A alegria do céu sobre um só pecador que se converte

«Regnum dei intra vos est»: Paulo, o reino oculto e Maria

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Ita, dico vobis, gaudium erit coram angelis Dei super uno peccatore pœnitentiam agente.
Lc 15,10

A liturgia da quinta-feira da 31ª semana do Tempo Comum coloca diante de nós duas contabilidades divergentes que, no fim, convergem numa só alegria. De um lado, o apóstolo Paulo, em Fl 3,3-8a, faz o balanço da própria vida e lança na coluna das perdas tudo aquilo que a carne julgava lucro. Do outro, o Senhor, em Lc 15,1-10, ensina a aritmética do pastor e da mulher que abandonam o cálculo prudente e correm atrás do que se perdeu. O salmo responsorial, Sl 104(105), fornece o tom, Quærite Dominum, et confirmamini, buscai o Senhor e sereis fortalecidos. Buscar e ser buscado. Perder para ganhar. Toda a página de hoje repousa sobre esta troca que é o coração do Evangelho.

I. O balanço de Paulo, perder tudo para ganhar a Cristo

Paulo escreve aos Filipenses como quem apresenta um livro-razão e, ao apresentá-lo, o rasga. O apóstolo enumera primeiro os seus títulos com precisão implacável, circumcisus octavo die, ex genere Israël, de tribu Benjamin, Hebræus ex Hebræis, circuncidado ao oitavo dia, da raça de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu filho de hebreus (Fl 3,5). Nada aqui é pequeno. Rito, linhagem, tribo, observância, zelo, justiça segundo a Lei, tudo compõe o currículo de um homem irrepreensível diante dos homens. E é precisamente sobre esse patrimônio que Paulo pronuncia a sentença mais dura, quæ mihi fuerunt lucra, hæc arbitratus sum propter Christum detrimenta, o que eram para mim lucros, considerei-os como perdas por causa de Cristo (Fl 3,7). A palavra grega que ele usa no versículo seguinte é ainda mais violenta, σκύβαλα (skýbala), refugo, esterco, aquilo que se lança fora. Não se trata de menosprezar bens maus. Trata-se de reordenar bens verdadeiros diante de um bem incomparável.

O ponto de Paulo não é a renúncia como ascese, mas a renúncia como conhecimento. Propter eminentem scientiam Jesu Christi Domini mei, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor (Fl 3,8). O verbo que rege toda a passagem é contábil, arbitror, eu calculo, eu avalio. A conversão é, antes de tudo, uma reavaliação do que vale. Aquele que encontrou a pérola não empobrece ao vender tudo, enriquece. Paulo não perdeu a sua história, ele a colocou nos ombros de Cristo, como o pastor colocará a ovelha. E é este mesmo movimento, do lucro que se descobre perda e da perda que se revela lucro, que a página evangélica traduzirá em imagens.

II. O pastor e a mulher, a busca que não calcula

O capítulo quinze de Lucas abre com um escândalo e responde com duas parábolas. O escândalo está formulado no murmúrio dos fariseus e dos escribas, Quia hic peccatores recipit, et manducat cum illis, este acolhe os pecadores e come com eles (Lc 15,2). A mesa, sinal de comunhão, torna-se acusação. Jesus não se defende com um argumento, responde com uma história, e a história inverte a lógica dos acusadores. O pastor que tem cem ovelhas e perde uma não protege a maioria, arrisca-se pela minoria de um só, nonne dimittit nonaginta novem in deserto, et vadit ad illam quæ perierat, donec inveniat eam, não deixa as noventa e nove no deserto e vai atrás da que se perdeu até encontrá-la (Lc 15,4). O advérbio latino donec, até, mede a obstinação do amor. A busca não tem cláusula de desistência.

