Os anjos na Missa: do Glória ao Santo e à oração «Supplices»

Et ideo cum Angelis et Archangelis, cum Thronis et Dominationibus, cumque omni militia caelestis exercitus, hymnum gloriae tuae canimus, sine fine dicentes (Por isso, com os Anjos e os Arcanjos, com os Tronos e as Dominações, e com toda a milícia do exército celeste, cantamos o hino da vossa glória, dizendo sem cessar)
Missal Romano, fórmula de conclusão do Prefácio
Por que a liturgia da terra canta com os anjos e o que isso revela sobre Maria, Rainha dos Anjos
Meditação de Angeologia litúrgica a partir do Ordinário da Missa
Há uma frase que o fiel ouve em todas as Missas e quase nunca escuta. Antes do Santo, o sacerdote conclui o Prefácio dizendo que a assembleia canta «com os Anjos e os Arcanjos». Não se trata de uma imagem poética nem de uma cortesia para com o céu. É uma afirmação teológica: no momento em que a Igreja se aproxima do sacrifício, ela declara que não está sozinha e que a sua voz se junta a outra liturgia, mais antiga do que ela.
O Catecismo da Igreja Católica diz isso em uma linha: «Na liturgia, a Igreja associa-se aos anjos para adorar o Deus três vezes santo» (CIC 335). A Angeologia, por isso, não é um capítulo curioso da teologia, separado da vida do fiel. Ela entra na Missa por três portas, o Glória, o Santo e a oração do Cânon Romano que começa por Supplices te rogamus (Nós vos suplicamos). E cada uma dessas portas conduz, de modo discreto mas real, à Mãe do Senhor.
I. O Glória: o primeiro hino que a Igreja aprendeu dos anjos
O Glória não foi composto por um liturgista. As suas primeiras palavras foram cantadas pelos anjos sobre o recém-nascido de Belém: «Glória a Deus no mais alto dos céus, e paz na terra aos homens que ele ama» (Lc 2,14). O Catecismo lembra que esse canto «não cessou de ressoar no louvor da Igreja» (CIC 333). A tradição medieval tinha plena consciência disso. A estudiosa Gunilla Iversen mostra como o comentário carolíngio Quotiens contra se explicava o lugar do Glória logo no início da Missa, e que os tropos medievais convidavam o sacerdote a entoar o hymnum angelicum (hino angélico) (IVERSEN. Laus angelica. 2010, p. 97-102).
Convém não passar depressa pela cena de Lc 2. Os anjos cantam sobre um menino que acabou de ser envolvido em faixas e deitado numa manjedoura pelas mãos de sua mãe (Lc 2,7). O primeiro Glória da história ressoou, portanto, diante de Maria. Quando a Igreja o repete aos domingos, repete um canto que nasceu diante da Virgem e do seu Filho. O Glória não é decorativo: é memória do Natal dentro de cada Missa.
II. O Santo: a liturgia do céu entra no Cânon
O Santo vem do profeta Isaías. No Templo, Isaías viu os serafins que clamavam uns aos outros: «Santo, santo, santo é o Senhor dos exércitos, toda a terra está cheia da sua glória» (Is 6,3). O Apocalipse retoma o mesmo clamor diante do trono do Cordeiro (Ap 4,8). O beneditino Cipriano Vagaggini recorda que essa tríplice aclamação já era usada pelos judeus na liturgia da sinagoga, onde se chamava Kedushah (santificação), isto é, a santificação do nome de Deus (VAGAGGINI. Il senso teologico della liturgia. 1965, p. 337).
Ao colocar o Santo no coração da oração eucarística, a Igreja diz que a sua ação de graças se une à que os serafins oferecem no céu. Erik Peterson, no seu estudo clássico Das Buch von den Engeln (O livro dos anjos), dedicou o segundo capítulo a um comentário pormenorizado do Santo da anáfora alexandrina de São Marcos e da oração que o introduz, como base histórica e litúrgica da sua doutrina sobre os anjos (Erik Peterson: la presenza teologica di un outsider. 2012, p. 453). A Carta aos Hebreus já o anunciava ao fiel: vós vos aproximastes «da cidade do Deus vivo, da Jerusalém celeste, e de miríades de anjos em reunião festiva» (Hb 12,22). O Santo não é uma pausa musical: é o momento em que a assembleia confessa em voz alta onde de fato está.
