Exorcismo na Igreja Católica: o que é, quem pode fazer e como é o rito

São Miguel de armadura dourada combate o dragão do Apocalipse e os anjos rebeldes, que caem do céu como monstros (pormenor)

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O exorcismo é a oração pela qual a Igreja pede, publicamente e com autoridade, em nome de Jesus Cristo, que uma pessoa ou um objeto seja protegido da ação do demônio e libertado do seu domínio. O exorcismo solene, chamado «grande exorcismo», só pode ser feito por um sacerdote com licença expressa do bispo, segundo o ritual aprovado em 1998 e publicado em 1999. Antes dele, a Igreja exige a certeza de que não se trata de uma doença.

Em resumo

  • O que é: uma oração da Igreja, do gênero dos sacramentais, em nome de Cristo (Catecismo, n. 1673).
  • Quem pode fazer: só um sacerdote com licença peculiar e expressa do bispo (cânon 1172).
  • O rito atual: De exorcismis et supplicationibus quibusdam, de 1999.
  • O primeiro cuidado: distinguir a presença do demônio de uma doença, sobretudo psíquica.
  • Os leigos: podem rezar, mas não podem usar a fórmula de exorcismo de Leão XIII (carta da Congregação para a Doutrina da Fé, 1985).

O que o Catecismo ensina sobre o exorcismo

O Catecismo da Igreja Católica define o exorcismo assim:

«Quando a Igreja pede publicamente e com autoridade, em nome de Jesus Cristo, que uma pessoa ou objecto seja protegido contra a acção do Maligno e subtraído ao seu domínio, fala-se de exorcismo» (Catecismo da Igreja Católica, n. 1673).

O mesmo número lembra que o poder vem do próprio Cristo: Jesus expulsou demônios (Mc 1,25-26), e dele a Igreja recebe o poder e o encargo de exorcizar (Mc 3,15; 6,7.13; 16,17).

O Catecismo distingue duas formas:

  • o exorcismo simples, que faz parte da celebração do Batismo;
  • o exorcismo solene, o «grande exorcismo», que «só pode ser feito por um presbítero e com licença do bispo» (n. 1673).

O exorcismo não é um duelo entre duas forças iguais. O IV Concílio de Latrão ensinou que «o diabo e os outros demônios foram criados por Deus bons por natureza, mas tornaram-se maus por si mesmos» (DS 800). O exorcismo aplica a uma pessoa concreta a vitória que Cristo já alcançou. Veja também Anjos caídos: quem são e o que a Bíblia diz.

Quem pode fazer um exorcismo

A norma é o cânon 1172 do Código de Direito Canônico, de 1983:

«Ninguém pode proferir legitimamente exorcismos sobre os possessos, se não tiver obtido do Ordinário do lugar licença peculiar e expressa» (cân. 1172 §1).

O segundo parágrafo diz a quem o bispo pode dar essa licença: só a um presbítero dotado de piedade, ciência, prudência e integridade de vida (cân. 1172 §2). O ritual de 1999 acrescenta que ele deve estar «especificamente preparado para esta função» (De exorcismis, n. 13). O exorcista pode ser nomeado de modo estável ou para um caso determinado.

O texto completo do cânon, com a sua história, está em Cânon 1172 (1983): a disciplina canônica do exorcismo.

Como é o rito do exorcismo

O livro que a Igreja latina usa hoje é o De exorcismis et supplicationibus quibusdam, «Sobre os exorcismos e algumas súplicas». São João Paulo II o aprovou em 1.º de outubro de 1998. A Congregação para o Culto Divino o promulgou em 22 de novembro de 1998, e a edição latina saiu em 26 de janeiro de 1999. Ele substituiu o título XII do Ritual Romano de 1614.

O rito é uma celebração litúrgica, com:

  • a aspersão com água benta;
  • a ladainha dos santos e os salmos;
  • a leitura do Evangelho;
  • a imposição das mãos e o sopro;
  • a profissão de fé ou a renovação das promessas do Batismo, o Pai-Nosso e o sinal da cruz;
  • a fórmula deprecativa, que pede a Deus a libertação;
  • a fórmula imperativa, em que o sacerdote, em nome de Cristo, ordena ao demônio que saia.

A Virgem Maria tem lugar próprio no rito, como aquela que esmaga a cabeça da serpente. A descrição completa, com o texto latino, está em De exorcismis (1999): o novo rito romano do exorcismo.

