Akáthistos: hino mariano do Oriente cristão

Akáthistos: hino mariano do oriente cristão

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(inclui o falso bloco «Magisterio da Igreja», cujas duas citacoes latinas nao existem nos documentos indicados). Fontes em fontes_akathistos.md. Ronda 1 adversarial Opus aplicada. –>

Χαῖρε, Νύμφη ἀνύμφευτε.
«Alegra-te, Noiva sem noivo» (refrão do hino Akáthistos)

O Akáthistos é o mais célebre hino mariano da tradição bizantina. O nome não é o título original, é uma rubrica: akáthistos quer dizer «não sentado», porque a Igreja manda cantá-lo de pé, como se ouve o Evangelho, em sinal de reverência. A Congregação para o Culto Divino chama-lhe «capolavoro di letteratura e di teologia», «obra-prima de literatura e de teologia», que «racchiude in forma orante quanto la Chiesa dei primi secoli ha creduto su Maria con consenso universale», «recolhe em forma de oração o que a Igreja dos primeiros séculos creu sobre Maria com consenso universal» (Diretório sobre a piedade popular e a liturgia, 2001, n. 207).

A estrutura do hino

O Akáthistos é um kontákion, a grande forma da poesia litúrgica bizantina, e cada uma das suas estrofes chama-se oikos, «casa». São vinte e quatro, e cada uma começa por uma letra do alfabeto grego, de alfa a ômega. Alternam estrofes longas e breves. As doze ímpares têm dezoito versos: cinco de introdução, doze saudações que começam por «Χαῖρε», «alegra-te», e o refrão «Χαῖρε, Νύμφη ἀνύμφευτε», «alegra-te, Noiva sem noivo». As doze pares têm seis versos e terminam com «Ἀλληλούϊα» (TONIOLO, 2015, p. 146, NIKOLAOU, 1988, p. 66). Ao todo são cento e quarenta e quatro saudações à Mãe de Deus, que São João Paulo II lembrava a quem o cantava: «Per ben 144 volte esso ci invita a rinnovare a Maria il saluto dell’Arcangelo Gabriele», «por cento e quarenta e quatro vezes nos convida a renovar a Maria a saudação do Arcanjo Gabriel» (JOÃO PAULO II, 2000, p. 1061).

O hino divide-se em duas partes de doze estrofes. A primeira é narrativa e segue o Evangelho da infância: a Anunciação, a visita a Isabel, as dúvidas de José, os pastores, os Magos, a estada no Egito e a apresentação no Templo. A segunda é teológica e contempla o mistério da Encarnação do Verbo e da nova criação (NIKOLAOU, 1988, p. 66).

O primeiro oikos

O primeiro oikos mostra a arte do hino. O anjo, enviado do céu, fica fora de si ao ver o Senhor tomar corpo e saúda a Virgem:

Χαῖρε, δι᾽ ἧς ἡ χαρὰ ἐκλάμψει· Χαῖρε, δι᾽ ἧς ἡ ἀρὰ ἐκλείψει. Χαῖρε, τοῦ πεσόντος Ἀδὰμ ἡ ἀνάκλησις· Χαῖρε, τῶν δακρύων τῆς Εὔας ἡ λύτρωσις. […] Χαῖρε, ἀστὴρ ἐμφαίνων τὸν ἥλιον· Χαῖρε, γαστὴρ ἐνθέου σαρκώσεως. […]
«Alegra-te, tu por quem a alegria resplandecerá. Alegra-te, tu por quem a maldição desaparecerá. Alegra-te, restauração de Adão caído. Alegra-te, resgate das lágrimas de Eva. […] Alegra-te, astro que faz aparecer o Sol. Alegra-te, ventre da encarnação de Deus […]» (Akáthistos, oikos 1, CMP IV/2, p. 516)

As saudações vêm aos pares, com rima e ritmo, e cada par opõe ou une duas imagens. Ao longo do hino, Maria é chamada, entre muitos outros títulos, «aurora do dia místico», «Χαῖρε, αὐγὴ μυστικῆς ἡμέρας» (oikos 9, CMP IV/2, p. 520), aquela por quem foi aberto o paraíso, «Χαῖρε, δι᾽ ἧς ἠνοίχθη παράδεισος» (oikos 15, p. 524), «proteção do mundo, mais ampla que a nuvem», «Χαῖρε, σκέπη τοῦ κόσμου πλατυτέρα νεφέλης» (oikos 11, p. 522), e «porto dos que navegam na vida», «Χαῖρε, λιμὴν τῶν τοῦ βίου πλωτήρων» (oikos 17, p. 525).

