Maria na Bíblia — Do Génesis ao Apocalipse
Maria na Bíblia — Do Génesis ao Apocalipse
O fundamento da Mariologia é bíblico. Os testemunhos do Novo Testamento sobre a mãe de Jesus, lidos em ordem cronológica, permitem ver como os autores inspirados foram tomando consciência da pessoa e do papel de Maria no arco de toda a história salvífica: primeiro nas suas prefigurações veterotestamentárias, depois na sua missão materna em relação a Cristo e à Igreja.
Paulo — O primeiro testemunho mariano do NT
A primeira referência mariana do Novo Testamento encontra-se em Gál 4,4 (c. 49-57 d.C.): “Quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a Lei.” A menção de Maria é discreta, quase incidental, mas enormemente densa. “Nascido de mulher” situa Maria como mediadora da encarnação do Filho de Deus no ceppo da humanidade. A “plenitude dos tempos” é a etapa definitiva do plano redentor: Cristo é o ponto ômega. Exatamente nesse vértice do plano salvífico está colocada Maria, que reveste o Filho do Pai com a nossa carne e o nosso sangue (cf. Heb 2,14). Gál 4,4 é apenas o germe inicial da doutrina mariana, desenvolvida pelos outros livros do NT.
Marcos — Maria e a verdadeira família de Jesus
Marcos refere a mãe e os irmãos de Jesus em Mc 3,20-21.31-35: chegam para “tomá-lo”, porque “está fora de si”. Jesus responde: “Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, irmã e mãe.” A exegese moderna mostra que este texto não é “antimariano”. Marcos descreve a fase inicial da fé de Maria, uma mãe humanamente solicita pelas sortes do filho. A intenção do evangelista é mais profunda: nem mesmo o parentesco carnal com o Senhor é título suficiente para o seguir com as devidas disposições. Para ser verdadeiro familiar de Jesus, é preciso “fazer a vontade de Deus” (Mc 3,35). Lucas precisará que Maria percorreu este caminho exemplarmente.
Mateus — A genealogia e a conceção virginal
Mateus abre o seu evangelho com a genealogia de Jesus (Mt 1,1-17), notável pela presença de quatro mulheres: Tamar, Raab, Rute e Betsabea. Estas mulheres, cada uma à sua maneira, realizaram gestos providenciais para as sortes de Israel. Mateus sugere assim que a conceção de Jesus por Maria representa a novidade absoluta a que elas apontavam. A genealogia culmina no v. 16 de modo singular: não “José gerou Jesus”, mas “José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, chamado Cristo.” A conceção virginal, operada pelo Espírito Santo (Mt 1,18.20), é a “nova criação”: Jesus é o novo Adão, e o seio de Maria é a nova terra virgem da qual o Espírito plasma o cabeça da nova humanidade. Mateus relê Is 7,14 à luz do cumprimento: “Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho” (Mt 1,22-23).
Lucas — Da Anunciação a Pentecostes
Lucas é o evangelista mariano por excelência. A Anunciação (Lc 1,26-38) apresenta Maria como a “filha de Sião”: o anúncio do anjo retoma os oráculos proféticos de alegria dirigidos a Jerusalém (Sof 3,14-17. Zc 2,14-15), que o evangelista transfere para a pessoa da Virgem. Em Maria de Nazaré Deus realiza antecipadamente as promessas feitas a Abraão e à sua descendência (Lc 1,49a.54-55). Na Visitação, Maria leva Cristo a Isabel e a João, tornando-se o modelo de toda a missão cristã. O Magnificat é a sua resposta orante, síntese da espiritualidade dos pobres de Israel.
Na infância, Lucas sublinha a fé meditativa de Maria: “conservava todas estas coisas no seu coração” (Lc 2,19.51). Os Padres viram nesta expressão a fonte apostólica para os acontecimentos da génese humana de Jesus. A profecia de Simeão aponta para o drama da missão do Filho: “uma espada traspassará a tua alma” (Lc 2,35). Em At 1,14, Maria está presente no Cenáculo com os apóstolos aguardando Pentecostes: a Anunciação e Pentecostes partilham a mesma linguagem do Espírito que “desce sobre” e da “força do Altíssimo”, mostrando que Maria e a Igreja são percorridas pelo mesmo dinamismo pneumático.
João — Caná e a Cruz
João recorda Maria apenas duas vezes, mas em momentos axiais: as bodas de Caná (Gv 2,1-12) e o Calvário (Gv 19,25-27). Estes dois episódios formam uma grande inclusão: em ambos Maria é chamada “mulher” pelo Filho, e a “hora” de Jesus, ainda não chegada em Caná, chega na Cruz.
Em Caná, Maria intercede: “Não têm mais vinho.” A resposta de Jesus (“Que tenho eu contigo, mulher? A minha hora ainda não chegou”) não é uma recusa, mas um adiamento do sinal. Maria diz aos servos: “Fazei o que ele vos disser” (Gv 2,5), palavras que constituem o programa de toda a vida cristã. O primeiro sinal de Jesus suscita a fé incipiente dos discípulos. Ao terminar o episódio, Maria, os irmãos e os discípulos formam um só grupo em torno de Jesus: a comunidade messiânica unida na fé.
Na Cruz (Gv 19,25-27), Ges Jesus diz à mãe: “Mulher, eis o teu filho”, e ao discípulo: “Eis a tua mãe.” Esta cena usa o “esquema de revelação” típico da linguagem profética: um enviado de Deus “vê” uma pessoa e “diz” algo solene sobre a sua missão. Ao chamar Maria de “mulher”, Jesus evoca as profecias sobre Jerusalém-mãe dos filhos dispersos (Is 60,4). Na nova aliança selada na Páscoa, Maria personifica a nova Jerusalém-mãe: é constituída mãe espiritual de todos os discípulos de Jesus, figurados no discípulo amado. “Aqui está o fundamento bíblico do título Maria mãe da Igreja.”
Apocalipse 12 — A Mulher vestida de sol
A “grande visão” do Apocalipse (Ap 12) mostra uma Mulher “vestida de sol, com a lua sob os pés e uma coroa de doze estrelas na cabeça”, em dores de parto, perseguida pelo dragão. A exegese contemporânea vê na “Mulher” principalmente a Igreja. Povo de Deus de ambos os Testamentos: ela gera o Messias nos dolores da história e é perseguida por Satanás. Mas a “extensão mariológica” é legítima: Maria, que na Cruz estava presente no momento em que Jesus “passava deste mundo para o Pai” (Gv 19,25-27), corresponde à Mulher em angústia de parto. Maria, “cheia de graça” (Lc 1,28), é também a “parturiente de Belém” que gera o Messias. Na Mulher coroada de estrelas, a fé vê tanto a Igreja peregrina como aquela que, na Assunção, já atingiu o destino escatológico de todo o Povo de Deus.
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