Antes do exorcismo: distinguir de uma doença

A Igreja é muito prudente. O Catecismo diz:

«Muito diferente é o caso das doenças, sobretudo psíquicas, cujo tratamento depende da ciência médica. Por isso, antes de se proceder ao exorcismo, é importante ter a certeza de que se trata duma presença diabólica e não duma doença» (n. 1673).

O ritual manda que o exorcista não proceda sem «certeza moral» de que a pessoa está realmente possuída e, se possível, com o consentimento dela (De exorcismis, n. 16). Por isso, o exorcista costuma trabalhar com médicos e psicólogos. Os sinais que a Igreja considera estão explicados em Possessão demoníaca: o que a Igreja ensina.

O que os leigos podem e não podem fazer

Todo fiel pode e deve rezar contra o mal: o Pai-Nosso termina com «livrai-nos do mal», e a oração a São Miguel Arcanjo é recomendada a todos.

Mas há limites. Em 29 de setembro de 1985, a Congregação para a Doutrina da Fé, numa carta assinada pelo cardeal Joseph Ratzinger, lembrou aos bispos que, por causa do cânon 1172, «mesmo aos fiéis não é lícito usar a fórmula do exorcismo contra Satanás e os anjos apóstatas» publicada por Leão XIII, «e muito menos usar o texto integral deste exorcismo». A carta também pediu que os leigos não conduzam reuniões de oração em que se interpelem os demônios diretamente. Veja a carta Inde ab aliquot annis (1985) e o texto de Leão XIII (1890).

Perguntas frequentes

Como é feito o exorcismo na Igreja Católica?

É uma celebração litúrgica feita por um sacerdote autorizado pelo bispo, segundo o ritual de 1999. Tem orações, salmos, leitura do Evangelho, imposição das mãos, a profissão de fé e as fórmulas em que se pede a Deus a libertação e se ordena ao demônio, em nome de Cristo, que saia. Antes, a Igreja exige a certeza de que não se trata de uma doença.

Quem pode fazer exorcismo na Igreja Católica?

Só um sacerdote que tenha recebido do bispo diocesano uma licença peculiar e expressa, e que seja dotado de piedade, ciência, prudência e integridade de vida (cânon 1172). Sem essa licença, ninguém pode fazer o exorcismo solene.

É preciso ser padre para ser exorcista?

Sim. O Código de Direito Canônico só permite dar a licença a um presbítero, e o Catecismo diz que o grande exorcismo só pode ser feito por um presbítero com licença do bispo (n. 1673). Leigos e diáconos podem rezar pela libertação, mas não fazer o exorcismo.

Quem foi o maior exorcista da Igreja Católica?

A Igreja não faz ranking de exorcistas. No século XX, ficou muito conhecido o padre Gabriele Amorth (1925-2016), exorcista da diocese de Roma e fundador da Associação Internacional dos Exorcistas. O modelo de todos é o próprio Cristo, de quem a Igreja recebe o poder de exorcizar.

O exorcismo do Batismo é um exorcismo de verdade?

Sim, é a forma simples do exorcismo. Na celebração do Batismo, a Igreja reza para que a pessoa seja libertada do poder do mal antes de renunciar a Satanás e professar a fé (Catecismo, n. 1673).

Um leigo pode rezar a oração de Leão XIII?

A oração curta a São Miguel Arcanjo, que Leão XIII compôs e que se rezava no fim da Missa, pode ser rezada por todos. O que a Igreja não permite aos fiéis é usar a fórmula de exorcismo contra Satanás e os anjos apóstatas, que é mais longa e fazia parte do ritual (carta da Congregação para a Doutrina da Fé, 1985).

Referências

  • CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, n. 1673.
  • CÓDIGO DE DIREITO CANÔNICO (1983), cân. 1166 e 1172.
  • CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO E A DISCIPLINA DOS SACRAMENTOS. De exorcismis et supplicationibus quibusdam. Cidade do Vaticano: Typis Vaticanis, 1999.
  • CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Carta Inde ab aliquot annis, 29 set. 1985. Acta Apostolicae Sedis, v. 77, p. 1169-1170, 1985.
  • IV CONCÍLIO DE LATRÃO (1215), cap. 1 (DS 800).
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