Data e autor

O autor é desconhecido. A maior parte dos manuscritos não traz nome, e uns poucos atribuem o hino a Romano, o Melode, ao patriarca Sérgio ou ao patriarca Germano (NIKOLAOU, 1988, p. 66). O editor Querci, cujo texto passou para a Patrologia Graeca, atribuía-o a Jorge de Pisídia (PG 92, 1333-1334), e por isso o hino se encontra no volume das obras deste poeta. Toniolo escreve que «l’opinione dei più quotati studiosi odierni è contro la paternità di Romano», «a opinião dos estudiosos mais conceituados de hoje é contra a autoria de Romano» (TONIOLO, 2017, p. 20), embora o Marienlexikon ainda dê peso aos argumentos a favor dele (NIKOLAOU, 1988, p. 66).

Quanto à data, as propostas mais aceitas situam-no entre meados do século V e o início do VI (TONIOLO, 2000, p. 105), e o Marienlexikon alarga até o início do VII (NIKOLAOU, 1988, p. 66). A estudiosa finlandesa Leena Mari Peltomaa situa a sua composição entre os concílios de Éfeso (431) e Calcedônia (451), porque a imagem de Maria no hino reflete a cristologia de Éfeso e não a de Calcedônia (PELTOMAA, 2001, p. 216). Ermanno Toniolo, que dedicou ao hino estudos de mais de quatro décadas, mostrou que ele depende literalmente de uma homilia de Basílio de Selêucia e situa-o depois de Calcedônia, entre a segunda metade do século V e as primeiras décadas do VI (TONIOLO, 2000, p. 105). O Diretório da Congregação para o Culto Divino resume: «la critica scientifica odierna propende a datarlo negli anni successivi al Concilio di Calcedonia», «a crítica científica de hoje inclina-se a datá-lo nos anos seguintes ao Concílio de Calcedônia» (Diretório, 2001, n. 207, nota 263).

O proêmio e o cerco de Constantinopla

Nos livros litúrgicos, o hino é precedido por uma estrofe célebre, que fala em nome da cidade de Constantinopla: «Τῇ ὑπερμάχῳ στρατηγῷ τὰ νικητήρια ὡς λυτρωθεῖσα τῶν δεινῶν εὐχαριστήρια ἀναγράφω σοι ἡ πόλις σου, θεοτόκε […]», «à Comandante que combate por nós, os troféus da vitória: libertada dos males, a tua cidade te escreve, ó Mãe de Deus, as ações de graças […]». O Sinaxário bizantino conta que o hino foi cantado de pé, por todo o povo, durante a noite em que Constantinopla se viu livre do cerco dos ávaros e dos persas, no tempo do imperador Heráclio, em 626, e lembra ainda duas libertações posteriores, dos árabes (PG 92, 1349-1354). Toniolo observa que este relato não é contemporâneo dos fatos e que o relato contemporâneo do cerco não fala de povo nem de clero a cantar hinos toda a noite (TONIOLO, 2000, p. 36-37).

Esta estrofe é posterior ao hino. O Marienlexikon liga-a ao cerco de 626 (NIKOLAOU, 1988, p. 66). Toniolo pensa que foi acrescentada numa das libertações lembradas pelo Sinaxário, «o dal patriarca Sergio o più probabilmente dal patriarca Germano», «ou pelo patriarca Sérgio ou, mais provavelmente, pelo patriarca Germano» (TONIOLO, 2017, p. 27).

Na liturgia bizantina

O hino entrou na liturgia oficial pelo menos a partir do século IX. É cantado inteiro nas matinas do sábado da quinta semana da Quaresma, que por isso se chama «sábado do Akáthistos». Nas quatro semanas anteriores é cantado por partes, seis estrofes de cada vez (NIKOLAOU, 1988, p. 66, TONIOLO, 2015, p. 137). É também cantado em muitas outras ocasiões e recomendado à piedade do clero, dos monges e dos fiéis (Diretório, 2001, n. 207), nas Igrejas gregas e eslavas.

No Ocidente

Por volta do ano 800, o hino foi traduzido para latim, provavelmente por Cristóvão, bispo de Olivolo, em Veneza, segundo o historiador G. G. Meersseman, que editou essa versão (MEERSSEMAN, 1958, p. 49-52, TONIOLO, 2015, p. 159). A partir daí espalhou-se pela Europa e influenciou a poesia mariana latina, sobretudo depois do século XI (NIKOLAOU, 1988, p. 67). Nos últimos decênios difundiu-se muito também entre fiéis de rito latino. O Diretório observa que «in anni recenti questo inno si è molto diffuso anche presso comunità e fedeli di rito latino», «nos últimos anos este hino difundiu-se muito também entre comunidades e fiéis de rito latino» (Diretório, 2001, n. 207).

