A literatura joânica, a mais tardia e madura do Novo Testamento, é particularmente rica em reflexão teológica. Nela, mais do que em qualquer outro lugar, a narrativa está a serviço da mensagem. Isso não significa que os escritos joânicos não abordem a história, mas sim que trata-se de uma história “simbólico-sacramental” que ao mesmo tempo esconde e revela realidades altamente espirituais.Na humildade dos acontecimentos deste mundo, a divindade fez sua entrada (“
a Palavra se fez carne“) e a realidade foi investida e transfigurada pela glória de Deus. Eventos, ações, gestos e personagens apresentam uma forte orientação cristológica: eles estão a serviço da revelação do Filho de Deus. Nesta luz, também deve ser considerada a figura de Maria.A tradição joânica, ao contrário do que ocorre em Lucas, é bastante sóbria, quantitativamente, em relação a Maria: fala dela apenas no início (em Cana) e no final do Evangelho (junto à Cruz) e indiretamente em Apocalipse 12. Mas, pelo menos no que diz respeito ao Evangelho, pode-se dizer que a quantidade é inversamente proporcional à qualidade: nos dois episódios, de Cana e da Cruz, atingimos o auge da reflexão sobre Maria no Novo Testamento. Ela não é mais apenas a fiel e a mãe de Jesus, mas, precisamente por ser fiel e mãe, é colocada no início e no final do Evangelho, a serviço da fé e da vida dos discípulos do Senhor. Dessa forma, ela está diretamente e de maneira única envolvida com a pessoa e a obra do Filho.João 2,1-11 é um trecho que tem sido estudado ao longo do tempo, mas ainda guarda riquezas misteriosas, quase inesgotáveis. É um episódio fundamental não apenas para a compreensão da figura de Maria, mas principalmente para adentrar no cerne do Evangelho de João, em sua mensagem e, em particular, em sua cristologia. Após o capítulo inicial crucial, que inclui o Prólogo hino (1,1-18) e o prólogo narrativo (1,19-51) com o testemunho de João Batista sobre Jesus e a chamada dos primeiros discípulos (tudo marcado por uma sequência precisa de dias e horas, importantes para o evangelista), logo no capítulo seguinte, encontramos a presença da mãe de Jesus. O episódio de Caná não diz respeito primeiramente a Maria, embora ela esteja profundamente inserida nele. Pelo contrário, justamente por estar “incrustada” na revelação do mistério de Jesus, entre grandiosas realidades teológico-salvíficas, a figura da Virgem adquire um relevo singular. Isso se torna mais evidente quando comparamos a cena de Caná com aquela de Maria junto à cruz.Como “
mulher“, Maria tem uma missão, em continuidade com a antiga Filha de Sião, a serviço de todo o povo de Deus, mas isso se tornará mais claro na cena do Calvário. A mãe de Jesus, finalmente, por sua fé, é a primeira dos discípulos do Senhor, daqueles que, ao receberem a palavra de Jesus, constituem a comunidade da nova aliança. Ela, junto com os discípulos que se tornaram fiéis, é a verdadeira esposa d’Aquele que, para além dos símbolos, é o esposo da igreja e da humanidade: Jesus, o Verbo de Deus feito carne.Regarding Mary’s role at the Wedding of Cana and her maternal intercession, refer to Pope John Paul II’s Encyclical
Redemptoris Mater.
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