# Partilha da senhoria e realeza de DeusNa narrativa dramática das intervenções divinas na história para restaurar o diálogo com suas criaturas, na revelação progressiva do misterioso plano eterno de salvação que converge tudo para seu cumprimento em Jesus Cristo, ressoa às vezes o anúncio alegre e libertador: «O Senhor reina» (Ex 15,18; Ap 12,10). Em um momento absolutamente único e decisivo do desdobramento desse desígnio, eis que no céu, verdadeira «estrela da manhã», a figura real de uma «Mulher nova» é desenhada pelo Pai, escoltada pelo Verbo, entregue ao Espírito de santidade, feita «cheia de graça», capaz de operar em sinergia com Deus para a reparação e restauração universal visando o aperfeiçoamento da aliança: a comunhão de vida com Deus, objetivo último da própria criação.A imagem do «Sol da justiça» toma dela a vestimenta de sua humanidade e como Rei-Salvador redime, regenera, reintegra na dignidade original as filhas e os filhos dispersos, prisioneiros distantes (cf. Lc 15). Nela, a «porta da vida», Deus torna-se novamente próximo aos homens e mulheres de todos os tempos, que assim podem novamente acessá-lo com confiança. Sob a sombra do Altíssimo, com o poder do Espírito do qual se torna para sempre morada, a Virgem-regina abre o caminho para a derrota do inimigo da humanidade e para a vitória definitiva do Filho (cf. Gn 3,15), com quem compartilha intimamente e indissoluvelmente, desde sua peregrinação terrena, a vida, a missão e o poder.Nesta obra de alcance cósmico, que durará até a parusia, a nova Eva, a mãe imaculada do Redentor e de todos os salvos, é colocada como autêntica auxiliar ao lado do novo Adão (cf. Gn 2,18) «cheia de graça e de verdade» (Jo 1,14). O evangelho do reino (reino de verdade e de vida, de santidade e de graça, de justiça, de amor e de paz) que Deus estabelece por meio da obra de seu Cristo, é então acompanhado pelo alegre anúncio da presença real de uma «filha de Davi», verdadeira «Arca da Aliança» que carrega Deus e verdadeira «tenda do encontro» que prepara incessantemente o encontro com o Salvador começando, desde a visita a Isabel, «a pregar o novo reino» (Efrém, Diatessaron I, 28), fermento de vida imortal já presente e ativo.Com o cumprimento do mistério pascal (cf. Jo 19,30) o mistério da «excelente filha de Sião» e «nova Jerusalém» torna-se o mistério da Igreja «esposa do Cordeiro» (Ap 21,2), regenerando nos sacramentos da fé os chamados à salvação. A recepção do dom que o Cristo moribundo faz ao discípulo, Igreja para cumprir integralmente a vontade do Pai e a comunhão de vida com ela (a confiança, consagração ao seu Coração Imaculado para poder compartilhar seu serviço ao reino) são, para a Igreja, simultaneamente graça a ser invocada e resposta de amor à vontade do Kyrios: «Chama aqueles que estão na sala [das núpcias: o Calvário!]: eles são teus servos. Cada um acorrerá, tremendo, e te escutará, ó Santa, quando disseres: ‘Onde está o Filho e meu Deus?'» (Romano o Melode, Maria aos pés da cruz 5).Do discurso bíblico resulta que a coroa de honra e de glória adorna a cabeça não apenas da Mãe de Deus e, antes ainda, de Cristo Senhor, mas também das cabeças de todos os seres humanos devido à sua soberania sobre o mundo e à participação na vida eterna à qual são chamados. Em particular, os cristãos, por força do seu batismo, estão empenhados no exercício da dignidade real de Cristo. No entanto, a Escritura nos adverte sobre o risco de isolar Maria coroada sem buscar a conexão com a sua história terrena. Portanto, a coroação na Bíblia é o segundo painel de um díptico indissolúvel, onde apenas quem se humilha será exaltado (Lc 14,11).É o destino do justo que se move entre dois polos: a humilhação, que não consiste em prostrações diante de Deus, mas na renúncia às próprias visões para aceitar o plano divino, e a exaltação, que indica o arrebatamento do justo e sua transferência para junto de Deus (cf. Sab 4,10). Maria passa da condição terrena para a celestial: a marginalizada torna-se objeto de bênção, a desconhecida é colocada em um trono de glória, a serva é coroada. Somente sob a condição de ser serva de Deus e da humanidade, Maria recebe a coroa da vida, da honra e da imortalidade.A rainha do mundo continua a ser a serva do Senhor em plena disponibilidade aos desígnios divinos. Nossa vida, como a de Cristo e de Maria, desenrola-se sob os signos da relacionalidade, da doação e da pro-existência. Com uma intuição refinada, o artista do arco triunfal em honra à Mãe de Deus em Santa Maria Maior retratou os anciãos do Apocalipse colocando aos pés do símbolo de Cristo as suas coroas. O mesmo gesto é realizado por Maria ao oferecer ao Filho não o diadema real que cinge sua fronte, mas os fiéis que, seguindo o rastro de sua fé, constituem seu orgulho e sua coroa vivente.
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