Possessão demoníaca: o que a Igreja ensina e como distingue da doença

Por Prof. Dr. Daniel C. Afonso · Atualizado em
Possessão demoníaca é o estado, raro, em que o demônio domina de modo extraordinário o corpo de uma pessoa, sem conseguir tirar dela a liberdade da alma. A Igreja reconhece que ela existe, porque o próprio Cristo libertou possessos nos Evangelhos, mas pede muita prudência: antes de pensar em possessão, é preciso ter a certeza de que não se trata de uma doença, sobretudo psíquica (Catecismo, n. 1673). Só um sacerdote autorizado pelo bispo pode fazer o exorcismo.
Em resumo
- O que é: um domínio extraordinário do demônio sobre o corpo de alguém. A ação ordinária do demônio é a tentação, que todos sofrem.
- Na Bíblia: Jesus liberta possessos (Mc 1,23-26; Mc 5,1-20; Mc 9,14-29), e os apóstolos também (At 16,16-18).
- Os sinais: o ritual de 1999 cita falar línguas desconhecidas, revelar coisas ocultas e ter forças fora do comum, mas diz que são só «algum indício».
- O primeiro passo: procurar ajuda médica e psicológica, além de um sacerdote.
- A defesa do cristão: a vida sacramental, a oração e a confiança em Cristo, que já venceu o mal.
O que é possessão segundo a Igreja
A Igreja ensina que os demônios são anjos criados bons que se tornaram maus por escolha própria (IV Concílio de Latrão, DS 800). A ação deles é real, mas limitada: «o poder de Satanás não é infinito. Satanás é uma simples criatura […] impotente para impedir a edificação do Reino de Deus» (Catecismo, n. 395).
Os autores católicos de demonologia costumam distinguir graus da ação do demônio. Essa distinção é de tradição pastoral, não um ensinamento definido:
- A tentação: a ação ordinária, que todos sofrem e que se vence com a graça.
- A infestação: fenômenos ligados a lugares ou objetos.
- A vexação: sofrimentos físicos causados de fora.
- A obsessão: pensamentos e impulsos violentos que a pessoa não consegue afastar.
- A possessão: o domínio do corpo, em que a pessoa, durante as crises, não controla o que diz ou faz.
O que se costuma chamar de «as três fases da possessão» são simplificações dessa lista. O ritual da Igreja não fala de fases.
O que a Bíblia diz sobre possessão
Os Evangelhos mostram Jesus libertando possessos como sinal de que o Reino de Deus chegou:
- Na sinagoga de Cafarnaum, Jesus manda o espírito impuro calar-se e sair (Mc 1,23-26).
- O geraseno, que vivia nos sepulcros e se chamava «Legião», é libertado, e os demônios entram nos porcos (Mc 5,1-20). Veja In regionem Gerasenorum: o exorcismo e os porcos.
- O menino que os discípulos não conseguiram libertar: «Esta espécie não pode sair senão pela oração» (Mc 9,29).
- Maria Madalena, de quem «tinham saído sete demônios» (Lc 8,2).
- Paulo, em Filipos, liberta uma jovem «em nome de Jesus Cristo» (At 16,16-18).
O Novo Testamento também distingue possessão de doença. Mateus fala de «endemoninhados, epilépticos e paralíticos» como casos diferentes (Mt 4,24).
Os sinais que a Igreja considera
O ritual do exorcismo, De exorcismis et supplicationibus quibusdam (1999), dá, «segundo a prática comprovada», os sinais tradicionais:
- falar muitas palavras de uma língua desconhecida ou entender quem a fala;
- revelar coisas distantes ou ocultas;
- mostrar forças acima da idade ou da condição natural.
Mas o mesmo ritual diz logo que esses sinais dão só «algum indício» (indicium quoddam). Pede que se atenda sobretudo aos sinais de ordem moral e espiritual, como a aversão veemente a Deus, ao nome de Jesus, à Virgem Maria e aos santos, à Igreja, à Palavra de Deus e às coisas sagradas, sobretudo aos sacramentos (De exorcismis, n. 16).
