A Virgem Maria, mãe do salvador

Mãe do Salvador: a Virgem Maria com o Menino Jesus

A Mãe do Salvador ocupa um lugar central na economia da salvação: «Parvulus enim natus est nobis, filius datus est nobis». «Um menino nos nasceu, um filho nos foi dado». (Is 9,5)

I. A luz que rompe as trevas: a profecia de Isaías

Esta dimensão ilumina o título mariano Mãe do Salvador na sua plenitude teológica.

O nono capítulo do livro de Isaías é um dos textos proféticos mais luminosos de toda a Escritura hebraica. Dirigido originalmente a um povo que caminhava nas trevas da opressão Assíria e do desespero político, o oráculo anuncia uma inversão radical: «O povo que caminhava nas trevas viu uma grande luz. Sobre os que habitavam na região da sombra da morte, uma luz resplendeceu» (Is 9,1). A luz de que fala Isaías não é uma metáfora vaga: é a luz de uma presença, a luz que irradia de um nascimento. «Porque um menino nos nasceu, um filho nos foi dado, e o principado está sobre os seus ombros. E será chamado Admirável, Conselheiro, Deus forte, Pai eterno, Príncipe da paz» (Is 9,5).

Os cinco títulos atribuídos ao filho nascituro formam um conjunto que a tradição cristã sempre leu como uma antecipação da revelação neotestamentária sobre a pessoa de Jesus Cristo. «Admirável» evoca a dimensão transcendente que excede toda a compreensão humana. «Conselheiro» designa a sabedoria divina que guia a história. «Deus forte» afirma a divindade do nascituro com uma clareza que raramente o Antigo Testamento alcança. «Pai eterno» revela a solicitude pastoral que caracterizará o seu reino. «Príncipe da paz» anuncia a shalom messiânica, a harmonia restaurada entre Deus e a criatura, entre o homem e o irmão. Maria, ao dar à luz este filho em Belém, deu ao mundo a realização de cada um destes títulos. Ela é a Mãe do Admirável, a Mãe do Conselheiro, a Mãe de Deus forte: é a Mãe do Salvador.

II. Da profecia ao recenseamento: Deus entra na história pelos seus caminhos

Esta dimensão ilumina o título mariano Mãe do Salvador na sua plenitude teológica.

A ironia providencial do Natal reside no facto de que o decreto do imperador Augusto, ordenando o recenseamento universal, se torna o instrumento pelo qual a profecia de Miqueas se cumpre: o Messias deve nascer em Belém. Augusto age por razões de administração fiscal e demonstração de poder. Deus usa o decreto imperial para conduzir Maria e José até à cidade de David. Esta articulação entre a história secular e a história sagrada não é uma coincidência: é a forma como Deus habitualmente actua na história, através das liberdades humanas e das contingências históricas, sem as manipular mas sem ser por elas condicionado.

Maria chega a Belém grávida. Não há lugar na hospedaria. O Filho de Deus nasce num estábulo, entre animais, nas condições mais marginais que a sociedade da época oferecia. Este paradoxo da condição de Deus que se faz pobre é o coração do mistério natalício: o «Deus forte» de Isaías envolto em faixas de bebé, o «Admirável» que não pode falar, o «Príncipe da paz» que chora como todo o recém-nascido. Maria abraça este paradoxo sem reserva: não argumenta com Deus sobre a conveniência do lugar, não lamenta as condições, mas envolve o Filho em faixas e coloca-o na manjedoura (Lc 2,7). O seu gesto é a resposta materna mais concreta e mais simples ao mistério mais desconcertante da história.

III. «Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens»

Esta dimensão ilumina o título mariano Mãe do Salvador na sua plenitude teológica.

O anúncio angélico aos pastores, que constitui o núcleo do relato lucano da Natividade, tem a estrutura de uma proclamação régia: o anjo anuncia o nascimento de um rei, identifica o lugar onde ele pode ser encontrado e oferece um sinal que permite reconhecê-lo. «Nasceu-vos hoje, na cidade de David, um Salvador, que é Cristo Senhor» (Lc 2,11). Os três títulos acumulados, Salvador, Cristo e Senhor, constituem uma confissão cristológica em miniatura: Salvador indica a função redentora, Cristo indica a unção messiânica, Senhor indica a dignidade divina. O sinal que permite reconhecê-lo é paradoxal: «Achareis um menino envolto em faixas, deitado numa manjedoura» (Lc 2,12). A glória real do Salvador manifesta-se na sua máxima humilhação humana.

O cântico angélico que se segue, «Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens que ele ama» (Lc 2,14), resume em dois membros a teologia do Natal. O primeiro membro orienta para cima: a Encarnação é um acto de glória divina, a manifestação mais plena da grandeza de Deus que, por amor, se abaixa até à condição humana. O segundo membro orienta para baixo: a Encarnação é o fundamento da paz humana, a reconciliação entre o Criador e a criatura que o pecado tinha rompido. E no centro destes dois movimentos, vertical e horizontal, encontra-se Maria: a mulher que recebe a glória de Deus no seu seio e entrega ao mundo o fundamento da paz. A Mãe do Salvador é a mulher que torna possível tanto a glória de Deus como a paz dos homens.

IV. Maria, mãe do salvador: o título que abraça toda a economia

A quinta Missa da Coletânea contempla Maria sob o título mais abrangente da economia salvífica: Mãe do Salvador. Este título não é apenas uma afirmação biológica sobre a relação de Maria com Jesus: é uma afirmação teológica sobre o lugar de Maria no projecto de Deus. Se o Filho de Deus veio ao mundo como Salvador, então a mulher que o trouxe ao mundo é necessariamente constitutiva do próprio acto salvífico. Não há Salvador sem Mãe do Salvador, não há Encarnação sem a que encarna, não há Natal sem a que deu à luz na noite de Belém.

A mariologia que emerge desta Missa é uma mariologia da maternidade salvífica. Maria não é apenas a mãe física de Jesus, mas a mãe do Salvador enquanto tal: ela coopera com a salvação não apenas ao dar à luz o Filho de Deus, mas ao educá-lo, ao acompanhá-lo, ao permanecer junto à sua cruz, ao aguardar no Cenáculo o dom do Espírito. A profecia de Isaías, ao proclamar «um filho nos foi dado», inclui na dádiva do filho a existência da mãe que o deu. Contemplar Maria como Mãe do Salvador é contemplar a maternidade divina na sua dimensão mais dinâmica e mais abrangente: não apenas o momento do nascimento, mas toda a vida de serviço que a precedeu e toda a intercepção maternal que se prolonga na glória.

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