O pão vivo que desceu do céu: Dt 8, 1Cor 10 e corpus christi em Jo 6

Ego sum panis vivus qui de caelo descendi: si quis manducaverit ex hoc pane, vivet in aeternum.
Jo 6,51
O domingo do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, Corpus Christi, articula três textos em torno do pão que Deus dá e que alimenta mais fundo do que o pão comum. Dt 8,2-3.14b-16a recorda o maná no deserto: Deus humilhou Israel, deixou-o ter fome, e alimentou-o com o maná para ensinar que o homem vive de toda a Palavra de Deus, não só de pão. 1Cor 10,16-17 afirma que o cálice da bênção é comunhão com o sangue de Cristo e que o pão que partimos é comunhão com o corpo de Cristo, fazendo dos muitos um único corpo. Jo 6,51-58 oferece o discurso eucarístico de Jesus em Cafarnaum: eu sou o pão vivo que desceu do céu, a minha carne é verdadeiramente comida e o meu sangue é verdadeiramente bebida. Os três textos traçam uma linha de Moisés a Paulo a João: do maná que alimentou provisoriamente ao pão que alimenta para sempre.
I. A primeira leitura: Dt 8,2-3.14b-16a
Moisés lembra a Israel os quarenta anos de caminho no deserto: «Recorda-te de todo o caminho que o Senhor teu Deus te fez percorrer durante estes quarenta anos no deserto, a fim de te humilhar e pôr à prova para conhecer o que estava no teu coração» (Dt 8,2). Deus deixou Israel ter fome e depois alimentou-o com o maná. «Para te fazer compreender que o homem não vive só de pão, mas de tudo o que sai da boca do Senhor» (v.3). Jesus citará estas palavras exatas quando for tentado no deserto a transformar pedras em pão (Mt 4,4). A experiência do maná no deserto é a pedagoga da Eucaristia: Deus alimenta de modo que transcende o pão comum, e o dom está sempre acima do que se pede e acima do que se merece.
II. A segunda leitura: 1Cor 10,16-17
«O cálice da bênção que abençoamos, não é ele a comunhão com o sangue de Cristo? O pão que partimos, não é ele a comunhão com o corpo de Cristo»? (1Cor 10,16). Paulo afirma a comunhão real: não símbolo, não memorial apenas, mas participação efectiva no corpo e sangue de Cristo. E acrescenta a consequência eclesial: «Porque sendo nós muitos, somos um só pão e um só corpo, pois todos participamos do mesmo pão» (v.17). A Eucaristia tem uma dimensão vertical (comunhão com Cristo) e uma dimensão horizontal (comunhão entre os membros do corpo). A unidade da Igreja não é construída pela organização humana: é criada pela partilha do mesmo pão eucarístico. Corpus Christi celebra simultaneamente o corpo de Cristo no pão e o corpo de Cristo que é a Igreja.
III. O evangelho: Jo 6,51-58
No discurso do pão da vida em Cafarnaum, Jesus faz a afirmação eucarística mais explícita dos Evangelhos. «Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Se alguém comer deste pão viverá para sempre. E o pão que eu darei é a minha carne para a vida do mundo» (Jo 6,51). Os judeus ficam escandalizados: «Como pode este dar-nos a carne a comer»? Jesus não atenuou a afirmação: «Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tendes vida em vós» (v.53). «A minha carne é verdadeiramente comida e o meu sangue é verdadeiramente bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele» (vv.55-56). A permanência mútua, «permanecer em mim e eu nele», é o fruto mais alto da Eucaristia: não uma experiência mas uma inhabidação real. «Como eu vivo pelo Pai, assim também quem me come viverá por mim» (v.57). A Eucaristia não é um meio: é o modo de vida do discípulo.
IV. Maria e a arca do novo maná
Dt 8 fala do maná que Deus deu a Israel no deserto para ensinar que o homem vive da Palavra de Deus: Maria é a arca do novo maná. O maná era guardado na arca da aliança no Santo dos Santos do Templo. Maria guardou em seu seio por nove meses o Pão vivo que desceu do céu antes de o dar ao mundo em Belém. Quando Isabel viu Maria aproximar-se, exclamou: «De onde me vem esta graça de vir ter comigo a mãe do meu Senhor»? (Lc 1,43): as palavras de Isabel ecoam a pergunta de Davi diante da arca da aliança (2Sm 6,9). 1Cor 10 afirma que a partilha do único pão faz de muitos um único corpo: Maria é o membro do corpo eucarístico que mais plenamente participou no sacrifício do pão partido. Ao pé da Cruz, ela que dera a carne ao Filho em Belém foi testemunha da carne entregue para a vida do mundo. Jo 6 diz que «o pão que eu darei é a minha carne para a vida do mundo»: a carne que Jesus dará na Eucaristia é a carne que recebeu de Maria. A Eucaristia é o dom do Filho ao mundo, e a carne do Filho vem de Maria. Corpus Christi contempla este laço insolúvel entre o pão da vida e a mulher que lhe deu vida.
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