III. A oração «Supplices»: o anjo que leva a oferta ao altar do alto
Depois da consagração, o Cânon Romano tem uma oração que surpreende quem a escuta com atenção. O sacerdote pede a Deus que mande levar a oferta «pelas mãos do vosso santo Anjo ao vosso altar sublime, à presença da vossa divina majestade»: iube haec perferri per manus sancti Angeli tui in sublime altare tuum (Missal Romano, Cânon Romano). Peterson considera esse texto a prova mais importante de que, na fé da Igreja, os anjos não apenas assistem à Eucaristia mas tomam parte na própria ação litúrgica. E mostra que a mesma ideia aparece na liturgia moçárabe, no testemunho galicano atribuído a São Germano de Paris e na liturgia de São Marcos, que pede que os dons sejam levados ao altar celeste «pelo ministério dos arcanjos» (PETERSON. The Angels and the Liturgy. 1964, p. 33-34).
A Escritura dá a esta oração a sua imagem. No Apocalipse, um anjo põe-se de pé junto ao altar com um turíbulo de ouro, e a fumaça do incenso sobe diante de Deus com as orações dos santos (Ap 8,3-4). Os Padres tiraram daí a convicção de que, durante a Missa, o santuário se enche de anjos. Vagaggini e Peterson reúnem três testemunhos: São João Crisóstomo escreve que, quando o sacerdote se aproxima do altar, «os anjos rodeiam o sacerdote, e todo o santuário e o espaço em volta do altar se enchem de coros celestes» (De sacerdotio VI, 4). Santo Ambrósio afirma que o anjo assiste quando Cristo está presente e é imolado. E São Gregório Magno pergunta que fiel poderia duvidar de que, na hora da imolação, os céus se abrem e os coros dos anjos estão presentes, e o terreno se une ao celeste (Dialogi IV, 58) (VAGAGGINI. Il senso teologico della liturgia. 1965, p. 337. PETERSON. The Angels and the Liturgy. 1964, p. 34). O beneditino explica o porquê com sobriedade: os anjos são a corte de Deus e estão presentes onde está o seu Rei, e de modo eminente no ato mais sublime que existe na terra.
IV. Maria, Rainha dos Anjos, e a liturgia que nos ensina a adorar
Se os anjos cantam o Glória sobre o Menino que Maria deu à luz, se clamam o Santo diante do mesmo Senhor que se fez carne no seu seio, se compreende por que a Igreja a invoca como Rainha dos Anjos. Não é um título de vaidade celeste. Nenhuma criatura esteve mais perto do mistério que os anjos adoram. Os anjos adoram o Verbo, Maria lhe deu um corpo. O Catecismo diz que a vida do Verbo encarnado, da Encarnação à Ascensão, foi «rodeada da adoração e do serviço dos anjos» (CIC 333). Essa vida começou nela.
Há aqui uma lição para o fiel que vai à Missa distraído. Jean Daniélou escreveu que os anjos estão realmente presentes no fundo da liturgia visível (DANIÉLOU. Bible et liturgie. 1958, p. 179). Isso muda o modo de entrar na igreja, de fazer o sinal da cruz, de responder ao Prefácio. Quem diz «Santo, santo, santo» está falando ao lado dos serafins. Maria, que guardava todas as coisas no coração (Lc 2,19), é a mestra dessa atenção: ela ouviu os pastores contarem o que os anjos tinham cantado e não deixou que a maravilha se perdesse. Quem canta com os anjos aprende, com ela, a adorar.
* * *
A Angeologia não nos afasta do altar: nos conduz a ele. O Glória, o Santo e a oração Supplices dizem ao fiel que a Missa é uma só liturgia do céu e da terra, e que a criatura mais próxima dessa liturgia é a Virgem que deu ao Verbo a carne que os anjos adoram. O Locus Mariologicus convida o leitor a viver a próxima Missa com esta consciência: a responder ao Prefácio como quem entra num coro, e a pedir a Maria, Rainha dos Anjos, a graça de adorar com o mesmo silêncio atento com que ela guardou o canto de Belém.
Prof. Dr. Daniel Cerqueira Afonso
Presidente do Locus Mariologicus
Roma, 22 de outubro de 2026
Referências principais
CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, nn. 333-335.
DANIÉLOU, Jean. Bible et liturgie: la théologie biblique des sacrements et des fêtes. Paris, 1958. (Lex Orandi, 11).
ERIK Peterson: la presenza teologica di un outsider. 2012.
IVERSEN, Gunilla. Laus angelica: poetry in the medieval mass. Edição de Jane Flynn, tradução de William Flynn. Turnhout: Brepols, 2010. (Medieval Church Studies, 5).
MISSALE ROMANUM. Prefácio e Cânon Romano (Supplices te rogamus).
PETERSON, Erik. The Angels and the Liturgy. Tradução de Ronald Walls. New York: Herder and Herder, 1964. Original: Das Buch von den Engeln. München: Kösel.
VAGAGGINI, Cipriano. Il senso teologico della liturgia: saggio di liturgia teologica generale. 4. ed. Roma: Edizioni Paoline, 1965.
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