebe a mesma presença que sustentou a fé no Sábado Santo, a presença da mulher que seguiu até ao fim e que sabe, por experiência, que o fim não é a morte mas a aurora do Domingo que se aproxima.
Pós-Graduação em mariologia
Quer aprofundar a sua formação em Mariologia? Conheça a Pós-Graduação em Mariologia da Locus Mariologicus – uma formação académica que une rigor teológico, vida espiritual e tradição viva da Igreja.
Responses