Tu me sequere: Maria e o seguimento sem condições

Tu me sequere.
Jo 21,22
«Tu, segue-me». Estas duas palavras que Jesus dirige a Pedro (Jo 21,22) são as palavras mais simples e mais exigentes de todo o Evangelho: o «seguimento» sem condições, sem negociação das modalidades, sem garantia do caminho. O capítulo 21 de João, o epílogo do evangelho, apresenta Pedro que perguntou sobre o destino do discípulo amado e recebeu esta resposta: «Que te importa? Tu, segue-me». A mariologia encontra nestas palavras a síntese de toda a espiritualidade mariana: Maria é, antes de Pedro e de qualquer discípulo, a que disse «sim» ao «Tu, segue-me» sem condições.
I. Jo 21: o epílogo do evangelho e a restauração de Pedro
João 21 narra a aparição do Ressuscitado às margens do lago de Tiberíades: a pesca milagrosa, o reconhecimento de Jesus, a refeição à beira do lago, e o diálogo com Pedro em que Jesus lhe restabelece o mandato pastoral («Apascenta as minhas ovelhas», Jo 21,15-17) e lhe anuncia o martírio («quando fores velho, estenderás as mãos», Jo 21,18). Este capítulo é a «reparação» pascal da negação de Pedro: o mesmo Pedro que três vezes negou o Senhor é agora três vezes confirmado no amor e na missão.
A estrutura do capítulo 21 é deliberadamente paralela à vocação inicial de Pedro em Lc 5,1-11: a pesca infrutuosa que se torna frutífera pela palavra de Jesus, o reconhecimento de Jesus como Senhor, o «segue-me» que inaugura o discipulado. A Ressurreição não anula a história, redime-a: o Pedro que negou é o mesmo Pedro que é chamado a seguir, com a diferença de que agora sabe, pela sua própria experiência, o que significa confiar no Ressuscitado em vez de confiar em si mesmo.
O «Tu, segue-me» final (Jo 21,19.22) é o eco do «segue-me» inicial da vocação (Mc 1,17; Jo 1,43). A vida cristã tem esta estrutura circular: começa com um «segue-me» e termina, ou, melhor, reinicia sempre, com o mesmo «segue-me». Cada crise, cada negação, cada afastamento é seguido pelo mesmo convite: «Tu, segue-me». A misericórdia de Jesus não cancela o discipulado, restaura-o.
A questão de Pedro sobre o discípulo amado, «E este, que lhe acontecerá»? (Jo 21,21), e a resposta de Jesus, «Que te importa? Tu, segue-me», tem uma dimensão pedagógica que atravessa toda a história da espiritualidade cristã: o «seguimento» de Jesus é radical e pessoal, não é comparativo. Cada discípulo tem o seu caminho. Cada um é chamado a seguir Jesus segundo o «modo» que o Senhor estabelece para ele, não o modo do vizinho. Maria é o modelo desta «obediência pessoal» ao «Tu, segue-me» que a ela foi dirigido na Anunciação.
II. Maria e o «Tu, segue-Me» da Anunciação
O Tu me sequere tem em Maria a sua primeira realização. Lc 1,38: «Faça-se em mim segundo a tua palavra». Este «fiat» é o «Tu, segue-me» de Maria: sem condições, sem negociação do caminho, sem garantia prévia do destino. O anjo tinha descrito o que aconteceria («conceberás e darás à luz um filho», Lc 1,31) mas não havia descrito o que isso implicaria: a incompreensão de José, o nascimento em Belém, a fuga para o Egipto, os trinta anos de vida oculta, o ministério público com as suas tensões, o Calvário. Maria disse «sim» a tudo isso sem saber explicitamente o que era tudo isso.
Esta estrutura do «fiat» de Maria, resposta ao que foi anunciado mas abertura ao não-anunciado, é o modelo de todo o seguimento cristão. Ninguém que diz «sim» a Jesus sabe exactamente o que esse «sim» vai implicar. A vocação ao matrimónio, ao sacerdócio, à vida religiosa, ao apostolado leigo, cada uma é um «Tu, segue-me» que revela o seu conteúdo progressivamente, ao longo do tempo. A fidelidade ao chamamento inicial é a fidelidade ao «Tu, segue-me» que vai desdobrando o seu sentido à medida que se avança no caminho.
João Paulo II, na Redemptoris Mater (n. 14), descreveu o «fiat» de Maria como «o mais importante acto da fé» de toda a história. Esta afirmação, que poderia parecer exagerada, é teologicamente precisa: nenhum acto de fé anterior, nem o de Abraão, nem o dos profetas, teve as consequências cósmicas do «fiat» de Maria. Ela disse «sim» em nome de toda a humanidade ao projecto de Deus de se encarnar. O seu «Tu, segue-me» foi ao mesmo tempo o mais pessoal e o mais universal dos seguimentos.
A espiritualidade ignaciana do «discernimento» encontra no «fiat» de Maria o seu modelo mais perfeito. S. Inácio de Loyola desenvolveu os Exercícios Espirituais precisamente para ajudar os fiéis a discernir o «Tu, segue-me» específico que Deus lhes dirige. Maria, que discerniu o chamamento do Pai com plena liberdade e plena clareza, na «indiferença» perante todos os caminhos humanos possíveis, é o modelo do exercitante que busca a vontade de Deus sem interferência dos «afectos desordenados» que S. Inácio tanto temia.
