O fogo lançado sobre a terra e as raízes da caridade

«Christus dilexit ecclesiam»: Paulo, Jerusalém e Maria imagem da Igreja

Ignem veni mittere in terram, et quid volo nisi ut accendatur?
Lc 12,49

A liturgia da quinta-feira da 29ª semana do Tempo Comum coloca diante de nós um contraste que só a fé sabe segurar sem o dissolver. De um lado, a oração ajoelhada de Paulo, que pede para os fiéis de Éfeso a habitação de Cristo nos corações e a raiz da caridade. Do outro, a palavra incandescente de Jesus em Lc 12,49-53, que anuncia fogo, batismo e divisão. O salmo responsorial, cantando que consilium autem Domini in æternum manet, o desígnio do Senhor permanece para sempre (Sl 32,11), é a ponte entre a súplica e a chama. As três leituras não descrevem realidades opostas, mas o único movimento pelo qual Deus enraíza o amor no mundo e, ao enraizá-lo, incendeia tudo o que a ele resiste.

I. A oração ajoelhada e a plenitude de Deus

A perícope de Éfeso é, antes de tudo, um gesto do corpo tornado teologia. Paulo escreve flecto genua mea ad Patrem, dobro os meus joelhos diante do Pai (Ef 3,14), e nesse ajoelhar-se condensa a inteira atitude da criatura perante o Criador de quem omnis paternitas in cælis et in terra nominatur, de quem toda paternidade recebe o nome no céu e na terra (Ef 3,15). A prece não pede bens exteriores. Pede três coisas que são uma só, o robustecimento do homem interior pelo Espírito, a habitação de Cristo pela fé nos corações, e o enraizamento na caridade. Rezar não é arrancar de Deus um favor, mas deixar que Deus edifique em nós a sua morada.

O centro da súplica é uma imagem dupla que a Vulgata guarda com precisão, in caritate radicati, et fundati, enraizados e fundados na caridade (Ef 3,17). A metáfora é ao mesmo tempo agrícola e arquitetónica. A raiz pertence à árvore que se aprofunda no solo escondido, o alicerce pertence à casa que se ergue sobre a rocha. Paulo não escolhe entre o orgânico e o construído, mede antes o amor pela sua capacidade de sustentar altura. Por isso desdobra a caridade nas quatro dimensões, latitudo, et longitudo, et sublimitas, et profundum, a largura, o comprimento, a altura e a profundidade (Ef 3,18), como se o amor de Cristo fosse um espaço a habitar e não um sentimento a experimentar. E a súplica culmina onde só a graça pode conduzir, ut impleamini in omnem plenitudinem Dei, a fim de que sejais cumulados até toda a plenitude de Deus (Ef 3,19). A doxologia final, dirigida àquele que pode agir superabundanter quam petimus aut intelligimus, superabundantemente além do que pedimos ou concebemos (Ef 3,20), fecha a oração no reconhecimento de que a medida do dom excede sempre a medida do pedido.

II. O fogo, o batismo e a espada

O Evangelho começa com uma confissão de desejo ardente que desmonta qualquer imagem morna do Redentor. Ignem veni mittere in terram, et quid volo nisi ut accendatur?, Eu vim lançar fogo sobre a terra, e que quero senão que se acenda? (Lc 12,49). O fogo, na tradição profética, é o Espírito que purifica e o juízo que separa a escória do ouro. Jesus não anuncia uma catástrofe, anuncia a sua paixão como incêndio de amor destinado a alastrar. A frase seguinte revela a fonte do fogo, batismo autem habeo baptizari, tenho de receber um batismo (Lc 12,50), e o verbo coarctor, sinto-me angustiado, exprime a compressão interior de quem caminha para a cruz com urgência e não com medo.

