Origen de Nuestra Señora de las Dolores

Origem da Nossa Senhora das dores

A liturgia celebra Nossa Senhora das Dores duas vezes por ano: em 15 de setembro, imediatamente após a Exaltação da Santa Cruz, e, até à reforma de Pio XII, numa segunda festa em março, na proximidade da Semana Santa. Esta duplicidade é frequentemente ignorada: a devoção às Dores de Maria não nasceu de um único impulso, mas de duas tradições teológicas distintas, surgidas em contextos históricos diferentes. A primeira remonta ao século XIII e à fundação da Ordem dos Servitas em Florença. A segunda enraiza-se no universo poético e litúrgico do Stabat Mater e na meditação escolástica sobre a compaixão de Maria no Calvário.

Nossa Senhora das Dores, ícone com as sete espadas

As sete cenas da co-participação de Maria no caminho redentor: da profecia de Simeão (Lc 2,34-35) à deposição no sepulcro

A piedade católica identificou sete cenas da vida de Maria em que a sua alma foi transpassada pelo sofrimento. Cada uma delas é um mistério de co-participação no caminho redentor do Filho:

  1. A profecia de Simeão (Lc 2,34-35). No Templo de Jerusalém, o ancião toma o Menino nos braços e profetiza a Maria: «Uma espada transpassará a tua própria alma». A dor começa como palavra antes de se cumprir como realidade.
  2. A fuga para o Egipto (Mt 2,13-15). José é avisado em sonho: Herodes quer matar o Menino. A Sagrada Família parte de noite para um exílio cujo fim desconhece, como todo o exilado que confia mais em Deus do que no regresso.
  3. A perda de Jesus em Jerusalém (Lc 2,41-50). Durante a peregrinação pascal, Jesus fica no Templo sem avisar os pais. Maria passa três dias à procura do Filho, numa angústia que prefigura os três dias do sepulcro.
  4. O encontro no caminho do Calvário. A tradição contempla o encontro de Maria com Jesus a carregar a Cruz. O Evangelho não o descreve, mas a piedade cristã sempre o reconheceu como um dos instantes mais dilacerantes da Paixão.
  5. A crucifixão e morte de Jesus (Jo 19,25-27). Maria permanece de pé junto à Cruz. Jesus entrega-lhe o discípulo amado como filho. É o cumprimento da profecia de Simeão e o nascimento da maternidade espiritual de Maria para todos os fiéis.
  6. A descida da Cruz. Maria recebe nos braços o corpo de Jesus morto. Este momento, que a arte cristã imortalizou na Pietà de Miguel Ângelo, sintetiza toda a dor materna num gesto de adoração silenciosa.
  7. A sepultura de Jesus (Jo 19,38-42). Maria acompanha a deposição do Filho no sepulcro. Fica sozinha com a fé, no silêncio do Sábado Santo, aguardando o que ainda nenhuma criatura viu.

Da devoção medieval às cinco espadas (séc. XI) à instituição dos servitas e à festa litúrgica no calendário tridentino

A devoção à Virgem das Dores desenvolveu-se a partir do final do século XI, com uma primeira menção às celebrações das suas cinco dores, simbolizadas por cinco espadas, que antecedem a celebração litúrgica instituída mais tarde. No século XII, também em consequência de aparições da Virgem, este culto cresceu e surgiu o Stabat Mater, atribuído a Jacopone da Todi. Inicialmente, o culto à Virgem das Dores estava estreitamente ligado à Semana Santa. Por isso, especialmente nos países do Mediterrâneo, as imagens de Nossa Senhora das Dores são levadas em procissão durante os dias da Semana Santa.

Os Servitas, a Ordem dos Servos de Maria fundada em Florença em 1233 por sete nobres toscanos, foram os principais promotores desta devoção. Em 18 de agosto de 1714, a Sagrada Congregação dos Ritos concedeu à Ordem que a «Comemoração solene dos sete Dores da Bem-aventurada Virgem Maria» fosse celebrada em toda a Ordem na sexta-feira da Paixão. Em 22 de abril de 1727, o Papa Bento XIII estendeu a festa dos sete Dores a toda a Igreja Latina. Com a reforma litúrgica de Pio X, a festa foi fixada em 15 de setembro, data em que já era celebrada no rito ambrosiano. O calendário de 1969 manteve esta data, designando o dia como «Nossa Senhora das Dores».

A pietà, as sete espadas e o stabat mater: iconografia e devoção popular nas tradições ibérica e flamenga

A devoção às sete Dores de Maria inspirou uma das tradições artísticas mais ricas da Igreja Ocidental. Na iconografia, Maria é representada com o coração transpassado por sete espadas, em referência à profecia de Simeão. Na escultura ibérica da Semana Santa, a «Dolorosa» apresenta-se com lágrimas de cristal, vestes de luto e as mãos postas em oração. Em Reggio Calabria, Jesus e Maria são representados por duas grandes estátuas carregadas nos ombros ao longo de dois itinerários diferentes. Quando se encontram numa curva da rua, ergue-se das duas fileiras um coro de lamentos e orações para evocar a dor de Maria ao encontrar Jesus no caminho do Calvário. Em El Salvador, na Sexta-feira Santa, homens e mulheres vestidos de luto seguem em procissão a imagem de Nossa Senhora das Dores para adorar Jesus Crucificado.

Na escultura devocional, Francisco Salzillo representou Nossa Senhora das Dores de joelhos, com os braços abertos e o coração transpassado por sete espadas. Na cripta do santuário da Madonna do Divino Amor em Roma, o grupo escultórico mostra Nossa Senhora das Dores ajoelhada a secar o sangue de Jesus descido da Cruz, enquanto olha para o peregrino e o convida a unir-se a ela nesse piedoso ministério. No plano musical, compositores como Pergolesi, Vivaldi, Haydn, Schubert e Dvořák compuseram versões do Stabat Mater, a sequência medieval que medita verso a verso as dores de Maria ao pé da Cruz.

O significado teológico das sete dores: Maria Corredentora, o stabat Mater e a festa de 15 de setembro

Nossa Senhora das Dores não é apenas um título devocional. Expressa uma lógica teológica precisa: a sua dor não foi passiva, mas activa, porque nasceu do amor. É por isso que a tradição a chama Corredentora, título que não a equipara a Cristo, mas sublinha a singularidade da sua co-participação no mistério da Cruz.

A festa de 15 de setembro, colocada imediatamente após a Exaltação da Santa Cruz (14 de setembro), tem uma lógica contemplativa precisa: depois de contemplar o mistério da Cruz, a Igreja contempla a Mãe que permaneceu de pé junto a ela. As duas festas formam uma única meditação sobre o coração do mistério cristão.

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