A segunda parábola dobra a primeira e a completa. A mulher que perde uma das dez dracmas acende a lâmpada, varre a casa e procura com cuidado, quærit diligenter, donec inveniat, busca diligentemente até encontrar (Lc 15,8). O pastor sai para o deserto, a mulher volta-se para dentro de casa. Um busca no descampado, a outra à luz da lâmpada. Não são dois quadros repetidos, mas duas faces de um único rosto de Deus, que procura tanto no que se afastou para longe quanto no que se perdeu por perto. E em ambas a conclusão é idêntica e desconcertante, a festa. Congratulamini mihi, quia inveni ovem meam, alegrai-vos comigo, encontrei a minha ovelha (Lc 15,6). O que se perde custa. O que se reencontra transborda. O céu não mede a alegria pela quantidade, mede-a pelo reencontro. Por isso a sentença do Senhor, gaudium erit coram angelis Dei super uno peccatore pœnitentiam agente, haverá alegria diante dos anjos de Deus por um só pecador que se converte (Lc 15,10).

III. A conversão como reencontro, síntese das leituras

As duas leituras dizem, de dois ângulos, uma só verdade sobre a graça. Paulo mostra o pecador que se deixa encontrar, Lucas mostra o Deus que o procura. O apóstolo é a ovelha que aceita ser carregada, é a dracma que se deixa achar à luz da lâmpada acesa a caminho de Damasco. Aquilo que ele chama de perda, o refugo dos seus títulos, é exatamente o peso morto que o pastor tira dos seus ombros para que caiba ali a criatura viva. A palavra que o Evangelho grava é μετάνοια (metánoia), conversão, mudança da mente inteira, e é essa mesma mudança que Paulo executa quando troca a coluna dos lucros pela coluna das perdas. Converter-se não é somar méritos, é deixar-se encontrar.

Há uma terceira voz que sela a síntese, a do salmo. Mementote mirabilium ejus quæ fecit, lembrai-vos das maravilhas que ele fez (Sl 104,5). A memória das obras de Deus é o antídoto contra a confiança na carne que Paulo denuncia e contra o murmúrio dos justos que se julgam sem necessidade de conversão. Quem se lembra do que Deus fez não calcula os próprios títulos, exulta. A alegria do céu não é um prêmio distante, é já a atmosfera de quem foi buscado e se deixou achar. Não a euforia dos que nunca se perderam, mas o júbilo dos que foram reencontrados.

IV. Maria, a que nunca se perdeu e busca conosco

Maria é a chave de leitura de um capítulo em que ela não é nomeada, porque ela é ao mesmo tempo a única ovelha que nunca precisou de ser buscada e a mulher que, na casa da Igreja, varre o chão para reencontrar o que se perdeu. A tradição leu na mulher das dez dracmas uma figura da Igreja e, no coração da Igreja, da Virgem que procura os filhos dispersos. Ela é Regina Angelorum, Rainha dos Anjos, e a alegria que se ergue coram angelis Dei, diante dos anjos de Deus (Lc 15,10), tem nela a primeira e mais pura ressonância. Onde os anjos exultam por um pecador que volta, a Mãe dos anjos exulta primeiro.

A aplicação, porém, é ainda mais funda quando a lemos com Paulo. Aquilo que o apóstolo faz por conversão, contar como perda tudo para ganhar a Cristo, Maria o viveu por plenitude de graça desde o primeiro instante. Ela é a criatura em quem nada jamais foi σκύβαλα, refugo, porque nela nada jamais competiu com Cristo. Concebida sem pecado, é a ovelha das noventa e nove que não vagueou, e no entanto é ela quem melhor compreende a festa pela centésima, porque foi feita Mãe justamente dos que se perderam. A Imaculada não guarda a sua integridade como um tesouro para si, oferece-a como caminho para os que voltam. Ao pé da cruz, quando recebe João e nele a Igreja inteira, Maria torna-se a lâmpada acesa que a mulher da parábola segura, luz que varre a casa do mundo à procura das dracmas caídas. Buscar com ela, deixar-se encontrar por Cristo, contar tudo como perda para ganhá-lo. Nisto se resume a liturgia de hoje, e nisto Maria vai adiante, primeira dos reencontrados e companheira de toda busca.

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