O exorcismo de São Domingos com o Rosário: o relato e a história

O exorcismo com o rosário de São Domingos de gusmão

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Rosarii annales luculenter ostendunt quo more praesertim a Dominicanis sodalibus haec prex usurpata sit temporibus Ecclesiae difficilibus propter diffusas haeresias.
«Os anais do Rosário mostram claramente como esta oração foi usada sobretudo pelos dominicanos em tempos difíceis para a Igreja, por causa da difusão das heresias» (João Paulo II, Rosarium Virginis Mariae 17)

Entre os relatos que ligam o Rosário à luta contra o demônio, um dos mais conhecidos é o do exorcismo que São Domingos de Gusmão teria feito perto de Carcassonne, no sul da França, num herege albigense possesso. A história chegou aos nossos dias sobretudo através de São Luís Maria Grignion de Montfort, e é hoje citada em livros sobre o exorcismo, como o do padre Francesco Bamonte (BAMONTE, 2014, p. 42-44). Vale a pena contá-la, mas também dizer o que ela é: um relato edificante da tradição dominicana, não um fato histórico documentado.

O relato

Em O segredo admirável do santo Rosário, Montfort conta que, enquanto Domingos pregava o Rosário nas vizinhanças de Carcassonne, lhe foi apresentado um albigense possesso. Diante de uma multidão que, segundo se dizia, passava de doze mil pessoas, o santo o exorcizou, e os demônios foram obrigados a responder às suas perguntas. Confessaram que eram quinze mil, porque o homem tinha combatido os quinze mistérios do Rosário, e que Domingos, com essa devoção, aterrorizava o inferno e lhes arrancava as almas (MONTFORT, Rosa 33, n. 101).

No mesmo relato, os demônios, forçados a falar da Virgem, chamam-na O inimica nostra, o nostra damnatrix, «ó nossa inimiga, ó nossa condenadora», e lamentam que, se aquela «Mariazinha» não se lhes tivesse oposto, já teriam destruído a Igreja (MONTFORT, Rosa 33, n. 103-104). O próprio Montfort, porém, põe na boca deles uma advertência que convém não esquecer: perché vuoi tu credere a noi? non siamo forse dei bugiardi?, «por que queres tu acreditar em nós? Não somos, por acaso, mentirosos?» (MONTFORT, Rosa 33, n. 102). Segundo o relato, o milagre converteu muitos hereges, que entraram até na confraria do Rosário (MONTFORT, Rosa 33, n. 104). Em outra obra, Montfort diz que o episódio vem das «crônicas dominicanas» e o chama de autêntico (MONTFORT, 2005, p. 87, n. 42).

O que diz a história

Os historiadores do Rosário são concordes: Domingos (c. 1170-1221) não instituiu o Rosário na forma que conhecemos. A atribuição aparece no século XV, com o dominicano bretão Alano de la Roche (c. 1428-1475), que a fundava em revelações e em tradições da sua Ordem. Já numa carta de 15 de março de 1901 ao abade Gasquet, o jesuíta Herbert Thurston escrevia que antes de Alano não há l’ombre de témoignage, «a sombra de um testemunho», que ligue os dominicanos ao Rosário (CREHAN, 1954, p. 580). O Marienlexikon explica a lenda por uma confusão de nomes feita por Alano (GERSTL, 1993, p. 561). George W. Shea, ao resumir a reconstrução de Herbert Thurston, registra que Alano pode ter confundido São Domingos com o cartuxo Domingos de Tréveris, ou da Prússia, que por volta de 1409 compôs cinquenta cláusulas sobre a vida de Jesus e de Maria para acrescentar às Ave-Marias (SHEA, 2019, «Origin of the Rosary»).

A oração formou-se aos poucos: a divisão em dezenas no século XIV, as cláusulas meditativas no início do XV, a escolha de quinze mistérios principais, que o dominicano Alberto da Castello fixou em 1521 (SHEA, 2019, «Origin of the Rosary». STAID, 1986, p. 1208). A primeira confraria do Rosário foi erigida por Alano entre 1464 e 1468 (BARILE, 2009, p. 1037). Um relato do início do século XIII que fale da «confraria do Rosário» e de «mistérios do Rosário» contém, portanto, anacronismos evidentes. No Segredo, Montfort não indica a fonte, e no Tratado remete só, de modo genérico, para as crônicas dominicanas. Bamonte indica a Vida de São Domingos de Teodorico de Apolda e diz que Montfort tirou o relato do jesuíta Boissieu, autor de Le chrétien prédestiné par la dévotion à la Sainte Vierge (BAMONTE, 2014, p. 44, nota 4).

Isto não significa que Domingos e a sua Ordem nada tenham a ver com a oração mariana. O Nuovo Dizionario di Mariologia observa que a lenda não se pode aceitar em absoluto, mas também não é totalmente falsa, porque Domingos e os seus frades usaram certamente essa forma popular de oração (STAID, 1986, p. 1207). E foram os dominicanos, a partir do século XV, os grandes propagadores do Rosário.

