Maria poderia ter dito não? Graça e liberdade no fiat

Maria poderia ter dito não?

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Ecce ancilla Domini, fiat mihi secundum verbum tuum.
«Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1,38)

Se Maria foi preparada por Deus, cheia de graça e sem pecado, ainda podia dizer não ao anjo? A pergunta parece pôr em choque a graça e a liberdade. O Concílio Vaticano II responde que o sim de Maria foi verdadeiramente livre, e a teologia acrescenta que a graça, longe de o tornar automático, foi o que lhe permitiu ser inteiramente livre.

Deus pediu o consentimento

O Concílio começa por notar que Deus quis esperar a resposta de Maria: Voluit autem misericordiarum Pater, ut acceptatio praedestinatae matris incarnationem praecederet, «o Pai das misericórdias quis que a aceitação da mãe predestinada precedesse a Encarnação» (LG 56, AAS 57, 1965, p. 60). A Encarnação não aconteceu antes do sim de Maria, aconteceu depois dele.

Santo Tomás de Aquino, ao perguntar por que convinha que a Virgem fosse avisada antes de conceber, dá várias razões, entre elas ut voluntaria sui obsequii munera Deo offerret, «para que oferecesse a Deus os dons voluntários do seu serviço», e, da quarta, que é mostrar que há um certo matrimônio espiritual entre o Filho de Deus e a natureza humana, conclui que na Anunciação expetebatur consensus virginis loco totius humanae naturae, «pedia-se o consentimento da Virgem em lugar de toda a natureza humana» (Suma Teológica III, q. 30, a. 1). É esta a lição da edição eletrônica de R. M. Román. Leão XIII, ao retomar a frase na encíclica Octobri mense, cita-a com expectabatur, «esperava-se» (ASS 24, 1891-1892, p. 195). Maria respondeu em nome da humanidade, e uma resposta dada em nome de outros só tem valor se for livre.

Não de modo meramente passivo

O mesmo número da Lumen gentium diz como a Igreja entende essa resposta. Os santos Padres consideram Maria non mere passive a Deo adhibitam, sed libera fide et oboedientia humanae saluti cooperantem, «não utilizada por Deus de modo meramente passivo, mas cooperando na salvação humana com fé livre e com obediência» (LG 56, AAS 57, 1965, p. 60). A palavra decisiva é «livre».

O Concílio acrescenta que Maria abraçou a vontade salvífica de Deus pleno corde et nullo retardata peccato, «de todo o coração e sem nenhum impedimento de pecado» (LG 56). É aqui que se resolve a aparente contradição. O pecado não aumenta a liberdade, diminui-a. Santo Tomás, ao tratar dos anjos bem-aventurados, diz que poder escolher entre várias coisas mantendo a ordem para o fim pertence à perfeição da liberdade, mas quod eligat aliquid divertendo ab ordine finis, quod est peccare, hoc pertinet ad defectum libertatis, «escolher algo desviando-se da ordem para o fim, que é pecar, pertence ao defeito da liberdade» (Suma Teológica I, q. 62, a. 8, ad 3). Quem não tem pecado não está menos livre para dizer sim ou não, está mais livre, porque nada nele o arrasta contra o bem. A graça que preservou Maria do pecado não tomou o lugar da sua decisão, deu-lhe a liberdade plena para decidir.

A espera do mundo

São Bernardo, numa das homilias sobre o Evangelho da Anunciação, imagina a criação inteira suspensa da resposta de Maria: Exspectat angelus responsum: tempus est enim ut revertatur ad Deum qui misit illum, «o anjo espera a resposta, pois é tempo de voltar a Deus que o enviou». E suplica: Da, Virgo, responsum festinanter. O Domina, responde verbum, quod terra, quod inferi, quod exspectant et superi, «dá, ó Virgem, depressa a resposta. Ó Senhora, responde a palavra que a terra, os infernos e os céus esperam» (Super Missus est, hom. 4, 8, PL 183, 83).

O texto é uma oração e usa a linguagem da retórica. Não quer dizer que o plano de Deus estivesse em perigo, mas exprime bem o que a teologia afirma: o sim de Maria foi um ato real, não uma formalidade.

Livre e cheia de graça

Bento XVI, na exortação Verbum Domini, voltou ao tema: Enimvero, incarnatio Verbi cogitari nequit si praetermittitur libertas huius iuvenis mulieris, quae suo consensu ad ingressum Aeterni in tempus definitive cooperatur, «na verdade, a encarnação do Verbo não pode ser pensada se se deixa de lado a liberdade desta jovem mulher, que com o seu consentimento coopera de modo decisivo para a entrada do Eterno no tempo» (VD 27, AAS 102, 2010, p. 706).

João Paulo II, na Redemptoris Mater, retoma uma frase da instrução da Congregação para a Doutrina da Fé sobre a liberdade cristã e a libertação (22 mar. 1986, n. 97, indicada na nota 93 da encíclica): Maria, Deo ex toto obnoxia in eumque prorsus inclinata fidei suae ardore, est, una cum Filio suo, imago perfectissima libertatis humani generis et universi, «Maria, totalmente dependente de Deus e inteiramente inclinada para Ele pelo ardor da sua fé, é, junto com o seu Filho, a imagem perfeitíssima da liberdade do gênero humano e do universo» (RM 37, AAS 79, 1987, p. 410).

Podia, então, Maria ter dito não? Santo Tomás põe a objeção de que o consentimento seria desnecessário, porque a concepção da Virgem fora anunciada por uma profecia da predestinação, que se cumpre sem o nosso arbítrio, e responde: prophetia praedestinationis completur sine nostro arbitrio causante, non tamen sine nostro arbitrio consentiente, «a profecia da predestinação se cumpre sem que o nosso arbítrio a cause, mas não sem que o nosso arbítrio consinta» (Suma Teológica III, q. 30, a. 1, ad 1). Deus não forçou a resposta de Maria, esperou-a. E a sua liberdade, inteira e sem pecado, estava toda inclinada para Deus, e por isso disse sim. O conteúdo desse sim está em O fiat de Maria.

Referências

BENTO XVI. Adhortatio apostolica postsynodalis Verbum Domini, 30 set. 2010. Acta Apostolicae Sedis, Cidade do Vaticano, v. 102, p. 681-787, 2010. Texto latino reproduzido em: Marianum, Roma, v. 75, p. 335-338, 2013.

BERNARDO DE CLARAVAL, São. Homiliae super Missus est. In: MIGNE, J.-P. (ed.). Patrologiae cursus completus: series Latina. t. 183. Paris: Migne, 1854. col. 83.

BÍBLIA. Latim. The Holy Bible: Vulgate translation. [S. l.: s. n.], 29 jul. 2003. Edição eletrônica.

CONCÍLIO VATICANO II. Constitutio dogmatica de Ecclesia Lumen gentium, 21 nov. 1964. Acta Apostolicae Sedis, Cidade do Vaticano, v. 57, p. 5-71, 1965.

JOÃO PAULO II. Litterae encyclicae Redemptoris Mater, 25 mar. 1987. Acta Apostolicae Sedis, Cidade do Vaticano, v. 79, p. 361-433, 1987.

LEÃO XIII. Epistola encyclica Octobri mense, 22 set. 1891. Acta Sanctae Sedis, Roma, v. 24, p. 193-203, 1891-1892.

TOMÁS DE AQUINO, Santo. Summa theologiae. In: Opera omnia Sancti Thomae Aquinatis. Texto eletrônico preparado por Ricardo M. Román. Buenos Aires: [s. n.], 1998. I, q. 62, a. 8, ad 3, e III, q. 30, a. 1 e ad 1.

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