O ritual também avisa que ninguém deve ser tido por possesso só porque o afirma, «pois qualquer um pode enganar-se pela própria imaginação».
Possessão ou doença?
Esse é o ponto em que a Igreja mais insiste:
«Muito diferente é o caso das doenças, sobretudo psíquicas, cujo tratamento depende da ciência médica. Por isso, antes de se proceder ao exorcismo, é importante ter a certeza de que se trata duma presença diabólica e não duma doença» (Catecismo da Igreja Católica, n. 1673).
O exorcista não pode proceder sem «certeza moral» de que a pessoa está realmente possuída (De exorcismis, n. 16). Por isso, os exorcistas trabalham com médicos e psicólogos, e muitos dos casos que chegam a eles são doenças que precisam de tratamento.
Se você ou alguém próximo está sofrendo, o caminho é procurar ao mesmo tempo um médico e um sacerdote da sua paróquia. Se o padre achar necessário, ele encaminha o caso ao exorcista da diocese. Nunca se deve recorrer a quem cobra por «libertações» ou promete curas.
Como o cristão se defende do mal
A arma ordinária contra o demônio é a vida cristã: a confissão, a Eucaristia, a oração, a Palavra de Deus e o recurso à Virgem Maria e aos anjos. O Pai-Nosso termina com «livrai-nos do mal», e a oração a São Miguel Arcanjo pode ser rezada por todos.
O exorcismo propriamente dito só pode ser feito por um sacerdote autorizado. Veja Exorcismo na Igreja Católica: o que é, quem pode fazer e como é o rito.
Perguntas frequentes
Quais são os sinais de possessão demoníaca?
O ritual de 1999 cita falar ou entender uma língua desconhecida, revelar coisas distantes ou ocultas e mostrar forças fora do comum. Diz, porém, que são só «algum indício» e que pesam mais os sinais morais e espirituais, como a aversão veemente a Deus, a Maria, aos santos e aos sacramentos. Antes de tudo, é preciso descartar uma doença.
O que a Bíblia diz sobre possessão demoníaca?
Os Evangelhos mostram Jesus libertando possessos, como o homem da sinagoga de Cafarnaum (Mc 1,23-26), o geraseno (Mc 5,1-20) e o menino que os discípulos não libertaram (Mc 9,14-29). Os Atos mostram Paulo libertando uma jovem em nome de Jesus (At 16,16-18). Mateus distingue os endemoninhados dos doentes (Mt 4,24).
Quais são as 3 fases da possessão?
O ritual da Igreja não fala de fases. Os autores de demonologia distinguem graus da ação do demônio (tentação, infestação, vexação, obsessão e possessão), e as «três fases» que circulam na internet são simplificações dessa lista.
Como fica uma pessoa possuída?
Segundo os relatos dos exorcistas, durante as crises a pessoa não controla o que diz ou faz e pode reagir com violência ao sagrado. Fora das crises, costuma levar uma vida normal. A Igreja pede muita prudência, porque sintomas parecidos aparecem em várias doenças.
Uma pessoa possuída é culpada?
Não necessariamente. A possessão não é pecado da pessoa e não lhe tira a liberdade da alma. Ela pode e deve continuar a rezar e a frequentar os sacramentos.
O que fazer se eu suspeito de possessão?
Procurar um médico e um sacerdote da sua paróquia. Se for necessário, o padre encaminha o caso ao exorcista autorizado pelo bispo. Desconfie de quem cobra por libertações.
Referências
- BÍBLIA SAGRADA: Mt 4,24; Mc 1,23-26; 5,1-20; 9,14-29; Lc 8,2; At 16,16-18.
- CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, n. 395 e 1673.
- CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO E A DISCIPLINA DOS SACRAMENTOS. De exorcismis et supplicationibus quibusdam. Cidade do Vaticano: Typis Vaticanis, 1999, n. 14-16.
- IV CONCÍLIO DE LATRÃO (1215), cap. 1 (DS 800).
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