III. «Que te importa»?: o seguimento sem comparação
O Tu me sequere é radicalmente pessoal. Jo 21,22: «Que te importa»? (ti pros se). Esta resposta de Jesus a Pedro, que queria saber o destino do discípulo amado, é uma das mais libertadoras de todo o Evangelho: cada discípulo tem o seu caminho. A comparação com os outros é não apenas inútil mas prejudicial ao seguimento. O «tu» do «Tu, segue-me» é radical e irredutívelmente pessoal: é a este «tu» específico que o chamamento se dirige, com uma «forma» de seguimento que é única e inimitável.
A mariologia sempre resistiu à tentação de fazer de Maria um modelo a imitar literalmente: ela não é o modelo do celibato para todos (ela é virgem, mas a maioria dos cristãos é chamada ao matrimônio), nem o modelo da maternidade física para todos (ela é mãe do Filho de Deus, um privilégio único). Maria é o modelo do modo do seguimento, a entrega total, a obediência amorosa, a perseverança na fé, mas não necessariamente da sua forma concreta.
S. Teresinha do Menino Jesus captou esta distinção com a sua «via pequena»: ela que não tinha os dons de Teresa de Ávila nem a energia apostólica de Francisco Xavier encontrou o seu «Tu, segue-me» específico na pequeneza e na confiança filial. E descobriu em Maria não o modelo das grandes empresas espirituais, mas o modelo da fé simples e total que disse «fiat» sem compreender plenamente o que implicava. Esta descoberta, que a «grande santidade» passa pela «pequena via», é um dos frutos mais belos da contemplação mariana.
A diversidade das vocações na Igreja, que o Vaticano II afirmou com a doutrina da «vocação universal à santidade» (LG cap. V), tem em Maria o seu fundamento mariológico. Ela que foi chamada a um seguimento singular e irrepetível, ser a Mãe do Filho de Deus, é ao mesmo tempo o modelo de todo o seguimento singular e irrepetível: cada um é chamado a um «Tu, segue-me» específico que ninguém mais pode realizar. A mariologia, correctamente compreendida, não uniformiza as vocações, liberta-as: mostra que o único modelo que conta é o do «fiat» radical, qualquer que seja a forma concreta que o chamamento assume.
IV. «Apascenta as minhas ovelhas»: seguimento e serviço
O Tu me sequere abre-se necessariamente ao serviço. Jo 21,15-17 associa o «segue-me» ao mandato pastoral: Pedro que segue Jesus é também Pedro que «apascenta» as ovelhas de Jesus. O seguimento não é para o próprio discípulo, é para os outros. Quem «segue» Jesus recebe, na medida do seu chamamento, uma responsabilidade sobre os outros: pai ou mãe de família, pastor de comunidade, educador, médico, religioso. O «Tu, segue-me» é sempre acompanhado de alguma forma de «apascenta as minhas ovelhas».
Maria é, na tradição, o modelo supremo desta articulação entre seguimento e serviço. Ela que seguiu Jesus do «fiat» ao Calvário, que «pastoreou» o Filho nos trinta anos de Nazaré, que «pastoreia» agora os seus filhos espirituais pela intercessão, é o ícone da Pastora que segue o Pastor e continua o seu serviço. A sua maternidade espiritual não é separável do seu seguimento: é o fruto do seguimento, a expressão do «amar» que o tríplice «Tu me amas?» de Jo 21,15-17 pede.
A festa de Pentecostes, que se aproxima nos dias seguintes, é a celebração do «Tu, segue-me» dado ao mundo inteiro: o Espírito que desce sobre os discípulos reunidos com Maria é o Espírito que os equipa para o seguimento universal, para ir «até aos confins da terra» (Act 1,8) com o mesmo amor que os animava no Cenáculo. Maria, que estava presente no primeiro «equipa-te e segue», continua a estar presente em cada novo «Tu, segue-me» que o Espírito dirige a cada geração de cristãos.
A oração da Igreja, «Vem, Espírito Santo», é a oração do discipulado: o pedido de ser equipado para o seguimento que o Senhor propõe. E Maria que rezou esta oração no Cenáculo antes de Pentecostes é a intercessora mais qualificada para que o mesmo Espírito equipe cada cristão para o seu específico «Tu, segue-me». O seu «fiat» não foi apenas para ela, foi o «fiat» de toda a humanidade chamada ao seguimento de Cristo.
Maria, que disse «Tu, segue-me» com todo o seu ser na Anunciação, é o modelo do discipulado sem condições: a que seguiu Jesus do «fiat» ao Calvário e que intercede por todos os que são chamados ao seu próprio «Tu, segue-me».
Referências
- João Paulo II, Redemptoris Mater, n. 14-17 (1987).
- Concílio Vaticano II, Lumen Gentium, cap. V: «Vocação Universal à Santidade» (1964).
- S. Teresa do Menino Jesus, História de uma AlmaManuscrito B.
- S. Inácio de Loyola, Exercícios Espirituais, n. 169-189.
- R. Brown, The Gospel According to John, vol. II (1970).
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