Oração mariana: Maria orante e a oração da Igreja a Maria

Por Prof. Dr. Daniel C. Afonso · Atualizado em
Maria deinde est Virgo orans.
«Maria é, depois, a Virgem orante» (Paulo VI, Marialis cultus, n. 18)
A oração mariana tem duas dimensões que não se separam: Maria que reza, modelo da oração da Igreja, e a Igreja que reza a Maria. O Catecismo da Igreja Católica resume as duas numa frase: Possiamo pregare con lei e pregarla, «podemos rezar com ela e rezar a ela» (CIC 2679). O Concílio Vaticano II pediu a todos os filhos da Igreja ut cultum, praesertim liturgicum, erga Beatam Virginem generose foveant, «que promovam generosamente o culto, sobretudo litúrgico, para com a Bem-aventurada Virgem», e exortou teólogos e pregadores a evitar ab omni falsa superlatione, quemadmodum et a nimia mentis angustia, «tanto toda falsa exageração como uma excessiva estreiteza de espírito» (LG 67). Enzo Lodi traçou a síntese clássica do tema no verbete «Preghiera mariana» do Nuovo dizionario di mariologia (LODI, 1986, p. 1137-1147).
Maria, Virgem orante
Os Evangelhos guardam uma só grande oração de Maria, o Magnificat (Lc 1,46-55). Lodi observa que, de resto, se devem colher atitudes de oração, que talvez digam mais do que as fórmulas (LODI, 1986, p. 1139). Paulo VI, na Marialis cultus, traçou o retrato da Virgo orans a partir de três cenas.
A primeira é a Visitação, em que Maria eleva palavras de louvor, humildade, fé e esperança. O Magnificat, diz o Papa, est prex Mariae praecipua atque carmen temporis messianici proprium, «é a principal oração de Maria e o cântico próprio do tempo messiânico», e se tornou a oração comum de toda a Igreja em todos os tempos (MC 18). Maria canta a misericórdia de Deus, que ἐπέβλεψεν ἐπὶ τὴν ταπείνωσιν τῆς δούλης αὐτοῦ, «olhou para a humildade da sua serva», e que καθεῖλεν δυνάστας ἀπὸ θρόνων καὶ ὕψωσεν ταπεινούς, «derrubou os poderosos dos tronos e exaltou os humildes» (Lc 1,48.52).
A segunda é Caná. Maria diz ao Filho: «não têm vinho» (Jo 2,3). Paulo VI comenta que, cum blanda ac sollicita prece temporalem tantum necessitatem Filio ostendisset, obtinendae tamen gratiae supernae effectum habuit, «tendo apresentado ao Filho, com uma súplica suave e solícita, uma necessidade apenas temporal, obteve contudo um efeito de graça sobrenatural»: o primeiro sinal de Jesus, que confirmou a fé dos discípulos (MC 18). Jesus responde οὔπω ἥκει ἡ ὥρα μου, «ainda não chegou a minha hora» (Jo 2,4), e Maria diz aos serventes: «fazei o que ele vos disser» (Jo 2,5).
A terceira é o Cenáculo. Depois da Ascensão, os apóstolos ἦσαν προσκαρτεροῦντες ὁμοθυμαδὸν τῇ προσευχῇ σὺν γυναιξὶν καὶ Μαριὰμ τῇ μητρὶ τοῦ Ἰησοῦ, «perseveravam unânimes na oração, com mulheres e com Maria, a mãe de Jesus» (At 1,14). O Concílio vê aí Maria precibus suis implorantem donum Spiritus, qui in Annuntiatione ipsam iam obumbraverat, «implorando com as suas orações o dom do Espírito, que na Anunciação já a cobrira com a sua sombra» (LG 59). E Paulo VI conclui que Maria continua a rezar, etiam nunc, quando illa, tametsi est caelo recepta, non tamen officio suo deest deprecandi ac salvandi, «também agora, quando, embora elevada ao céu, não deixa a sua missão de interceder e salvar» (MC 18).
Na raiz de tudo está a Anunciação: «Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1,38). O Catecismo diz que este Fiat é a oração cristã, ser inteiramente para Deus, porque ele é inteiramente para nós (CIC 2617), e que Maria è l’Orante perfetta, figura della Chiesa, «é a Orante perfeita, figura da Igreja» (CIC 2679).
As primeiras orações a Maria
A Igreja lembrou Maria na oração desde muito cedo, primeiro na ação de graças a Deus. A oração eucarística da Tradição apostólica, atribuída a Hipólito de Roma, agradece ao Pai pelo Filho que misisti de caelo in matricem virginis quique in utero habitus incarnatus est et filius tibi ostensus est ex spiritu sancto et virgine natus, «enviaste do céu ao seio de uma virgem e que, trazido no ventre, se encarnou e se manifestou como teu Filho, nascido do Espírito Santo e da Virgem» (HIPÓLITO DE ROMA, [1946], p. 31). Corrado Maggioni nota que aqui o título Virgo aparece duas vezes, sem outros adjetivos, e que na oração da Igreja ele precede o de Mãe de Deus (MAGGIONI, 1993, p. 104-105).
