Da escuta à visão, os olhos que contemplam o Filho

«Beati qui audiunt verbum dei»: Paulo, a mulher da multidão e Maria

Auditu auris audivi te: nunc autem oculus meus videt te.
Jó 42,5

A liturgia deste sábado da vigésima sexta semana do Tempo Comum, dia em que a Igreja no Brasil venera os santos André de Soveral e Ambrósio Francisco Ferro, presbíteros, Mateus Moreira e companheiros, mártires de Cunhaú e Uruaçu, reúne dois textos que falam de uma só realidade sob dois nomes. A primeira leitura fecha o livro de Jó com a confissão daquele que passou do ouvir ao ver, Jó 42,1-3.5-6.12-16. O evangelho, Lc 10,17-24, culmina no júbilo de Cristo diante dos pequeninos e na bem-aventurança dos olhos que contemplam. Entre a cinza do patriarca e a exultação do Filho corre um mesmo fio, o da visão concedida aos humildes. Os mártires potiguares, cujos nomes foram escritos no céu no sangue de 1645, tornam-se assim testemunhas vivas da última palavra do evangelho de hoje.

I. Do ouvir ao ver, a confissão de Jó

O livro de Jó não termina com uma explicação, mas com uma visão. Depois de capítulos inteiros de disputa, de amigos que argumentam e de um justo que reclama, Deus não oferece a Jó um sistema, oferece-se a si mesmo. E a resposta do patriarca é lapidar, Auditu auris audivi te: nunc autem oculus meus videt te, que traduzimos “conhecia o Senhor apenas por ouvir falar, mas, agora, eu o vejo com meus olhos” (Jó 42,5). A distância entre as duas cláusulas é toda a distância entre a religião herdada e a fé encontrada, entre o rumor e a presença, entre a doutrina recebida e o rosto contemplado. Jó não recebe respostas, recebe a Deus.

A confissão de Jó abre-se em três movimentos que a Vulgata regista com precisão. Primeiro o reconhecimento da onipotência e da onisciência divinas, Scio quia omnia potes, et nulla te latet cogitatio, “reconheço que podes tudo e que para ti nenhum pensamento é oculto” (Jó 42,2). Depois a acusação de si mesmo por ter falado do que ultrapassava a sua compreensão, insipienter locutus sum, “falei de coisas que não entendia” (Jó 42,3). Por último a penitência, ago pnitentiam in favilla et cinere, “faço penitência no pó e na cinza” (Jó 42,6). Só depois desta descida ao pó vem a restauração, os catorze mil rebanhos, os novos filhos, os cento e quarenta anos até à quarta geração. A bênção não precede a humildade, segue-a. Quem se retrata na cinza é quem recebe a herança dobrada.

II. A alegria dos nomes escritos no céu

O evangelho de hoje desloca a alegria do seu lugar aparente para o seu lugar verdadeiro. Os setenta e dois regressam eufóricos com o poder recebido, etiam dæmonia subjiciuntur nobis in nomine tuo, “até os demônios nos obedeceram por causa do teu nome” (Lc 10,17). Jesus confirma a vitória cósmica, Videbam Satanam sicut fulgor de cælo cadentem, “eu vi Satanás cair do céu, como um relâmpago” (Lc 10,18), e no entanto corrige imediatamente o objeto do gozo. Não a submissão dos espíritos, mas a inscrição dos nomes, gaudete autem, quod nomina vestra scripta sunt in cælis, “ficai alegres porque vossos nomes estão escritos no céu” (Lc 10,20). O poder é dom, mas a pertença é salvação. Vale mais ser conhecido por Deus do que dominar os demônios.

O centro do texto não é o poder dos discípulos, é a exultação do próprio Cristo. Lucas anota um gesto raro, In ipsa hora exsultavit Spiritu Sancto, “naquele momento, Jesus exultou no Espírito Santo” (Lc 10,21). O Filho jubila no Espírito e bendiz o Pai por uma pedagogia que inverte todas as expectativas, abscondisti hæc a sapientibus et prudentibus, et revelasti ea parvulis, “escondeste essas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos” (Lc 10,21). O conhecimento mútuo do Pai e do Filho não é conquista, é revelação gratuita, cui voluerit Filius revelare, “aquele a quem o Filho o quiser revelar” (Lc 10,22). E a conclusão volta ao verbo de Jó, o ver, agora em forma de bem-aventurança, Beati oculi qui vident quæ vos videtis, “felizes os olhos que veem o que vós vedes” (Lc 10,23).

III. A visão dada aos pequeninos

As duas leituras convergem num único ponto, a visão como graça reservada aos humildes. Jó só vê depois de descer à cinza. Os discípulos só veem porque são pequeninos e não sábios deste mundo. O que profetas e reis desejaram e não puderam contemplar, multi prophetæ et reges voluerunt videre quæ vos videtis, et non viderunt (Lc 10,24), é dado agora não à grandeza, mas à pequenez. A epígrafe de Jó e a bem-aventurança de Lucas dizem a mesma teologia, o olho que vê a Deus não é o olho do poderoso, é o olho do parvulus, do pequenino que se reconhece pó. A revelação não escala o monte da inteligência, desce ao vale da humildade.

Aqui se decide toda a condição do fiel diante do mistério. Não conhecemos a Deus por acumulação de argumentos, como os amigos de Jó, mas por rendição contemplativa, como Jó no fim. Não nos salvamos pelo domínio sobre as potências, como quase se enganaram os setenta e dois, mas por sermos amados e nomeados no céu. Não recebemos a revelação pela sabedoria que se afirma, mas pela pequenez que se abre. O salmo de hoje já o cantava, declaratio sermonum tuorum illuminat, et intellectum dat parvulis, “vossa palavra, ao revelar-se, me ilumina, ela dá sabedoria aos pequeninos” (Sl 118,130). O pequenino é o único lugar onde a luz cabe inteira.

IV. Maria, a pequenina que primeiro viu

Maria é a chave que decifra estas leituras, porque nela a pequenez que vê e a exultação no Espírito coincidem perfeitamente. Se o evangelho declara felizes os olhos que contemplam o Filho, nenhuns olhos o contemplaram antes e mais de perto do que os da Mãe que o gerou, o embalou e o seguiu até à cruz. Ela é a parvula por excelência, a serva de condição humilde a quem o Todo-Poderoso fez maravilhas, e por isso a primeira destinatária daquela revelação escondida aos sábios. O que Jó alcançou no termo de uma vida de provação, ver a Deus com os próprios olhos, Maria o recebeu na plenitude da encarnação, contemplando o rosto do Verbo feito carne no seu próprio colo.

A exultação de Cristo no Espírito Santo tem na Escritura um único precedente exato, o cântico da sua Mãe. Ao exsultavit Spiritu Sancto do Filho (Lc 10,21) responde, poucas páginas antes no mesmo evangelho, o exsultavit spiritus meus in Deo salutari meo de Maria (Lc 1,47). O mesmo verbo, a mesma alegria no Espírito, o mesmo louvor ao Pai que exalta os humildes e dispersa os soberbos. O Magnificat é a primeira exultação dos pequeninos, e o Filho apenas a retoma. Maria que ouviu a palavra do anjo e a conservou no coração, conservabat omnia verba hæc, conferens in corde suo (Lc 2,19), é o modelo daquele que passa do ouvir ao ver, da escuta obediente à visão beatificante. Nela os nomes escritos no céu ganham um rosto, porque foi a sua fé que abriu à humanidade o livro da vida. Contemplar com Maria é a única maneira de os nossos olhos serem contados entre os felizes.

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