O que os papas disseram

São João Paulo II citou o hino na carta Orientale lumen (1995), ao apresentar Maria como aquela que nos aponta a Luz do Oriente: «Maria, “sideris numquam decidentis Mater”, “mysticae diei aurora”, “gloriosi Solis oriens”, Orientale lumen nobis proponit», «Maria, “Mãe do astro que não se põe”, “aurora do dia místico”, “oriente do Sol de glória”, mostra-nos a Luz do Oriente» (AAS 87, 1995, p. 773). As duas primeiras expressões são do Akáthistos. A 8 de dezembro de 2000, celebrou-o em Santa Maria Maior e chamou-lhe «un cantico tutto centrato su Cristo, contemplato nella luce della sua Vergine Madre», «um cântico todo centrado em Cristo, contemplado na luz da sua Virgem Mãe» (JOÃO PAULO II, 2000, p. 1061).

Bento XVI, na exortação Verbum Domini (2010), pediu que se conheçam e difundam as antigas orações do Oriente cristão: «Ci riferiamo in particolare all’Akathistos e alla Paraklesis. Si tratta di inni di lode cantati in forma litanica, intrisi di fede ecclesiale e di riferimenti biblici, che aiutano i fedeli a meditare insieme a Maria i misteri di Cristo», «pensamos em particular no Akáthistos e na Paráklesis. São hinos de louvor cantados em forma de ladainha, repletos de fé eclesial e de referências bíblicas, que ajudam os fiéis a meditar com Maria os mistérios de Cristo» (Verbum Domini, n. 88).

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Referências

ALVAREZ CAMPOS, Sergio (ed.). Corpus Marianum Patristicum. Burgos: Ediciones Aldecoa, 1979. v. 4/2, p. 514-529.

BENTO XVI. Exhortatio apostolica postsynodalis Verbum Domini, 30 set. 2010. n. 88. In: Enchiridion Vaticanum. Bologna: EDB, 2012. v. 26, n. 2376, p. 1664-1665.

CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO E A DISCIPLINA DOS SACRAMENTOS. Direttorio su pietà popolare e liturgia, 17 dez. 2001. In: Enchiridion Vaticanum. Bologna: EDB, 2004. v. 20, n. 2656-2657, p. 1699-1700.

JOÃO PAULO II. Litterae apostolicae Orientale lumen, 2 maio 1995. Acta Apostolicae Sedis, Città del Vaticano, v. 87, 1995. n. 28, p. 773.

JOÃO PAULO II. Omelia nella celebrazione dell’Inno Akathistos, Basilica di Santa Maria Maggiore, 8 dez. 2000. In: Insegnamenti di Giovanni Paolo II. Città del Vaticano: Libreria Editrice Vaticana. v. 23/2, p. 1060-1061. Também em: Marianum, Roma, 2005, p. 403.

MEERSSEMAN, G. G. Der Hymnos Akathistos im Abendland. I: Akathistos-Akoluthie und Grusshymnen. Freiburg (Schweiz): Universitätsverlag, 1958.

MIGNE, Jacques-Paul (ed.). Patrologia Graeca. Paris: J.-P. Migne, [s.d.]. v. 92, col. 1333-1354.

NIKOLAOU, Theodor. Akathistos Hymnos, I: Orthodoxe Theologie. In: BÄUMER, Remigius e SCHEFFCZYK, Leo (ed.). Marienlexikon. St. Ottilien: EOS Verlag, 1988. v. 1, p. 66-67.

PELTOMAA, Leena Mari. The image of the Virgin Mary in the Akathistos hymn. Leiden: Brill, 2001.

TONIOLO, Ermanno M. Akathistos: saggi di critica e di teologia. Roma: Centro di Cultura Mariana «Madre della Chiesa», 2000.

TONIOLO, Ermanno M. Inno Akathistos alla Madre di Dio: edizione metrica. Marianum, Roma, v. 77, n. 187-188, p. 133-210, 2015.

TONIOLO, Ermanno M. Mistagogia dell’Akathistos: lettura trasversale. Marianum, Roma, v. 79, n. 1-2, p. 17-81, 2017.

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