O que diz o Magistério

Durante séculos os papas repetiram a tradição dominicana. Leão XIII, na encíclica Supremi apostolatus (1883), escreveu que Domingos combateu os albigenses ea maxime precatione confisus, quam sacri Rosarii nomine ipse primus instituit, «confiando sobretudo na oração que, com o nome de santo Rosário, ele próprio instituiu primeiro» (ASS 16, 1883, p. 114). Pio XI, em 1937, foi mais cauteloso e disse que Domingos mirabiliter provexit, non sine Deiparae Virginis instinctu supernoque admonitu, «promoveu admiravelmente, não sem impulso da Virgem Mãe de Deus e advertência do alto», este modo de rezar (AAS 29, 1937, p. 376). Os documentos pontifícios, nota George W. Shea na Mariology organizada por Juniper Carol, falam de uma inspiração do alto e não impõem a tese histórica (SHEA, 2019, «Origin of the Rosary»).

João Paulo II, na Rosarium Virginis Mariae (2002), já não fala de instituição. Diz que o Rosário se foi formando no segundo milênio sob o sopro do Espírito (n. 1) e que os dominicanos o usaram em tempos de heresias (n. 17). E adverte contra o perigo de ver a coroa tamquam amuletum vel magicum quoddam instrumentum, «como um amuleto ou um instrumento mágico» (RVM 28).

O Rosário e a luta espiritual

O valor do Rosário na luta contra o mal não depende da historicidade deste relato. A Igreja recomenda-o como oração que contempla com Maria os mistérios de Cristo, e é dessa contemplação que vem a sua força. Mas o relato também não autoriza ninguém a «exorcizar com o rosário». O exorcismo dos possessos é um sacramental, e o Código de Direito Canônico só o permite a quem recebeu do Ordinário do lugar peculiarem et expressam licentiam, «licença peculiar e expressa», concedida apenas a um presbítero de piedade, ciência, prudência e integridade de vida (cân. 1172 §1-2). Aos fiéis cabe a oração, a vida sacramental e a confiança na proteção da Mãe de Deus.

Das palavras que o relato atribui aos demônios, a lição mais segura é a que eles próprios dão: são mentirosos. O que a Igreja ensina sobre o Rosário não precisa do testemunho deles.

Referências

BAMONTE, Francesco. La Vergine Maria e il diavolo negli esorcismi. 3. ed. Milano: Paoline, 2014. p. 42-44.

BARILE, Riccardo. Rosario. In: DE FIORES, Stefano, FERRARI SCHIEFER, Valeria e PERRELLA, Salvatore M. (org.). Mariologia. Cinisello Balsamo: San Paolo, 2009. p. 1034-1041.

CREHAN, J. H. Le mouvement théologique marial en Angleterre (1880-1950). In: DU MANOIR, Hubert (dir.). Maria: études sur la Sainte Vierge. t. 3. Paris: Beauchesne, 1954. p. 573-590.

GERSTL, D. Rosenkranzbilder. In: BÄUMER, Remigius e SCHEFFCZYK, Leo (org.). Marienlexikon. v. 5. St. Ottilien: EOS, 1993. p. 559-564.

IGREJA CATÓLICA. Codex Iuris Canonici. Acta Apostolicae Sedis, Cidade do Vaticano, v. 75, pars II, 1983. Cân. 1172, p. 204.

JOÃO PAULO II. Epistula apostolica Rosarium Virginis Mariae, 16 out. 2002. Disponível em: https://www.vatican.va/content/john-paul-ii/la/apost_letters/2002/documents/hf_jp-ii_apl_20021016_rosarium-virginis-mariae.html. Acesso em: 22 out. 2026.

LEÃO XIII. Epistola encyclica Supremi apostolatus officio, 1 set. 1883. Acta Sanctae Sedis, Roma, v. 16, p. 113-118, 1883.

MONTFORT, Luís Maria Grignion de. Il segreto ammirabile del santo Rosario per convertirsi e salvarsi. [S.l.: s.n., s.d.]. Rosa 33, n. 101-104.

MONTFORT, Luís Maria Grignion de. Trattato della vera devozione a Maria. In: DE FIORES, Stefano e GAMBERO, Luigi (org.). Testi mariani del secondo millennio. v. 6: Autori moderni dell’Occidente (secoli XVIII-XIX). Roma: Città Nuova, 2005. p. 87.

PIO XI. Litterae encyclicae Ingravescentibus malis, 29 set. 1937. Acta Apostolicae Sedis, Cidade do Vaticano, v. 29, p. 373-380, 1937.

SHEA, George W. The Dominican Rosary. In: CAROL, Juniper B. (ed.). Mariology. v. 3. Post Falls: Mediatrix Press, 2019. Edição sem paginação impressa, seção II «Origin of the Rosary».

STAID, E. D. Rosario. In: DE FIORES, Stefano e MEO, Salvatore (org.). Nuovo Dizionario di Mariologia. 2. ed. Cinisello Balsamo: Edizioni Paoline, 1986. p. 1207-1215.

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