A oração dirigida diretamente a Maria que se costuma ter pela mais antiga é o Sub tuum praesidium, conservado num papiro egípcio de data discutida, que a invoca como Θεοτόκε, «Mãe de Deus», e lhe pede proteção nos perigos (veja Sub tuum praesidium: a mais antiga oração a Maria). O Concílio ecoa as suas palavras ao dizer que desde os tempos mais antigos a Virgem é venerada sob o título de Mãe de Deus, sub cuius praesidium fideles in cunctis periculis et necessitatibus suis deprecantes confugiunt, «a cuja proteção os fiéis recorrem suplicantes em todos os seus perigos e necessidades» (LG 66).
Lodi observa que, na Antiguidade, a tendência era reservar as orações e saudações dirigidas diretamente à Virgem às partes líricas da liturgia, antífonas, responsórios e hinos, enquanto as orações propriamente ditas se dirigiam a Deus ou ao Filho (LODI, 1986, p. 1146).
As grandes antífonas e a Ladainha
Da Idade Média vêm as quatro grandes antífonas marianas que a Liturgia das Horas ainda propõe para o fim das Completas, ao lado do Sub tuum praesidium e de outras aprovadas pelas Conferências Episcopais. A Salve Regina saúda a Mãe de misericórdia: Salve, Regina, mater misericordiae, vita, dulcedo et spes nostra, salve. A Alma Redemptoris Mater a chama pervia caeli porta e stella maris. A Ave Regina caelorum a saúda como raiz e porta de onde nasceu para o mundo a luz. E a Regina caeli, no tempo pascal, a convida a se alegrar pela ressurreição do Filho (LITURGIA HORARUM, 2014).
No santuário de Loreto se cantavam ladainhas da Virgem já na primeira metade do século XVI, e o formulário que hoje chamamos lauretano está atestado ali em 1558, quando São Pedro Canísio o conheceu. Em 1587 Sisto V, numa bula dirigida aos Carmelitas Descalços, concedeu indulgência a quem rezasse a ladainha segundo o uso de Loreto, e com isso pôs esse formulário sob a tutela imediata do bispo de Roma (CALABUIG e PERRELLA, 2008, p. 133-137).
O sentido da oração mariana
A oração a Maria não termina em Maria. O Catecismo explica que nos inúmeros hinos e antífonas em que se exprime alternam dois movimentos: um «magnifica» il Signore per le «grandi cose» che ha fatto per la sua umile serva […], «engrandece o Senhor pelas “grandes coisas” que fez pela sua humilde serva […]», o outro affida alla Madre di Gesù le suppliche e le lodi dei figli di Dio, «confia à Mãe de Jesus as súplicas e os louvores dos filhos de Deus» (CIC 2675). Lodi aponta três razões de ser desta oração: é confissão de fé na Encarnação e na Redenção, é hino de louvor, porque in Maria si rende trasparente la fedeltà, la sapienza e la tenerezza del Padre, «em Maria se torna transparente a fidelidade, a sabedoria e a ternura do Pai», e exalta a mulher cuja vida foi um contínuo renovar do fiat redentor, e por isso leva a imitá-la nas virtudes evangélicas, sobretudo l’ascolto della parola nella fede, «a escuta da palavra na fé» (LODI, 1986, p. 1146).
Paulo VI lembrou que a devoção a Maria está inserida no único culto cristão, que vem de Cristo, nele encontra a sua expressão plena e por ele conduz ao Pai no Espírito (MC, Introdução). E o Concílio recordou aos fiéis que a verdadeira devoção neque in sterili et transitorio affectu, neque in vana quadam credulitate consistere, sed a vera fide procedere, «não consiste num afeto estéril e passageiro, nem numa vã credulidade, mas procede da verdadeira fé» (LG 67). Rezar com Maria e rezar a Maria é entrar na oração de quem melhor escutou a palavra de Deus.
Referências
CALABUIG, Ignazio M. e PERRELLA, Salvatore M. Le litanie della Beata Vergine: storia, teologia, significato. Marianum, Roma, v. 70, n. 173-174, p. 103-202, 2008.
CATECHISMO DELLA CHIESA CATTOLICA. [Città del Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 1992]. n. 2617, 2675, 2679.
CONCÍLIO VATICANO II. Constitutio dogmatica Lumen gentium, n. 59, 66, 67. Acta Apostolicae Sedis, Città del Vaticano, v. 57, p. 62, 65-66, 1965.
HIPÓLITO DE ROMA. La Tradition apostolique. Texto latino, introdução, tradução e notas de B. Botte. Paris: Éditions du Cerf, [1946]. (Sources Chrétiennes, 11). p. 31.
LITURGIA HORARUM iuxta ritum Romanum. Editio typica altera. Città del Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 2010. Edição digital. Varazze: Breviario Digitale, 2014. t. I, p. 570, t. II, p. 878-879.
LODI, Enzo. Preghiera mariana. In: DE FIORES, Stefano e MEO, Salvatore (org.). Nuovo dizionario di mariologia. 2. ed. Cinisello Balsamo: Edizioni Paoline, 1986. p. 1137-1147.
MAGGIONI, Corrado. «Intemerata virginitas edidit Salvatorem»: la verginità di Maria nel Missale Romanum. Marianum, Roma, v. 55, p. 99-181, 1993.
NESTLE-ALAND. Novum Testamentum Graece. 28. ed. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 2012.
PAULO VI. Adhortatio apostolica Marialis cultus, Introdução e n. 18. Acta Apostolicae Sedis, Città del Vaticano, v. 66, p. 113-168, 1974.
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