Vem então a palavra que escandaliza os que reduzem o Evangelho a doçura. Putatis quia pacem veni dare in terram? Non, dico vobis, sed separationem, julgais que vim trazer a paz à terra? Não, digo-vos, mas a divisão (Lc 12,51). A divisão anunciada atravessa a célula mais íntima da sociedade, a casa de cinco pessoas onde o pai se opõe ao filho, a mãe à filha, a sogra à nora. A paz de Cristo não é a ausência de conflito, mas a verdade que obriga cada coração a decidir-se. Não é o Salvador que quer a discórdia, é a luz que, ao vir, separa inevitavelmente quem a acolhe de quem a recusa. O fogo do versículo 49 e a espada do versículo 51 são o mesmo dom visto por dentro e por fora, dentro aquece e enraíza, fora expõe e divide.

III. A caridade que enraíza e o fogo que separa

As duas leituras parecem puxar em direções contrárias e é precisamente aí que se revela a sua unidade. Paulo pede raiz e alicerce, Lucas anuncia chama e divisão, e no entanto trata-se do único Cristo que habita e do único Cristo que julga. A caridade que enraíza os fiéis de Éfeso é o mesmo fogo que Jesus deseja ver aceso sobre a terra. Não há oposição entre o amor que funda e o amor que arde, porque o amor verdadeiro nunca é neutro. Aquilo que enraíza uns necessariamente desenraíza a mentira que os prendia.

O salmo dá a chave desta unidade ao proclamar que rectum est verbum Domini, et omnia opera ejus in fide, reta é a palavra do Senhor e todas as suas obras merecem fé (Sl 32,4). A palavra que edifica a morada interior de Éfeso e a palavra que lança fogo em Lucas são a mesma palavra reta, e a sua retidão é justamente o que produz divisão diante das almas tortas. O desígnio que in æternum manet permanece para sempre não muda conforme o acolhimento humano. Muda apenas o efeito, plenitude para quem se enraíza, separação para quem resiste. A angústia de Cristo perante o seu batismo e a súplica ajoelhada de Paulo brotam da mesma fonte, o desejo de que a plenitude de Deus tome posse do homem interior custe o que custar ao homem exterior.

IV. Maria, raiz incendiada e sinal de contradição

Onde as leituras não a nomeiam, a Virgem é ainda a chave que as decifra. Maria é a criatura na qual a oração de Éfeso se cumpriu sem reserva, aquela em quem Cristo habitou pela fé de modo tão radical que também o habitou pela carne. Nela a caridade não foi apenas raiz e alicerce, foi ventre e morada. Quando Paulo pede que os fiéis sejam in caritate radicati, et fundati (Ef 3,17), descreve antecipadamente aquela que o concílio de Éfeso, no ano de 431, proclamaria Theotókos, a Mãe de Deus, precisamente na cidade a que esta carta se dirige. A coincidência não é ornamento devoto, é lei teológica, a plenitude que Paulo suplica para a Igreja realizou-se primeiro na plenitude de graça saudada em Lc 1,28.

Mas Maria é também a chave do Evangelho do fogo. O ancião Simeão anunciou-lhe que o Filho estava posto in signum cui contradicetur, como sinal de contradição, e que uma espada lhe atravessaria a alma (Lc 2,34-35). A divisão que Jesus anuncia em Lc 12,51 tem na Mãe a sua primeira testemunha e a sua vítima mais pura. Ela não ficou fora do fogo, esteve no seu foco, de pé junto à cruz, stabat, quando a espada da separação cortou o próprio coração materno. E é aqui que a mariologia recolhe as três leituras numa só verdade. A Virgem prova que o fogo que divide e a caridade que enraíza não são inimigos, porque nela a divisão do Calvário foi o modo extremo do enraizamento no amor. Quem se une a Maria aprende que aceitar a espada é o caminho para a plenitude, e que a paz de Cristo se conquista atravessando, e não evitando, o incêndio. Assim a serva do Senhor, enraizada e fundada na caridade, permanece para nós a primeira a arder sem se consumir, chama viva do desígnio que in æternum manet.

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